Agricultores reforçam produção de olhos postos lá fora

Setor das frutas, legumes e flores quer manter trajetória de crescimento da exportação, que na última década mais que duplicou. Empresas investem na expansão da área agrícola, criação e promoção de marcas próprias e parcerias.

Sónia Santos Pereira
 © Philippe Desmazes/AFP
No ano passado, os frutos vermelhos lideraram as exportações, seguindo-se o tomate e os citrinos. © Leonardo Negrão/Global Imagens

As exportações de fruta, legumes e flores cresceram 115% entre 2010 e 2020, de 780 milhões de euros para 1683 milhões. E o objetivo é continuar a escalada. A Portugal Fresh quer chegar a 2030 e contabilizar vendas além-fronteiras de 2500 milhões. Os produtores portugueses estão preparados para o desafio, como demonstram as empresas ouvidas pelo Dinheiro Vivo na última feira do setor, em Madrid.

Batata-doce da Comporta
ganha força no exterior

A 100% Titular, grossista especializada no comércio de tomate-cereja, batata-doce e ervas aromáticas, quer aproveitar a notoriedade internacional da Comporta para alavancar as vendas nos mercados externos da batata-doce produzida nesta região alentejana. Como revela Joaquim Penas, diretor comercial da empresa, o foco é potenciar a marca Batata-Doce da Comporta no mercado europeu. Há quatro anos que a 100% Titular firmou um acordo de produção deste tubérculo com a Herdade da Comporta, sendo que nesta campanha, que arrancou em setembro, a previsão aponta para uma colheita de 10 mil toneladas. A exportação absorve 60% da produção, com Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Itália a destacarem-se entre os principais destinos de venda. Joaquim Penas adianta que o objetivo é aumentar a produção até 15/20 mil toneladas nos próximos anos, com segurança de escoamento. Em desenvolvimento está também um projeto de transformar os calibres que não entram nos canais de comercialização em farinhas, sob a marca Areias do Sul. Aqui, o foco é o mercado asiático. A 100% Titular aposta ainda no que Joaquim Penas designa de "mercado de tubarões", as ervas aromáticas. A empresa prevê faturar neste ano 13 milhões, sendo que as exportações de batata-doce devem contribuir com 4 milhões.

Beirabaga reforça
mirtilos em Odemira

Pioneira em Portugal a produzir framboesas e amoras, a Beirabaga adquiriu no ano passado 140 hectares em Odemira para potenciar o crescimento da produção de mirtilos, até agora concentrada no Fundão. A empresa especializada em pequenos frutos quer aumentar de forma gradual a produção no Alentejo, estimando ter em operação 10 a 20 hectares em 2022, avança Sofia Horgan, diretora comercial. Desde 2017 que a Beirabaga produz em Odemira, mas o foco têm sido amoras, framboesas e groselhas.
Segundo a responsável, esta zona garante "uma qualidade destacadamente melhor no verão, devido à temperatura mais amena", o que permite responder com maior eficácia aos mercados externos. Com a aposta na produção de mirtilos em Odemira, as quintas da empresa na Beira Baixa e no Algarve vão ficar concentradas no cultivo de amora e framboesa. A Beirabaga exporta para várias geografias, com destaque para as europeias, mas o principal mercado é Portugal. Em 2020, faturou 14 milhões com a venda de 1500 toneladas de pequenos frutos. Sofia Horgan estima para este exercício um aumento da faturação e do volume comercializado.

No ano passado, os frutos vermelhos lideraram as exportações, seguindo-se o tomate e os citrinos. © Leonardo Negrão/Global Imagens

Noz fresca alentejana
em crescimento

A Nogam, um dos últimos investimentos do grupo português Sogepoc - reconhecido internacionalmente pela produção e transformação de tomate -, garantiu neste ano a primeira "campanha a sério" de noz na plantação de Torre de Coelheiros, em Évora, conta Sebastião Lorena, responsável comercial.
Os 615 hectares de nogueiral, que começaram a ser plantados em 2016, produziram 750 toneladas de noz com casca que vão abastecer o mercado europeu. Este projeto, que integra também um pomar de 150 hectares de amêndoas, entrará em fase cruzeiro em 2026/27, altura em que a produção deverá atingir 4 mil toneladas. O investimento do grupo Sogepoc, da ordem dos 50 milhões de euros e que englobou a construção de uma unidade de processamento de frutos secos - a maior da Europa -, visa o abastecimento dos mercados, todo o ano, com noz fresca. Para isso, o grupo firmou uma parceria com a chilena Frunut. Como explica Sebastião Lorena, este acordo "permite-nos fazer duas campanhas anuais" - de outubro a abril, a Nogam vende noz portuguesa e chilena na outra metade do ano. A faturação deve chegar aos 5 milhões neste exercício, com as previsões a apontarem para 25 milhões em fase cruzeiro.

Mó de Cima dá primeiros
passos na transformação

A Mó de Cima, sociedade agrícola proprietária de um pomar de figos em Aljezur, está a dar os primeiros passos na indústria de transformação, com o objetivo de criar valor com os frutos que não reúnem condições para venda em fresco. O projeto é transformar desperdício em compotas e doces, como o figo em calda, revela Sara Domingos, responsável de produção. A empresa da família Mendes Duarte já alugou uma cozinha industrial em Beja e pretende colocar ainda neste ano as primeiras compotas Mó de Cima no mercado. "Se correr bem, fazemos as nossas instalações", diz.
Ao mesmo tempo que procura resposta para desperdícios da produção, que podem ir de 20% a 50% da campanha, a empresa está focada em subir exportações. Com um pomar de 100 hectares que estará em plena produção em 2025, a Mó de Cima procura novos caminhos para as variedades francesas e israelitas que produz em Aljezur. Atualmente, a grande distribuição em Portugal é o principal destino dos figos da empresa, que também já chegam a Bélgica e Holanda. Neste ano, a empresa prevê faturar 500 mil euros, mais 50% do que em 2020.

Bimi, o vegetal
que nasceu por acidente

O bimi é um novo vegetal, que nasceu do cruzamento natural de brócolos com couve kai-lan, e por estranho que pareça tem dono. A propriedade é da japonesa Sakata, especializada na produção de sementes, que o batizou de bimi (palavra nipónica que significa saboroso) e o registou. Segundo Hans Renia, diretor da empresa na Europa, "Portugal é já um dos maiores produtores" no espaço europeu, com "grandes produções na região do Oeste". São todos agricultores com licença atribuída pela Sakata, que dá acompanhamento da semente até à colheita. O responsável sublinha que o potencial de crescimento do consumo deste vegetal é enorme, nomeadamente pelos benefícios nutricionais e por ser 100% comestível (talo e florete). A título de exemplo revela que no Reino Unido, onde é vendido há mais de 10 anos, o consumo per capita ronda 350 gramas/ano enquanto na Alemanha ainda está em 2 gramas. Por cá, vende-se em todas as grandes superfícies.

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