Falta de mão-de-obra na construção põe em risco execução do PRR

Presidente da AICCOPN alerta para a falta de quase 80 mil trabalhadores no setor e para a subida dos preços das matérias-primas e impacto nos concursos. E pede urgência na resolução destes problemas ao governo que sair das eleições.

Sónia Santos Pereira
AICCOPN defende a reconversão profissional de desempregados para funções na construção. © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é uma oportunidade para as construtoras portuguesas, mas a sua execução até 2026 está dependente da resolução dos problemas da falta de mão-de- obra no setor e do aumento do preço das matérias-primas. Nas estimativas de Manuel Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), são precisos entre 70 a 80 mil trabalhadores e o país não pode contar com o regresso daqueles que emigraram no tempo da troika. "Também há PRR nos outros países europeus e eles vão lá ficar", diz. Neste contexto, "o governo que sair das eleições, seja ele qual for, vai ter que resolver o problema da mão-de-obra connosco", sob pena de, "se nada for feito, o PRR ficar em causa" e se "perder os dinheiros comunitários", sublinhou em declarações ao DN/Dinheiro Vivo.

Para o líder associativo, estas são questões de resolução urgente. Como lembra, "temos de ter o PRR todo planeado e calendarizado até ao final do ano", e tempo já se perdeu com o chumbo do Orçamento do Estado e a convocação de eleições antecipadas. "Se havia uma situação com importância crucial para nós e para o país era a calendarização e nada se fez". Agora, "vamos perder uns meses de 2022, quando já deveríamos estar a resolver os problemas da mão-de-obra, da subida anómala dos preços das matérias- primas, dos concursos, para não termos um problema que é perder os dinheiros comunitários", frisa.

Para que tal não suceda, "o próximo governo vai ter que implementar algumas soluções que nós identificamos". Manuel Reis Campos pergunta-se como é que a construção tem "necessidade de 70 ou 80 mil trabalhadores e os centros de emprego têm 312 mil trabalhadores que querem trabalhar". "Só do nosso setor estão lá 29 155, ou seja, com esses trabalhadores só nos faltavam praticamente 40 mil", sublinha. E aponta que "compete ao governo verificar o que se passa com as pessoas que querem trabalhar e que estão nos centros de emprego".

Em simultâneo, defende a reconversão profissional dos desempregados através dos dois centros de formação do setor, o CICCOPN e o CENFIC, que também terão que potenciar o papel de captação de jovens.
Por último, acrescenta o líder associativo, "é necessário promover a mobilidade transnacional da mão-de-obra, permitir às empresas internacionalizadas fazerem uma gestão mais dinâmica e eficiente dos recursos humanos trazendo gente lá de fora". Um papel que cabe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, lembra. Logo a seguir às eleições, "o governo que tomar posse tem de olhar para isto", defende.

Custos aumentam 18%

À falta de trabalhadores somam-se as escaladas anómalas dos preços das matérias-primas e a escassez dos materiais de construção. Nas estimativas da AICCOPN, o custo da construção deve ter subido no ano passado, em termos médios, 18%, percentagem que tem em conta as várias atividades do setor, como edifícios residenciais, obras públicas, estradas ou ferrovia. Em setembro, a variação anual na bolsa de futuros de Londres do preço do aço em varão para betão era de 54%, do alumínio 61% e do cobre 47%. Já entre 31 de dezembro de 2021 e 12 de janeiro, o alumínio já aumentou 7%, diz Reis Campos.

Com esta subida das matérias-primas, o sucesso dos concursos públicos no âmbito do PRR pode ficar comprometido. "O pior que pode suceder ao nosso país é não ter esta consciência", salienta Reis Campos. Como referiu, entre "o lançamento do concurso, que demora o seu tempo, e a adjudicação, a empresa pode já não ter possibilidade de fazer a obra" pelo preço estabelecido. "Este é um problema com que o país se vai defrontar, e não é só na construção, que nós já vínhamos a tratar com o ministro da Economia". Na sua opinião, a solução passa pela criação de um fundo no âmbito do Orçamento do Estado para cobrir estas oscilações, como existe, por exemplo, em Itália. "Criaram um fundo que lhes permite atualizar os preços de um concurso. Quando uma entidade independente verifica que houve um aumento eles corrigem o preço-base do concurso ou o preço da adjudicação. Nós em Portugal não temos essa faculdade", frisa.

Estes últimos anos foram uma lufada de ar fresco para o setor da construção e imobiliário, depois do forte abalo que registou na última recessão económica e que conduziu à falência de muitas empresas. Como realçou Reis Campos, "em 2019, depois da grande crise que tivemos entre 2008/12, o setor foi-se consolidando e em termos de obras públicas, obras residenciais e reabilitação urbana houve evoluções positivas que culminaram em 2020 e 2021". Em 2020, a produção cresceu 2,5% e prevê-se que, no ano passado, tenha crescido 4,3%. Este ano de 2022, "pensa-se que terá um crescimento da produção global da ordem dos 5,5%, o maior vai ser nas obras públicas, fruto do PRR".

Mais Notícias

Veja Também

Outros Conteúdos GMG