Brexit

Na hora do Brexit, o que fazem as empresas portuguesas?

O tempo está a contar: assim que ativar o Artigo 50, o Reino Unido tem dois anos para negociar a saída da União Europeia. Fotografia: EPA/HANNAH MCKAY
O tempo está a contar: assim que ativar o Artigo 50, o Reino Unido tem dois anos para negociar a saída da União Europeia. Fotografia: EPA/HANNAH MCKAY

Turismo e vinho poderão ser os setores mais afetados com a desvalorização da libra

Os sapatos são um dos exemplos da importância do Reino Unido para a economia portuguesa. A Fly London, do grupo Kyaia, funciona desde 1994 neste país e lá conta atualmente com seis lojas. O Reino Unido representa “20% das nossas receitas”, adianta Fortunato Frederico, líder do grupo ao Dinheiro Vivo. São cerca de 7,8 milhões de euros nas contas de uma das 50 maiores exportadoras de Portugal para aquele país.

Esta é uma das pegadas de Portugal em terras de Sua Majestade. O Reino Unido está atualmente em quarto lugar nos destinos das exportações nacionais, segundo dados do INE. Até abril, as saídas de produtos representaram 915 milhões de euros, mais 64 milhões do que no mesmo período de 2015 (+7,6%). Mas depois da decisão pelo Brexit no referendo de há uma semana, as empresas portuguesas que exportam para este país preparam estratégias para lidar com este mercado.

Não estávamos desprevenidos”, diz Fortunato Frederico, o líder do grupo Kyaia. E recorda a primeira-ministra Margaret Thatcher, que em 1988 se manifestou contra uma maior integração na UE. Foi a partir desta altura que o Reino Unido começou a abrir a porta de saída, no entender do grupo que detém a Fly London.

Agora, o plano B da empresa passa por “usar os Estados Unidos para fugir ao Brexit. Será a nossa escapatória, mesmo com muita dificuldade”. O grupo quer reforçar a presença em feiras no continente norte-americano e “trabalhar a dobrar” em mercados como Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul.

Brexit. Banco de Inglaterra vai reduzir exigências de capital à banca

Mas trabalhar a dobrar pode não ser assim tão necessário para as exportadoras portuguesas, acredita Francisco Veloso. “As quebras para estas empresas vão ser relativamente pequenas”, no entender do diretor da faculdade de Economia da Universidade Católica de Lisboa.

Além dos bens, é nos serviços que reside um dos principais trunfos nas relações entre Portugal e o Reino Unido. O mercado britânico “é o maior emissor de turistas para Portugal, sendo muito relevante para a indústria turística nacional”, assinala Mário Ferreira, presidente executivo do grupo Nau. Nos meses de verão, 30% dos hóspedes nos hotéis da cadeia no Algarve são britânicos.

A empresa diz que está “atenta aos desenvolvimentos da situação” e garante: “atuaremos em função das necessidades, mantendo políticas comerciais de proximidade com os principais operadores a nível mundial”. A Amorim Turismo já admitiu que vai atuar com “medidas de natureza promocional”, de acordo com o presidente, Jorge Armindo.

Só que o turismo pode ser um dos setores mais afetados pelo Brexit, no entender de João Vieira Lopes, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP). “Nas regiões do Algarve e da Madeira, há um grande peso dos turistas britânicos. A retração económica e a desvalorização da libra, vão retirar poder de compra”, antecipa.

Brexit. Ainda é cedo para mudar estratégia do turismo

Ricardo Cabral destaca que nessas regiões, além do turismo, o imobiliário também poderá ser afetado. “Os britânicos que estavam a pensar comprar uma segunda residência ou uma casa de férias vão hesitar em se mudar para os países do sul da Europa”, no entender do economista da Universidade da Madeira.

O vinho é outra das principais compras nacionais dos britânicos. O Reino Unido ultrapassou Angola e passou a ser o segundo maior destino dos vinhos portugueses em 2015, representando 10,6% do mercado: apenas França consome mais vinho português. Este é um mercado que também poderá ser afetado pelo Brexit, segundo o presidente da CCP. “Em especial, o vinho do Porto”.

O grupo The Fladgate Partnership (TFP) tem os britânicos como o seu primeiro mercado. Uma parceria histórica, com 324 anos, e que “tem sobrevivido a muitas e dramáticas crises”, refere o diretor geral, Adrian Bridge.

Mas o Brexit vai ter impacto na empresa, com “uma redução dos lucros” daquele mercado, “devido à desvalorização da libra”. O que “terá eventualmente de ser compensado com um aumento do preço nos anos seguintes”, refere o líder do grupo que detém marcas como Taylor’s, Croft, Fonseca e Krohn.

O lado positivo do Brexit
Portugal e Reino Unido estão ligados historicamente desde há vários séculos. A Fladgate confia na preservação desta parceria. “Os objetivos mantêm-se, a estratégia mantém-se e os consumidores do Reino Unido não vão deixar de beber Vinho do Porto”.

Francisco Veloso também acredita nos laços centenários entre Portugal e o Reino Unido. “A ligação não vai desaparecer e é mais fácil encontrar espaço para melhores relações bilaterais com Portugal do que com outros países dentro da União Europeia”, no entender deste economista.

Mais recente é a ligação de Portugal com o Harrods, os históricos armazéns de Londres. É lá que podemos encontrar a Frato Interiors, uma empresa de mobiliário nacional que iniciou as operações neste espaço em fevereiro de 2014. E que vai crescer mesmo depois do resultado do referendo.

“A aposta em Londres é para manter e reforçar já em 2017 com uma equipa de projeto residente e serviços de instalações e remodelações”, adianta Carlos Faria Santos, presidente da marca. O Reino Unido representou 20% das vendas em 2015 e a expectativa é que no final de 2016 já representem 30%.

Brexit. S&P corta o rating da União Europeia

“O efeito Brexit terá menos impacto na nossa atividade porque as vendas efetuadas em Londres nem sempre têm o Reino Unido como destino final. É habitual ter clientes sauditas, russos, entre várias outras nacionalidades”, refere Carlos Nuno Santos.

O líder da Frato Interiors está ainda atento à “evolução do mercado imobiliário. Uma libra mais fraca poderá ser benéfica, tornando os preços do imobiliário mais aceitáveis”. Isto poderá levar a um aumento da compra de móveis.

As mudanças não deverão ser repentinas, no entender de Ricardo Cabral. O economista da Universidade da Madeira assinala que “os impactos não serão imediatos. Tudo vai depender, por exemplo, da existência de acordos bilaterais ou de barreiras alfandegárias”. Francisco Veloso antevê que “vai ser encontrada uma solução comercial que vai mitigar alguns impactos negativos” da saída do Reino Unido da União Europeia.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Antonoaldo Neves EPA/GUILLAUME HORCAJUELO

TAP contrata mil tripulantes, traz 37 aviões novos e liga o Whatsapp (de graça)

Fotografia: João Girão/Global Imagens

Autoeuropa pode parar a qualquer momento por falta de espaço para os carros

gaspar fmi contas públicas défice dívida

FMI. Dívida mundial atinge máximo histórico de 162 biliões de euros

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Na hora do Brexit, o que fazem as empresas portuguesas?