Missão do FMI. Terceira vaga da pandemia noutros países complica retoma de Portugal

O pior cenário ainda pode materializar-se. França, Alemanha, Holanda e Brasil valiam um terço dos hóspedes estrangeiros que visitam Portugal. Situação sanitária nestes países está cada vez mais degradada.

O cenário central apontava para uma recuperação económica em 2021 e especialmente forte no segundo semestre deste ano, em Portugal. No entanto, pode não ser bem assim.

Há vários países europeus que entraram ou podem entrar numa terceira vaga da pandemia e isso pode complicar a saída desta crise por causa da sobejamente conhecida vulnerabilidade da economia portuguesa face ao turismo.

O aviso é da nova chefe de missão de Portugal do Fundo Monetário Internacional (FMI), Laura Papi, em declarações ao Dinheiro Vivo (DV).

Há cerca de um mês, a Comissão Europeia já tinha relevado esse risco. Agora, ele começa a aparecer.

Numa altura em que Portugal apresenta indicadores cada vez melhores na questão da pandemia, há vários países europeus onde o alarme da covid disparou, outra vez, por causa da iminência de uma terceira vaga, ainda que tardia (quando se compara com o caso português).

"Em Portugal, esperamos uma recuperação forte no segundo semestre do ano, mas isso vai depender do abrandamento da pandemia e de uma aceleração da vacinação tanto em Portugal, como nos países de onde procedem os turistas" que visitam o país, observa a economista.

"No entanto, existem alguns riscos para a recuperação em setores que são intensivos em contacto físico e proximidade", acrescenta a líder da missão do antigo credor de Portugal.

O FMI emprestou cerca de 26 mil milhões de euros ao país na altura da bancarrota, empréstimo que, entretanto, foi todo saldado.

Laura Papi diz exatamente o que a preocupa. O problema é que "Portugal teve uma terceira vaga", mas, entretanto, também "começou uma terceira vaga em vários países europeus". Ou seja, "há riscos aqui para a recuperação de Portugal", avisa a chefe de missão do FMI.

Risco de terceira vaga em quatro países do top 10 de turistas

De acordo com vários especialistas e órgãos de informação internacionais, somam-se os países europeus que temem uma terceira vaga tardia: são eles Alemanha, França, Grécia, Holanda, Hungria, República Checa e Eslováquia. Fora da Europa, temos o Brasil, onde a situação sanitária está cada vez mais degradada.

Num ano normal (em 2019, antes da pandemia), França, Alemanha, Holanda e Brasil estavam no top 10 dos principais mercados emissores de hóspedes (estrangeiros) em Portugal, sendo responsáveis na altura por cerca de um terço do turismo estrangeiro total durante o ano, indicam contas do DV a partir de números do Turismo de Portugal.

O risco de que fala o FMI existe e, nalguns casos, parece estar a materializar-se.

Diretor do FMI elogia suspensão temporária do Pacto

O diretor do departamento europeu do FMI, Alfred Krammer, também está preocupado e por isso aplaude algumas iniciativas recentes que podem ajudar a dissipar as nuvens negras que estão no horizonte.

Também em declarações ao DV, este alto responsável do Fundo diz que "concordamos com a proposta da Comissão Europeia de manter ativada a cláusula de salvaguarda do Pacto de Estabilidade e Crescimento por mais um ano, em 2022".

Esta decisão faz com que os países ainda possam continuar a estimular as economias através de impulso orçamental público, adiando por mais um ano as regras que obrigam a cortar profundamente no défice e na dívida.

Para Kammer, "é importante que os países mantenham um apoio adequado à economia até que a recuperação esteja firmemente estabelecida e evitem retirar os estímulos de forma prematura".

Atualmente, o Fundo é, das principais instituições que fazem previsões para a economia portuguesa, a mais otimista, mas isso explica-se com o facto de essas contas terem sido feitas em outubro, ainda o País não tinha levado com o embate completo da segunda terceira vaga.

Nem com a extrema agressividade da terceira onda, que arrasou com a situação sanitária em janeiro e fevereiro, quase conduziu ao colapso o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e levou o governo a decretar mais um duro confinamento, que deverá durar ao todo dois meses e meio (até final de março, em princípio).

O FMI estava à espera que a economia crescesse cerca de 6,5% este ano, depois de uma contração histórica de 7,6% em 2020.

No início de abril, o Fundo apresentará novas previsões para Portugal, mas deverá seguir o sentido das restantes instituições, revendo as suas projeções de crescimento em abaixa.

Bruxelas fez avisos muito parecidos há 15 dias

Foi o que fez, por exemplo, a Comissão Europeia, há pouco mais de 15 dias, quando reviu em baixa o crescimento previsto para este ano, de 5,4% no outono para 4,1% agora.

Tal como o FMI, a Comissão confia, num cenário central, que Portugal vai evitar uma recessão técnica este ano (dois trimestres seguidos de queda) já que volta a crescer no período de abril-junho, e aposta num segundo semestre bastante forte.

A CE disse que está à espera de "uma recuperação grande nos meses do verão", designadamente "uma recuperação notável do turismo", sobretudo assente nas visitas de turistas europeus (UE).

Ainda assim, a CE considera que esta retoma turística não vai levar o país para os níveis que existiam antes da pandemia. Até pode ser uma retoma forte, mas é insuficiente para reverter a destruição que marcou 2020.

E a Comissão notou outro problema. Se é verdade que o turismo é o setor que pode ditar uma retoma mais visível no verão, ele também pode espoletar o pior, se alguma coisa correr mal nas aberturas das economias europeias, por exemplo. E na própria economia portuguesa.

Em Portugal, "espera-se um regresso total [da economia] aos níveis pré-pandémicos no final de 2022", mas "os riscos permanecem significativos devido à grande dependência do país do turismo estrangeiro, que continua a enfrentar incertezas relacionadas à evolução da pandemia", avisa a equipa de Bruxelas.

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