Poupança

“Muitas crianças pensam que os pais têm um cartão mágico que dá dinheiro”

Ilustração: Mónica Monteiro/Dinheiro Vivo
Ilustração: Mónica Monteiro/Dinheiro Vivo

Ensinar as crianças a poupar é um hábito que deve ser promovido por pais, avós e educadores.

Há um provérbio português que diz que é “de pequenino que se torce o pepino”. Um dito popular que serve para justificar a razão pela qual se ensina algo aos mais novos. E poupar não é exceção. “O ideal é começar por volta dos três anos, quando as crianças começam a pedir tudo e mais alguma coisa, pois percebem que o mundo está cheio de coisas interessantes que querem experimentar”, diz Susana Albuquerque, especialista em literacia financeira.

“Muitas crianças pensam que os pais têm um cartão mágico que dá dinheiro”, conta Ângela José, educadora de infância, que já perdeu a conta às vezes que ouviu falar deste cartão. “É muito comum, quando querem que os pais lhes comprem algo, dizerem que o pai ou a mãe podem ir à máquina com o cartão que dá dinheiro”, diz. A profissional, que trabalha com crianças há mais de 25 anos, reforça a importância de incentivar os mais novos a valorizar o dinheiro. É importante “incentivar as crianças a partilhar, fazê-las perceber que não podem ter tudo o que querem e que os pais também não podem gastar as suas notas todas”.

Cláudia Crispim, também educadora, reforça a importância de promover o diálogo sobre a poupança a todos os níveis. “Não deixar a torneira aberta, apagar a luz quando saímos da sala, não estragar folhas de papel e colocar as tampas nos marcadores”, são alguns dos hábitos que tenta passar ao grupo de crianças de cinco anos, atualmente.

Ambas são de acordo no que toca às atividades em sala. Chamam-lhe “jogo simbólico”. O cabeleireiro, a mercearia ou o consultório médico são espaços presentes nas salas dos jardins-de-infância. “As crianças simulam o dia-a-dia e percebem que precisam de notas e moedas para o fazer. Assim que começam a perceber que não podem dar as notas todas porque elas acabam, em vez de dois chocolates, compram só um”, explica Ângela José.

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Esta formação deve incluir escolas, mas também pais e avós. A especialista recorda que “os pais são os primeiros responsáveis no desenvolvimento de noções básicas ligadas à gestão dos recursos financeiros (e não só), sempre escassos face aos infinitos desejos”. Além disso, a melhor forma de ensinar hábitos de poupança às crianças é através do exemplo, já que o processo de aprendizagem das crianças é, na maioria das vezes, baseado na imitação dos adultos.

Susana Albuquerque defende que os melhore instrumentos para a educação financeira dos filhos são as semanadas e mesadas. A primeira opção entre os seis e os dez anos e a segunda a partir daí. “Ao gerirem a semanada/mesada, as crianças aprendem sobre limites de gastos, a distinguir a necessidade do desejo, a tomar decisões sobre as suas despesas, a poupar e idealmente a poupar, vivendo as consequências das suas escolhas financeiras e aprendendo com os seus erros.”

A especialista em literacia financeira aconselha ainda a introdução de três mealheiros: um para poupar, outro para gastar e o terceiro para doar. “O ideal é que estes mealheiros sejam transparentes e que possam ser facilmente abertos para que as crianças possam manusear e contar o dinheiro com facilidade”.

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Cláudia Crispim tem dois filhos. Beatriz com 15 anos e Martim de 12. Estes irmãos recebem semana apenas no verão. Uma decisão dos pais que em tempo de aulas optam por carregar os cartões da escola dos filhos para os almoços e despesas com material escolar.

Nas férias de verão, Beatriz e Martim recebem cada um 10 euros por semana. “Utilizam para comprar gelados ou qualquer outra coisa que queiram. Por exemplo, a Beatriz guarda o dinheiro do verão para o juntar ao que recebe nos anos e no Natal e usa para viagens da escola”. Durante o sétimo, oitavo e nono ano, Beatriz conseguiu juntar o dinheiro suficiente para ir a Paris com os colegas. E o Martim já conseguiu comprar um skate e um fato de surf.

Pais de dois filhos, Susana e Paulo Maia contam que lá em casa os mais novos costumam poupar para objetivos comuns. “Ainda não introduzimos o hábito da semanada porque achamos que ainda não têm maturidade para isso e também não são miúdos de ter despesas, como ir lanchar ao café, por exemplo”, diz Susana Maia. Matilde tem 13 anos e Matias oito. No entanto, o dinheiro que vão recebendo dos avós, costumam guardar para comprar algo para os dois. “Por exemplo, compraram uma hoverboard“.

“Quando ensinamos a esperar para ter, aquilo que fizemos foi ensinar a poupar e a valorizar aquilo por que esperamos”, remata Susana Albuquerque.

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