Hidrogénio para armazenar eletricidade pode ser a descoberta do século. Portugal pode ter um papel

Falámos com António Costa Silva, investigador responsável pelo plano estratégico do Governo para 2030, sobre as lições da pandemia para líderes desatentos e o potencial do hidrogénio para distinguir Portugal a nível mundial.

O seu nome despontou nos últimos meses para a ribalta por ser o responsável do plano estratégico do Governo português para o país. O professor e investigador do Instituto Superior Técnico António Costa Silva abriu esta manhã o terceiro dia do Portugal Mobi Summit. Numa conversa à parte do evento, destaca a sua esperança no hidrogénio e as suas várias valências como forma de Portugal ganhar vantagem estratégica. "O uso do hidrogénio para armazenar eletricidade pode ser a descoberta do século e Portugal pode ter papel a desempenhar", admite.

O tema do hidrogénio verde, que já tem um plano ativo de intervenção do governo - explicado ontem pelo secretário de Estado da Energia, João Galamba -, aparece no documento "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030", elaborado por Costa Silva.

O investigador explica-nos que "o hidrogénio está longe de ser um delírio tecnológico" e lembra que "está na base da energia das estrelas - só temos a energia do sol porque há uma espécie de fusão nuclear, é uma máquina de energia extraordinária". Trata-se mesmo do gás mais abundante do universo.

E se, por um lado, já é usado como matéria prima em toda a indústria petroquímica, para fabricar adubos e fertilizantes de uma forma já convencional, por outro o potencial ligado a outras áreas é muito maior. "Tem caraterísticas para substituir o gás natural, se for produzido localmente é um recurso endógeno que podemos aproveitar", explica o professor.

Hidrogénio na mobilidade

Além disso permite a Portugal "competir na fileira da mobilidade, como está provado". Na base desse potencial está a densidade energética do hidrogénio: "dá-lhe características e versatilidade que permite ser útil e competir não só nos carros elétricos para as cidades, mas também para os transportes de longa duração como os camiões".

O professor do Técnico admite que as experiências nos EUA, com camiões a percorrer 1600 a 1700 km por dia, têm mostrado todo o potencial do hidrogénio nessa área, até porque as baterias elétricas são muito caras, "custam mais de 350 mil dólares num camião, e o hidrogénio com as fuel cells pode ser uma solução bem prática".

O especialista lembra que já existem soluções de hidrogénio muito bem colocadas para esse segmento de mercado que é muito importante. "Nos EUA o transporte de longa duração equivale a cerca de 800 mil milhões de dólares, que é o equivalente a toda a indústria aérea no mundo", adianta.

Outro domínio com potencial, além dos transportes públicos a hidrogénio - o Grupo Caetano está a desenvolver autocarros a hidrogénio em Portugal - é a navegação marítima, "onde a mobilidade elétrica é mais difícil". "A Austrália começou a desenvolver projetos para os navios, também estão a ser testados e o hidrogénio pode competir em toda esta fileira", explica.

Armazenar eletricidade, a descoberta do século

Também com potencial é uma espécie de recurso ou backup para as energias renováveis. "O hidrogénio pode ajudar a consolidar todo este setor e ser um pilar do armazenamento da energia das renováveis, onde o armazenamento é uma das coisas mais difíceis, importantes e decisivas para o futuro", adianta Costa Silva, admitindo que "se Portugal foi um dos primeiros a chegar, melhor".

Essa área é aquela onde vê maior potencial científico. "A única razão porque o petróleo e o gás continuam a dominar a matriz energética mundial é porque podemos armazenar e consumir quando queremos, não conseguimos fazer isso com a eletricidade a grande escala". Ou seja, Costa Silva admite que essa pode ser a descoberta do século, a possível utilização da tecnologia em torno do hidrogénio para armazenar eletricidade. "A comunidade científica está a investigar o armazenamento de eletricidade a grande escala e esse avanço vai provocar a eletrificação acelerada de vários setores da economia mundial", conclui.

"A pandemia mostrou que temos de estar atentos à complexidade do mundo em que vivemos"

Para Costa Silva muitos líderes mundiais aprenderam "uma grande lição de humildade" e de "comportamento". "O que fica é que percebemos agora melhor do que nunca que temos de ser humildes a lidar com sistemas complexos e o nosso planeta e o mundo é um sistema complexo". O investigador diz mesmo que às vezes há "uma arrogância excessiva do humano". "Como vimos um vírus invisível conseguiu pôr o mundo de pernas para o ar, desde logo o mundo da energia".

Infelizmente a indústria petrolífera parece não ter dado ouvidos aos avisos. "Deviam estar na linha da frente contra as alterações climáticas, apostar mais no gás que é o mais limpo dos combustíveis fósseis, apostar nas renováveis". Perante esse desafio dos cientistas, Costa Silva admite: "a resposta invariável que me dão é que a procura por petróleo está sempre a crescer. E nos últimos 30 anos, excepto dois, cresceu sempre".

O que a pandemia ensinou também a esses setores é que "as certezas foram estilhaçadas". "Os paradigmas que existiam têm de ser questionados, desde logo o paradigma e os desafios da saúde, são hoje imensos em tempos de pandemia". Já sobre o paradigma da segurança há muitos cuidados a ter no futuro. O professor do Técnico refere-se à segurança da própria espécie humana.

"Tudo o que se está a passar a nível da conetividade digital e da mudança tecnológica, que a crise pandémica acelerou, vai ficar para o futuro". A outra grande lição que tira é a gestão dos riscos. "Não estamos a conseguir prepararmo-nos para defrontar os riscos possíveis e geri-los bem e esta pandemia veio mostrar que temos de ser mais criativos".

Apesar de admitir que ninguém pode prever o futuro, "é importante anteciparmos o que pode acontecer - Bill Gates previu a pandemia 5 anos antes e ninguém o ouviu na altura".

(Pode ouvir em cima toda a entrevista)

Prever os riscos futuros é "vital para Portugal"

Dentro deste conceito, para um país pequeno como Portugal "é vital prever os possíveis riscos futuro", admite. E quais são? "Temos zona de risco sísmico elevado, risco climático (a desertificação pode avançar no Alentejo e no Algarve) e risco energético, metade do nosso gás vem da Argélia, se paralisar como vamos subsistir?" Depois há ainda os riscos de cibersegurança, "que podem paralisar países".

Costa Silva lembra um caso que aconteceu já durante a pandemia no Médio Oriente. "O Irão fez um ciberataque a Israel que ia paralisar todo o sistema de abastecimento de água a Israel, algo que foi travado mesmo à última hora. Depois Israel retaliou contra um porto iraniano - entraram no sistema de gestão dos navios e foi um caos total entre entradas e saídas". O especialista conclui com um lema: "A pandemia veio alertar que é muito importante estarmos atentos à complexidade do mundo em que vivemos".

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de