Hotéis têm dificuldade em recrutar mesmo a pagar mais

Com a perspetiva de retoma, os hotéis abriram vagas, mas dizem que está a ser difícil contratar para algumas funções e regiões do país.

Em fevereiro de 2020, a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) indicava que o setor da restauração e alojamento precisava de 40 mil profissionais para fazer face à procura que o destino Portugal tinha. Cerca de 18 meses depois, a realidade é outra: o turismo sofreu uma travagem a fundo, meses de hotéis e restaurantes fechados conduziram à não renovação de muitos contratos a prazo, à saída de profissionais para outras áreas e até desemprego. Desde maio que a hotelaria tem anunciado a abertura de vagas para várias funções para garantir que tem capacidade para responder à procura nestes meses. Mas tem tido dificuldades em contratar.

"Como já foi anunciado, para o arranque das operações e da época alta, tínhamos perspetiva de contratar entre 150 a 200 pessoas. Nesta fase, já contratámos cerca de 130 colaboradores e, apesar de ainda estarmos em fase de seleção, a contratação de mais elementos vai depender muito da evolução da situação pandémica e, consequentemente, da procura turística", começa por dizer ao Dinheiro Vivo Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da Vila Galé, segundo maior grupo hoteleiro nacional que conta com 37 unidades hoteleiras, das quais 27 são em Portugal.

O gestor não esconde que "com o encerramento da maioria dos mercados emissores no imediato, teremos de aguardar por um novo sinal claro de normalização para voltar a recrutar", mas "notamos que o processo de recrutamento tem sido difícil, com evidente falta de candidatos para áreas como restauração, bar, cozinha e serviços de limpeza".

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos ao primeiro trimestre de 2021 mostram que as atividades relacionadas com o alojamento, restauração e similares empregavam 221,4 mil pessoas, o que representa um decréscimo de 101,3 mil pessoas face aos primeiros três meses de 2020.

Os Minor Hotels, que em Portugal têm a marca Tivoli e que abriram um processo de recrutamento para 150 profissionais de áreas diferentes, enfrentam o mesmo problema. "Surpreendentemente, e apesar do atual contexto, temos tido muitos desafios no processo de recrutamento, com alguma dificuldade para algumas regiões do país e para algumas funções. É com enorme surpresa que verificamos que muitos trabalhadores não querem agarrar as oportunidades. Mesmo tratando-se de funções para as quais são perfeitamente qualificados e cujas propostas salariais estão substancialmente acima do que estão a auferir da Segurança Social, preferem permanecer ao abrigo do subsídio de desemprego, enquanto lhes é permitido", conta ao Dinheiro Vivo Miguel Garcia, diretor Regional de Operações Urban Hotels Portugal, Minor Hotels.

"O nosso foco é sempre contratar pessoas qualificadas, mas estamos também a contratar pessoas que não tendo experiência na hotelaria, podem ter perfil e paixão para integrar as nossas equipas", acrescenta.

E Gonçalo Rebelo de Almeida arrisca uma explicação para o problema. "Acreditamos que estas dificuldades se prendem com diferentes fatores: muitas pessoas foram viver para outras regiões do país, há também quem tenha optado por mudar de ramo de atividade e existe muita procura por parte dos diferentes players do setor".

A AHRESP, em entrevista ao Dinheiro Vivo e TSF no final de junho, já tinha alertado para este problema e pedia atenção para a dignificação das profissões ligadas a este setor. "Como os nossos setores estiveram encerrados, as pessoas tiveram de procurar outros setores para trabalhar e acabámos por perder as pessoas porque não querem voltar aos setores da restauração e alojamento e outras estão a receber subsídio e também não lhes interessa voltar", dizia então Ana Jacinto. "Vai ser, do nosso ponto de vista e esperamos estar enganados, um problema com que nos vamos defrontar, porque se já era um problema antes da pandemia (...) precisamos de voltar a trabalhar num tema que estávamos a trabalhar afincadamente, a dignificação das profissões destes setores e tornar estes profissões mais atrativas porque senão este problema vai adensar-se", acrescentava a secretária-geral da AHRESP.

Depois de nos primeiros quatro meses deste ano a atividade turística ter sido muito diminuta devido às limitações impostas para tentar controlar a pandemia, a integração em maio de Portugal na lista verde de Inglaterra e Escócia deu um balão de oxigénio. Mas Portugal deixou de contar com esse estatuto três semanas depois, no início de junho, levando a centenas de cancelamentos e a muitas incertezas sobre a evolução do turismo neste verão. A decisão alemã de colocar Portugal na lista vermelha no final de junho veio agudizar ainda mais esses receios. No final da semana passada, a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) revelou as conclusões de inquérito ao setor realizado entre 7 a 25 de junho e as reservas para o período entre junho e outubro estavam abaixo dos 50%.

O mercado nacional deverá ser o grande cliente da hotelaria nacional neste ano, embora nesta segunda-feira um estudo da DECO tem revelado que quase um quarto dos portugueses ainda não decidiu onde vai passar férias e dois em cada dez assumem que não sairão de casa este ano.

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