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Na freguesia mais cara do país “trocam-se pessoas por mercadorias”

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Na freguesia mais cara do país “trocam-se pessoas por mercadorias”

Em Santo António o metro quadrado já custa mais de quatro mil euros. A pressão é tanta que nem a junta de freguesia aguentou o aumento da renda.

Há uma marcha de Santo António que desce a avenida aos domingos de manhã. Aos pares ou em grupo, repetem a coreografia de arrastar o trolley pela calçada. Deixam para trás a cama do hostel por fazer e uma freguesia mergulhada no silêncio. Ao domingo à tarde nada se passa em Santo António porque não passa lá ninguém.

“Os moradores foram-se e a próxima leva de turistas só chega à segunda-feira”, testemunha Vasco Morgado, presidente daquela que é a freguesia mais cara do país. O preço médio do metro quadrado nas artérias que rompem da Avenida da Liberdade já ultrapassa os quatro mil euros.

Num ano, o chão de Santo António valorizou 40%. Não falta quem esteja disposto a pagar, afirma Vasco Morgado. O que falta, lamenta, é gente para lá morar. “Quem compra casas a este preço são estrangeiros, a quem mais milhão menos milhão não faz diferença. E vêm cá uns dias por ano picar o ponto. As casas estão vazias”, descreve o presidente durante um périplo pela freguesia que Vasco Morgado aceitou fazer nesta semana com o Dinheiro Vivo.

A prioridade da junta atualmente não é trazer pessoas para a cidade, “é proteger e manter os que cá estão”. A freguesia está com menos de 12 mil eleitores, mas por lá passam todos os dias mais de 200 mil pessoas. A “ficha” só vai cair em 2021, antecipa Vasco Morgado, “quando nos assustarmos com os resultados dos Censos. Aí é que vamos perceber a verdadeira dimensão da perda de habitantes em Lisboa”, que já não está assim tão longe de baixar da fasquia dos 500 mil.

E menos moradores significa menos dinheiro, lembra o autarca reeleito em 2017 pelo PSD. “Se baixarmos dos dez mil eleitores o nosso orçamento vai diminuir para cerca de metade. Se com o que temos agora mal conseguimos fazer frente aos problemas do dia-a-dia, como é que vamos viver com metade? Eu tenho um contrato com Santo António: ele não faz política e eu não faço milagres.”

E é quase por milagre, acrescenta, que a junta tem conseguido travar algumas ordens de despejo que chegam todos os dias ao correio dos moradores. Desde o início do ano foram tratados 200 casos. Em quatro anos foram mais de mil. “Há casos que se resolvem a bem. Tivemos a dona Alzira, que tem 89 anos, e chegou aqui com medo de ser despejada porque o prédio foi comprado. Chamámos o novo senhorio e conseguimos encontrar um T0 também na freguesia para ela morar, e é o novo dono do prédio quem vai pagar a renda até ela morrer. Há casos destes mas há outros que vão para tribunal, principalmente com fundos imobiliários que não têm ninguém a dar a cara”, conta o autarca.

A própria junta de freguesia, que nasceu em 2013 da união do Coração de Jesus com São José e São Mamede, foi obrigada a abandonar a sede que mantinha na Rua Luciano Cordeiro porque o senhorio aumentou a renda do imóvel de 450 para 1800 euros.

Vista da Travessa do Fala-só. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

Vista da Travessa do Fala-só.
( Pedro Rocha / Global Imagens )

Para Vasco Morgado, a venda de imóveis por atacado a investidores e fundos estrangeiros está a criar uma “cidade cenário” e a tratar os moradores como “danos colaterais”. E o turismo, padroeiro do investimento, está “nivelado por baixo”, diz. No ano passado foram registadas mais de dez mil novas camas em regime de alojamento local (AL) na freguesia. Cerca de 80% são propriedade de empresas, que detêm cada uma mais de 15 apartamentos.

“Na Luciano Cordeiro há uma casa com 130 m2 onde vivia uma família e agora tem 36 camas a dez euros por noite. Acabou o sossego naquele prédio.” No outro extremo da freguesia, na Travessa do Fala-Só, está, segundo Vasco Morgado, “o melhor exemplo do que é trocar pessoas por mercadoria”. A rua que vai dar à Calçada da Glória “tem 40 metros e 400 camas”. As dezenas de pessoas que lá habitavam há uma década “saíram todas. Só há uma que resiste, a Mafalda”.

Poucos metros acima, na Praça da Alegria, Vasco Morgado aponta para a casa onde morava até há bem pouco tempo. “Vi-me obrigado a vender, não se suporta o que se passa ali. Estou a ver se isto passa para conseguir comprar noutra zona da freguesia. Mas sei que na Praça da Alegria não vou voltar a viver.” O motivo é simples: casas ali restam poucas, ou quase nenhumas. “Está a ser tudo transformado em hotéis. Onde era o Maxime, os bombeiros, a Federação Portuguesa de Futebol, a esquadra, o Fontória. Vai ser tudo hotel ou alojamento local.”

O resort da Praça da Alegria é um dos “pontos críticos” pintados a vermelho no mapa da freguesia que Vasco Morgado pendurou na sede da junta. A Rua do Salitre é outra. “Durante um mês e meio foi a rua mais cara do país. Da Castilho para cima ainda moram algumas pessoas. Para baixo foi tudo comprado para AL, só faltam três prédios.” Naquela zona da cidade, acrescenta, o alojamento local disparou 3000% em quatro anos. “Nem o nosso saneamento está preparado para isto, a cidade por baixo está a apodrecer”, alerta.

 ( Pedro Rocha / Global Imagens )

( Pedro Rocha / Global Imagens )

Vasco Morgado garante que não é contra o turismo, que teve o condão de recuperar uma parte da cidade que estava em ruínas. Só em Santo António há 143 ruas e “cerca de 130 têm obras a decorrer”. Mas pede mais regulação para que a galinha dos ovos de ouro mantenha cá o ninho “e não aconteça como aos tuk-tuks, por exemplo, que eram uma excelente ideia que se transformou numa praga por falta de regras”.

O responsável acha que o património da câmara devia ser transferido para as juntas, que assumiriam o compromisso de construir casas de custo controlado. E defende o aumento da taxa turística de um euro para, pelo menos, três ou quatro. “Se vamos a Itália pagamos seis euros. Se Lisboa está ao nível das capitais europeias, então que se pague para termos a cidade em condições para receber as pessoas. E não são seis euros por dia que vão afastar os turistas.”

Entre os sonhos que Vasco Morgado tem para a freguesia está a criação da “única aldeia cultural da Europa” no espaço do Parque Mayer. Já para a cidade, defende a urgência de um parque aquático, que sirva moradores e atraia turistas. “Lisboa não tem atrações como Londres ou Paris, logo precisa de água e sol. A prova disso foi o sucesso da praia urbana do Torel, que recebia 80 mil pessoas em agosto.” Este ano, a praia não abriu porque a junta não quis impor aos funcionários mais um ano sem férias de verão. Este ano, até o Torel está mais deserto ao domingo.

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