App Stayaway Covid perto do milhão de downloads. 46 infetados enviaram alertas

App de rastreio portuguesa continua a aumentar de utilizadores. 46 infetados já lançaram avisos pela app que tem alguns requisitos para um uso eficaz

É apenas uma das ferramentas que pode ser útil para tentar reduzir o contágio e os efeitos da pandemia do novo coronavírus, mas o seu sucesso é proporcional ao número de pessoas que a usam. A app de rastreio portuguesa Stayway Covid chegou esta sexta-feira, três semanas depois de ter começado a ser disponibilizada ao público, aos 925 884 downloads - entre os sistemas operativos móveis iOS (iPhone) e Android.

Na sexta-feira passada eram 773 mil os downloads - o que significará, grosso modo, número semelhante de utilizadores, embora o INESC TEC, que criou a app, não tenha forma de o saber. Ou seja, numa semana houve um aumento de 20% e, agora, a app já chegará a perto de 9% da população portuguesa, um cálculo difícil de quantificar já que sua eficácia também depende de alguns factores: é necessário manter o Bluetooth ligado (pode haver locais onde ele é menos exacto ou eficaz) e, por questões técnicas, convém ir visitando a app diariamente.

Esta última situação acontece porque, embora seja suposto existirem alertas automáticos no telefone se estivermos estado em contacto nos últimos 14 dias com alguém infetado, pode haver situações onde o alerta só é dado se formos à app ou que ela tenha sido desinstalada automaticamente - há modelos que o fazem se usarmos pouco.

Ao Dinheiro Vivo, os Serviços Partilhados do Ministério da Educação indicam que já houve 46 pessoas infetadas a colocarem o código na app o que gerou 53 contactos para a linha SNS24 de pessoas que receberam notificação de que terão estado em contacto com alguém com covid-19.

Há uma semana tinham sido apenas 17 os infetados a usarem o código gerado pelo sistema de testes do SNS e a colocarem-no na app (o que gerou 32 chamadas para o SNS24), o que significa que o número tem aumentado à medida que há mais casos e mais pessoas com a app em Portugal. No entanto, o número de chamadas feitas para o SNS24 não tem sido proporcional.

José Manuel Mendonça, líder do INESC TEC, que criou a app integrada num consórcio europeu chamado D3PT e que usa como base um mecanismo desenvolvido pela Google e pela Apple chamado GAEN lembrava a semana passada que “cada pessoa infetada que coloca o código na app é um ganho importante, porque pode gerar alertas em dezenas de pessoas que podem assim evitar uma cadeia de contágio significativa”. Daí que autores da app, especialistas em saúde pública e o próprio primeiro-ministro - que voltou hoje a pedir o uso da Stayway Covid tanto no regresso à escola, como no trabalho presencial - tenham apelado ao seu uso generalizado.

Do ponto de vista de crescimento de utilizadores, a app de rastreio portuguesa parece estar a crescer a bom ritmo e, se a tendência desta terceira semana se mantiver (pode abrandar), é expectável chegar aos 15% da população portuguesa, cerca de 1,5 milhões de pessoas, ainda em outubro. Esse valor surge já com potencial de fazer ainda maior diferença.

App reduz o contágio?

Ao contrário do que se pensava em abril, a app de rastreio pode ter bons resultados com valores de implementação bem mais baixos do que se pensava, de acordo com estudos recentes. Em Espanha, uma análise após alguns testes com a sua app Radar Covid, demonstrava em agosto que se 20% da população aderir e participar, as infeções podem ser reduzidas até 30% face ao que aconteceria sem a app.

Há duas semanas, um estudo da Universidade de Oxford e da Google, no Reino Unido, indica que se 15% da população aderir à app (e ela funcionar bem), as infeções podem ser reduzidas em 15% (com uma redução prevista de 11% das mortes por covid-19).

Portugal parece no bom caminho para se aproximar de alguns países com melhores taxas de utilização como a Irlanda (25%) ou a Alemanha (20%) - bem acima da França, com cerca de 3% e onde a app foi um flop até por usar uma tecnologia diferente do resto da Europa.

Instalar ou não instalar?

A Stayaway Covid, com nome inglês “para poder ser para portugueses, turistas e integrar-se melhor em possível colaboração europeia”, pretende integrar-se num esforço europeu contra a covid. Apesar de não funcionar em telefones mais antigos, requerer o Bluetooth ligado e que os infetados coloquem o código na app, os apelos não têm faltado. Já em agosto Rui Oliveira, do INESC TEC, responsável do projeto da app portuguesa, dizia-nos que se trata de “uma ferramenta simples, anónima, para o bem de todos que deve ser usada”. O objetivo “é o de ser mais uma ferramenta na luta contra a pandemia para agora, mas acima de tudo para o futuro próximo”.

Só são alertadas as pessoas que nos últimos 14 dias estiveram a menos de dois metros de distância e mais de 15 minutos na proximidade do infetado. “E o alerta não significa que estejamos contaminados, significa que devemos ligar para a linha SNS24”, tem explicado o primeiro-ministro.

O que se passa noutros países

A Austrália um dos países com maior taxa de adopção no mundo, perto do 30% - Singapura, China ou Coreia do Sul usam mais dados pessoais e georeferenciação e não têm divulgados os números oficiais. A app australiana pede, ainda assim, mais dados do que as europeias (telefone, idade, código postal) e já chegou no final de agosto a 25 milhões de utilizadores, 28% da população.

A Nova Zelândia tem 2,1 milhões de utilizadores, ou seja, 42% da sua população de 5 milhões, enquanto Espanha tinha 7,2% da população (3,4 milhões) no início do mês (a app foi lançada a meio de agosto).

A nível europeu é a Irlanda que comanda, com cerca de 37% de taxa de adopção, com a Alemanha a estar nos 20% e a Islândia a conseguir 40%. Na Turquia ou no Qatar, por exemplo, a app é obrigatória.

O princípio das apps de rastreio

A semana passada, no regresso das reuniões do Infarmed, desta feita no Porto, José Manuel Mendonça, líder do INESC TEC admitiu que será importante criar em breve uma interoperabilidade nas apps europeias, para que “quando um alemão venha a Portugal de férias, a informação da app alemã também faça a diferença em Portugal”. Como exemplo, a app espanhola Radar Covid está disponível para download na loja portuguesa da Apple. Portugal foi o sexto país europeu a lançar a sua app dentro dos moldes do tal projeto D3PT (em breve serão mais seis a entrar) - França ficou de fora “e a app deles foi um flop enorme”.

O responsável do INESC TEC admite ainda que uma espécie de app mundial para o covid-19 “vai ser inevitável”, com a Google e Apple a já estarem na dianteira para desenvolver nos seus sistemas operativos essa hipótese (a Apple já lançou essa função a semana passada), tal como a própria Huawei. “No futuro é provável que exista uma app global não só para a covid-19 mas para outras doenças”, admite, acrescentando que haverá novos sensores e tecnologias mais indicadas para rastreios “do que a Bluetooth de baixa energia que se usa agora na Europa”.

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