Greve dos motoristas

Motoristas e patrões. Na guerra que “nunca mais acaba” a greve ainda pode cair

TIAGO PETINGA/LUSA
TIAGO PETINGA/LUSA

São como “a Coreia do Norte e a Coreia do Sul”, e “não é em dois dias” que vão enterrar o machado de guerra. Depois de uma semana de greve, os motoristas de matérias perigosas ameaçam voltar a parar, de 7 a 22 de setembro, desta vez durante as horas extraordinárias, fins de semana e feriados. O governo já veio dizer que “há cada vez mais condições” para que a paralisação não aconteça. Sindicato e patrões voltam a sentar-se à mesa na segunda-feira, na DGERT, para avaliarem os serviços mínimos. O Dinheiro Vivo falou com as duas partes, que admitem ainda ser possível travar o protesto.

( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

André Matias de Almeida, porta-voz da Antram: “Esta greve está longe de poder vir a ter o impacto da anterior”

A Antram referiu que não aceita negociar enquanto o pré-aviso de greve estiver em cima da mesa. Acredita que ainda há forma de evitar a paralisação?
Será possível evitar a greve se o sindicato perceber que não pode fazer duas coisas: colocar uma espada sobre a cabeça da Antram e entrar num processo de mediação que o próprio sindicato pediu, mas cujos resultados estão definidos à partida. Isso não é mediação, é imposição.

O próximo encontro entre as duas partes será para definir a necessidade de serviços mínimos. Acha que vão chegar a um consenso, sem que seja necessária a intervenção do governo?
Creio que se o sindicato não pedir serviços mínimos e aceitar os nossos não há razão para conflito. Aceitam os nossos e pronto. Se não, podemos chegar a um entendimento. Acredito que perceberá que está em cima da mesa a possibilidade de serviços, como hospitais, serem assegurados.

Conseguem prever qual será o impacto que a greve às horas extraordinárias, fins de semana e feriados terá no país?
Os setores mais afetados serão todos os que não vejam cumpridos de forma rigorosa e de boa-fé os serviços mínimos. As entregas nos hospitais, nos aeroportos, nas forças de segurança pública. Se tudo for cumprido de boa-fé e não voltarmos a ter veículos a circular a 40 quilómetros por hora, como aconteceu durante um dia na outra greve, esta paralisação está muito longe de poder vir a ter o impacto que teve a greve ao trabalho total. Mas isso não quer dizer que não tenha de haver serviços mínimos.

O sindicato refere que há empresas a pagar aos motoristas “por baixo da mesa”, tendo feito inclusive uma queixa às autoridades. Qual a resposta da Antram a esta acusação?
Utilizar em praça pública o termo “pagamentos por baixo da mesa”, sabendo que não é possível que estes pagamentos sejam feitos em dinheiro, tem naturalmente uma conotação difamatória. Era importante que quem faz uma acusação com esta gravidade pudesse demonstrar um único documento que o comprove. Não existem pagamentos em efetivo que não estejam no recibo de vencimento. Acho que o sindicato se refere a pagamentos a título de ajudas de custo que deveriam ser feitos a nível de salário. Se estamos a falar de efetivo temos um problema muito grande para resolver.

O vice-presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, Bruno Fialho, à chegada à Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho.  FOTO: RODRIGO ANTUNES/LUSA

FOTO: RODRIGO ANTUNES/LUSA

Bruno Fialho, Conselheiro do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP): “Os motoristas vão mostrar que há um novo clima, propício ao diálogo”

O presidente do Sindicato dos Motoristas referiu que estão a ser feitas “diligências” no sentido de se chegar ao diálogo com os patrões. Considera que é possível evitar a greve?
Acredito desde o primeiro dia que vai existir entendimento, porque as partes não podem ser tão irracionais ao ponto de colocarem o país neste constante impasse. As pessoas têm de ter calma. Diferendos tão profundos como este não se resolvem em dois dias. Imagine-se o que era sentar à mesa a Coreia do Norte e a Coreia do Sul e esperar que resolvessem todos os seus problemas em três tempos. Não é possível. Tem o seu timing e por isso demora mais um pouco.

Estarão em breve reunidas as condições para que as negociações continuem?
O principal era levantar a greve, que estava a causar enormes prejuízos ao país. A partir desse momento voltámos a poder sentar-nos para conversar. Demora mais tempo. Depende das partes e dos mediadores, neste caso eu e o governo, terem calma e engenho para contornar as dificuldades que vão acontecendo.

Antevê um novo conflito na próxima segunda-feira, quando as duas partes se reunirem na DGERT para definir a necessidade de serviços mínimos?
Não vejo que possam surgir dificuldades aí, pelo contrário, até vejo esse encontro como uma plataforma de entendimento, não no sentido de se definirem serviços mínimos, mas de voltar a sentar as partes à mesa. Os motoristas vão demonstrar que há um novo clima propício ao diálogo. Mas a Antram também precisa de mostrar que as coisas mudaram. As declarações inflamatórias do representante da Antram não ajudaram a situação. As declarações mais recentes não foram tão inflamatórias, mas ainda era aconselhável mais alguma prudência. Caso contrário estou a fazer um esforço inglório, a tentar que da parte dos motoristas não haja retaliações verbais ao que é dito pelo representante da Antram.

Acha que este diferendo só será resolvido com cedências de ambas as partes?
Tem de haver aproximações, não falo em cedências. O principal é falar. Não se pode estar sempre a tocar na ferida. Tem de haver mais recalque na forma como atacam os motoristas, senão estão a lançar gasolina para a fogueira. E assim isto nunca mais acaba.

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