Centeno avisa. "Temos mesmo de estar preparados" para o que aí vem

"A economia portuguesa cairá 8,1% em 2020, reflexo de uma queda homóloga de 9,4% no primeiro semestre e de uma recuperação na segunda metade do ano"

A recessão económica portuguesa em 2020 deverá ser enorme, mas mais leve do que se previa em junho de 2019.

De acordo com o Banco de Portugal, agora governado por Mário Centeno, a contração da economia deverá rondar os 8,1% este ano. Há três meses, a estimativa era que o País afundasse 9,5% em 2020.

A nova previsão fica assim mais "alinhada" com a recessão da zona euro, que deve ser de 8%, reparou Centeno na apresentação do novo boletim económico de outubro, esta terça-feira.

No entanto, todo o cuidado é pouco. "Temos mesmo de estar preparados", avisou o governador, relevou a importância de conseguir recuperar bem e de forma abrangente, usar bem os recursos disponíveis (como o plano de recuperação e o orçamento do Estado).

"Se não estivermos preparados, outros tomarão o nosso lugar, tudo vai depender do sucesso da economia portuguesa na resposta que tem para dar", disse Centeno na apresentação pública do boletim, na sede do banco central.

"A economia portuguesa cairá 8,1% em 2020, reflexo de uma queda homóloga de 9,4% no primeiro semestre e de uma recuperação na segunda metade do ano, que se traduz numa variação homóloga de -6,8%", diz o novo estudo.

O antigo ministro das Finanças explicou que "a projeção agora apresentada revê 1,4 pontos percentuais em alta a previsão de junho, reflexo de um impacto mais reduzido do confinamento na economia portuguesa e de uma reação das empresas e famílias melhor do que a antecipada".

Parece que, em especial, o segundo trimestre foi menos destruidor do que se pensava. A economia caiu 16,3%, em termos homólogos, pelo que a recessão terá sido menos profunda.

Centeno explicou, em conferência de imprensa, que "a revisão em alta é transversal" a todas a dimensões da procura (consumo, investimento, exportações).

"Isto dá-nos uma perspetiva mais otimistas relativamente ao futuro", mas tudo continua a ser "incerto" até porque "a vacina ainda não está aí".

Centeno considera que, num cenário bom e em que nada corre mal, a situação sanitária pode vir a ser resolvida "mais no final do segundo semestre de 2021" com a chegada das vacinas.

Mas, para já, "as perspetivas de curto prazo para a economia portuguesa continuam rodeadas de incerteza".

Crise pandémica mais longa, nova retração

É verdade que "a recuperação na segunda metade do ano constitui uma mais rápida e marcada inversão do ciclo do que a observada nos anteriores episódios recessivos", mas nesta altura o banco central diz que "não é de excluir que o prolongamento da crise pandémica cause uma retração na recuperação da despesa e da oferta".

Ou seja, não é de excluir uma recaída, podendo até ser recessiva.

Nesse aspeto, Centeno relevou o papel das "políticas económicas nacionais e supranacionais" que continuarão a ser cruciais.

O plano de recuperação europeu e português, o ambiente de juros baixos, "que podem perdurar durante algum tempo", são as bases deste relançamento, referiu o governador.

Mas só nesta reta final do ano e no início de 2021 é que se vai perceber como é que, por exemplo, o plano de recuperação fará a diferença, como é que vai contribuir para criar emprego e impedir muito desemprego. "Essa pode ser a fase mais difícil da recuperação", afirmou.

Retoma desigual entre setores

Essa retoma vai variar muito de setor para setor, logo o desemprego pode atingir de forma diferente os trabalhadores de acordo com isso. "A heterogeneidade setorial manter-se-á na fase da recuperação, com o turismo e os serviços mais expostos a contactos pessoais a recuperarem menos", diz o Banco.

Para já, "a contração da atividade em 2020 estará associada a uma queda nas horas trabalhadas e a uma redução do emprego de 2,8%, inferior à queda de 4,5% projetada em junho", uma evolução que "não é alheia à resiliência que as empresas têm demonstrado e às políticas de proteção do emprego adotadas", elogiou.

Tal como a recessão deste ano, a taxa de desemprego aumenta, mas menos do que se previa. A referida taxa deve atingir 7,5% da população ativa, menos do que os 10,1% projetados em junho.

(atualizado 13h15)

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