Arábia Saudita

Milhares de trabalhadores torram numa Arábia Saudita que não paga

Só da Índia e do Paquistão, há quase 16 mil trabalhadores abandonados em campos de trabalho que não recebem um salário há oito meses

Milhares de trabalhadores estrangeiros, do setor da construção, estão presos numa Arábia Saudita que, estrangulada pela queda a pique dos preços do petróleo, não tem dinheiro para pagar às construtoras.

A história é contada pela Bloomberg, que falou com vários operários oriundos do Sul da Ásia e que, agora, vivem em campos de betão no meio do deserto, contando já várias semanas de salários em atraso. Sem emprego e sem dinheiro – e, em alguns períodos, até mesmo sem comida nestes campos – os trabalhadores não têm forma de sair do país.

Um trabalhador asiático nas obras de construção em Riade, na Arábia Saudita. Fotografia: REUTERS/Faisal Al Nasser

Um trabalhador asiático nas obras de construção em Riade, na Arábia Saudita. Fotografia: REUTERS/Faisal Al Nasser

“Não nos dão qualquer resposta sobre os nossos salários”, refere à Bloomberg Mohammed Salahaldeen, oriundo do Bangladesh e a viver num campo de trabalho em Riade, montado pela construtora saudita Saudi Oger. “Depois de me pagarem o meu salário e bónus, vou-me embora”, garante.

O problema, conta a agência financeira, é a pressão causada pela queda dos preços do petróleo, maior fonte de riqueza da Arábia Saudita. As autoridades sauditas atrasam os pagamentos às construtoras, que, durante décadas, confiaram no investimento público para assegurar o crescimento.

O resultado? Números avassaladores. Só da Índia e do Paquistão, há quase 16 mil trabalhadores abandonados nestes campos que não recebem um salário há oito meses. Por outro lado, também não lhes são concedidos os vistos de que precisam para deixar a Arábia Saudita, onde, por norma, é aos empregadores que cabe tratar destes vistos.

Trabalhadores asiáticos numa obra em Riade. Fotografia: REUTERS/Faisal Al Nasser

Trabalhadores asiáticos numa obra em Riade. Fotografia: REUTERS/Faisal Al Nasser

As condições são impressionantes: dormem oito pessoas em quartos de betão e as casas de banho são partilhadas com animais selvagens. As temperaturas atingem os 50 graus no verão e a eletricidade, que assegura o ar condicionado, é frequentemente desligada.

“Não podem ir para um hospital porque já não têm seguro”, conta Mohammed Khan, um enfermeiro de Mumbai que trata dos trabalhadores. “Não têm dinheiro”, resume à Bloomberg.

Agora, e depois de dias em que nem comida ou medicamentos havia, o rei saudita ordenou que sejam concedidos produtos alimentares e serviços médicos aos trabalhadores presos nos campos. Poderão também ser concedidos vistos diretamente por parte do governo. Os trabalhadores não querem, contudo, sair do país sem o dinheiro que lhes é devido.

Para os próximos tempos, as perspetivas não são as melhores. Um inquérito feito pela Bloomberg junto de vários economistas aponta para que os cortes nos custos resultem em novo abrandamento do crescimento económico este ano, para os níveis mais baixos desde a crise financeira.

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