Web Summit 2019

Na Web Summit, todos os caminhos vão dar ao brexit

Tony Blair, ANTONIO COTRIM/LUSA
Tony Blair, ANTONIO COTRIM/LUSA

O primeiro dia de conferências da Web Summit foi marcado pelas conversas sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. No palco principal, nos corredores dos cinco pavilhões da FIL ou nas conferências paralelas, toda a gente tem uma opinião sobre o brexit. E quase nunca é positiva.

Já é uma tradição da Web Summit. Quando sobe ao palco, o “pai” do evento faz uma ronda pelas nacionalidades presentes na plateia. “Quantos vieram do Reino (ainda) Unido?”, atira Paddy Cosgrave ao público da Altice Arena. São a maior comitiva do evento, e sabem que nos próximos dias vão ser bombardeados com perguntas sobre o elefante na sala, que deveria ter acontecido a 31 de outubro, mas acabou adiado para janeiro.

No primeiro dia “a sério” da quarta edição da edição da Web Summit em Lisboa, o brexit foi omnipresente. Houve três conferências dedicadas ao tema. A mais aguardada aconteceu num palco secundário, num espaço a abarrotar. Tony Blair, antigo primeiro-ministro do Reino Unido, disse o que uma sala repleta de empreendedores e investidores de várias nacionalidades queria ouvir.

“Acho que o brexit é uma ideia terrível, ainda espero que não aconteça. Acredito que ainda é possível haver outro referendo, o que seria bom porque as pessoas estão hoje muito mais informadas. E se lhes for dada a oportunidade de refletir outra vez, o resultado de um novo referendo será diferente”.

A opinião entusiasmou a plateia, com Blair a rejeitar a ideia de uma nova consulta ser “antidemocrática” ou motivada pelo “medo” de aceitar a opinião das pessoas.

Desafiado a explicar os motivos que terão levado os britânicos a votar pela saída, o antigo líder britânico enumerou dois: a disseminação dos populismos na Europa e o “mito” de que o Reino Unido perdeu a sua soberania para Bruxelas.

“Foi um grito de raiva”, sentenciou. “O problema do brexit é que não é resposta para nada e tem um potencial destrutivo. Este processo está a sugar toda a energia do sistema político e não resolve nada que tenha a ver com saúde, educação ou desafios tecnológicos, que são os verdadeiros problemas das pessoas”, concluiu Tony Blair.

A investida do antigo primeiro-ministro britânico contra o brexit e os populismos esteve em linha com a mensagem que Michel Barnier tinha passado de manhã no palco principal do evento. O negociador-chefe da União Europeia no processo de divórcio com o Reino Unido partilhou com Blair a tese de que se a Europa não se unir nos próximos anos, ficará reduzida a um papel secundário no jogo do poder mundial, que acabará dominado pelos Estados Unidos, a China e a Índia. E poderá ser o brexit a abrir esse caminho.

“Está em causa o futuro das nossas vidas e do nosso continente. As consequências do brexit têm sido subestimadas”, considerou Barnier.

Para o “advogado de defesa” da UE no processo de divórcio, o brexit tem sido uma “escola de paciência e de tenacidade”, que está longe de terminar com a assinatura de um acordo. A longo prazo, referiu, será necessário reconstruir a relação das duas potências, para que permaneçam “amigas, aliadas e parceiras”.

No capítulo económico, Barnier reconheceu que as negociações vão ser particularmente “difíceis e exigentes”, e que a partir de 2020 haverá mais concorrência entre o Reino Unido e a UE. “Mas a UE não vai tolerar que o Reino Unido tenha vantagens competitivas”, assegurou. O nível de ambição de Bruxelas para o brexit é garantir uma política de tarifas zero e tornar a Europa ainda mais competitiva”.

Empresas mantêm otimismo

A 12 de dezembro, os britânicos serão chamados a escolher quem vai ser o próximo primeiro-ministro. Apesar de não ser um novo referendo à saída do país do bloco económico europeu, o brexit é, para já, o tema central do debate político. Depois de várias polémicas relacionadas com a ingerência no referendo de junho de 2016, e consequentes inquéritos parlamentares, Brittany Kaiser, antiga diretora de desenvolvimento de negócio da Cambridge Analytica, que terá sido contratada para influenciar o referendo do brexit, veio à Web Summit alertar que os acontecimentos do passado podem repetir-se.

“A partir do momento em que a maior plataforma publicitária a nível mundial (Facebook) decide que não vai escrutinar” as mensagens envolvidas nos anúncios políticos, sobram dúvidas sobre a total transparência dos escrutínios. “Não há forma de garantir que as eleições de dezembro vão ser transparentes”, salientou. “Mark Zuckerberg decidiu que todo o discurso político na maior plataforma de comunicação do mundo não seria escrutinado”, acrescentou.

O desfecho das eleições é incerto para já e o brexit não vai acontecer, pelo menos, até 31 de janeiro de 2020. As negociações para a saída foram longas e marcadas por avanços e retrocessos, o que leva Etienne Amic, CEO da startup VAKT, a admitir que a maioria dos empreendedores em Londres já sente “um bocadinho de fadiga do brexit“. “Está a demorar muito tempo. A maioria das startups deixou de fazer previsões; quando chegar adaptam-se”.

O líder desta empresa, que tem uma plataforma de commodities que visa facilitar as transações na indústria, acredita que o “brexit não vai ser um grande fator para nós”. Mas pode haver uma pedra no caminho. “Um grande fator é: quando não encontrarmos o melhor talento, conseguimos que esse talento venha ter connosco?”. A resposta à questão está na forma como “o brexit for implementado”.

Apesar dos avisos e ameaças, o apetite dos empreendedores por Londres continua presente. Shalini Khemka, da Global Entrepreneur Programme, conta que “os empreendedores continuam a sentir que precisam de estar no Reino Unido, com um escritório ou com a sede. Sentem que o Reino Unido, independentemente do que lhe está acontecer, vai dar-lhes uma plataforma para conseguirem investimento. O Reino Unido continua a ser uma das principais países para fintech e para crescer internacionalmente”.

Com a missão de captar empreendedores para solo britânico, Khemka não esconde que “o Reino Unido tem um histórico de apoiar empresas em crescimento. Temos uma menor aversão ao risco. Isso não vai mudar de um dia para o outro”. “O Reino Unido é um país muito aberto”, nota acrescentando que “a amizade entre Portugal e o Reino Unido está tão entranhada que não vai deixar de existir. O que é preciso é continuar a fazer um esforço, das duas partes, para manter esta ligação”.

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