José Theotónio: “Haverá voos mas não virão logo com turistas para o Algarve”

O grupo Pestana é o maior grupo hoteleiro nacional. Prepara-se para abrir cerca de uma dezenas de unidades em Portugal no início de junho.

As aberturas internacionais vão demorar algumas semanas mais. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, o José Theotónio, CEO, admite que o impacto financeiro da pandemia ainda não é possível prever. A retoma da atividade no verão deverá ser suportada pelo mercado doméstico, com a reabertura de ligações aéreas a não deverem ter um reflexo imediato no turismo. O Montijo é para a avançar e a TAP, caso o Estado apoie financeiramente a empresa, deve olhar para um "programa de rotas que sirva Portugal e os interesses dos portugueses".

Qual é o impacto financeiro que a pandemia tem para o grupo Pestana?

Ainda é difícil ter uma ideia. O mês de março e abril foi de faturação zero. O impacto final vai depender muito de como for a retoma. Os primeiros três meses da retoma serão só dependentes do mercado português, porque vai haver poucos voos. Mas se as coisas correrem bem, e houver um ganho de confiança ao nível europeu, temos a partir de setembro e outubro já mercados internacionais. Nos últimos anos, setembro e outubro têm sido meses já positivos. Temos a operação da Madeira - que é a mais forte - é que não é sazonal. Se houver uma retoma dos mercados internacionais a partir de setembro conseguiremos ter na Madeira também alguma operação. Temos a noção que a recuperação vai ser muito gradual. Para nós, se chegarmos ao final do ano com um EBITDA de mais ou menos de zero, ou seja que não se perca, dadas as circunstâncias deste ano, vai ser um ano positivo.

Um corredor, por exemplo para o mercado britânico, não pode ajudar na retoma já?

Vai ser um bocadinho difícil. Vai haver britânicos a voar para Portugal mas principalmente pessoas que têm aqui segundas residências, ou que habitualmente passam aqui algum período de tempo e que querem sair de Inglaterra e vir jogar golfe. Esses serão os primeiros a vir. Temos um mercado, o vacation club, que são os membros do nosso clube, que não têm casas o tempo inteiro. Sabemos que muitos estão desejosos de poder viajar para o Algarve e para a Madeira. Vai haver voos, mas será mais este tipo de cliente do vacation club, da segunda residência. Há também uma comunidade portuguesa muito grande que não vê a sua família há quatro meses e também vai querer ser dos primeiros a viajar. Acredito que vai haver voos mas não serão logo de turistas a correrem para o Algarve.

Há famílias portuguesas a perder poder compra. Como é que a procura interna pode ajudar o turismo?

Uma parte da população perdeu rendimento mas há uma outra que não. Obviamente, houve outra parte da população perdeu. Mas, se calhar, a parte mais afectada foi das pessoas com mais baixos rendimentos e que também já eram pessoas que não faziam férias. Acredito que uma parte do mercado interno vai reduzir-se mas algumas pessoas quererão fazer férias. O critério para o mercado nacional vai ser muito a confiança. Se as pessoas tiverem confiança que vão para uma unidade hoteleira e os standards de higienização, distanciamento social, que os processos que vão ser aplicados, são seguros e que podem ter uma boa experiência de férias. A hotelaria tem de ser capaz de transmitir - obviamente com as questões todas de segurança - que pode dar uma boa experiência aos clientes.

O selo que Turismo de Portugal desenvolveu e todas as medidas que foram implementadas vão dar a confiança necessária?

O selo é uma medida importante. As empresas hoteleiras, como a nossa, que está estruturada, têm trabalhado não só no selo mas em medidas adicionais.

Como por exemplo?

Quer nas questões que têm a ver com os check-in e os check-out; com os nossos fornecedores ao nível de limpeza temos trabalhado naquilo que são as máquinas que devem ser utilizadas e os produtos, que são diferentes. Também no mecanismo de limpeza dos quartos, que não pode ser feita com os clientes dentro; vamos escolher unidades que sejam arejadas, em que o cliente tem de sair 20 minutos antes de entrar as pessoas que vão fazer as limpezas; também vamos aconselhar que o cliente só volte passado algum tempo depois dessa limpeza; nas questões que tem a ver com a alimentação e bebidas. Há uma série de medidas e de standards que vão ser utilizados e nós no grupo Pestana, além do Selo Safe&Clean, que todas as unidades que vão abrir com, estamos a trabalhar com outras empresas de segurança alimentar e higienização internacionais e já estamos a trabalhar também com os operadores internacionais - que estão a exigir isso para trazer clientes - de maneira a termos uma certificação também internacional sobre aquilo que são os procedimentos que vamos utilizar.

O turismo em Portugal foi um dos principais motores da economia. Espanha, Itália, Grécia contam também bastante com o turismo também. E todos estamos a tentar lutar pelo mesmo: atrair turistas. Como é que se dribla a concorrência?

Passámos uma excelente imagem em termos da forma como ultrapassamos a pandemia. Por exemplo, um destino como a Madeira talvez tenha sido o único em que não morreu ninguém em função do Covid-19. Isso obviamente passa uma boa imagem. Mas não podemos esquecer que foi nesta altura que outra indústria sofreu tanto como a hotelaria, a aviação. As companhias de aviação vão viajar primeiro para os destinos que lhes dêem mais confiança e que lhes protejam mais o risco. Para elas, o risco é colocarem voos e não encherem. Uma das condições que temos de trabalhar com as companhias, e depois com os operadores turísticos, para que possamos fazer produtos completos e que protejam o risco. Espanha está a fazer isso muito bem com Menorca e com restantes Baleares; está a trabalhar muito em conjunto e está a proteger o risco desses operadores. Portugal, se quiser ter a recuperação na mesma altura, também terá que trabalhar com estes protagonistas.

A quem é que compete essa responsabilidade?

Compete a todos. Nós, empresas privadas e hoteleiros, mas também às associações e instituições que têm responsabilidade pela promoção dos destinos turísticos. E sei que têm estado em contacto com a easyJet, Ryanair, a TUI, etc. que são no fundo os grandes operadores que podem dinamizar o turismo internacional

Como vê a situação da TAP?

A TAP, para o turismo do Algarve, já não conta há muitos anos. Mas é muito importante para a Madeira. O turismo na Madeira, sem TAP, seria muito mais complicado. Com a falência de várias companhias charter nos últimos anos, a TAP transporta de muitos mercados emissores - nomeadamente do mercado alemão e escandinavo - através do hub de Lisboa para a Madeira. E é também muito importante também por exemplo o destino do Porto Santo. Para nós, é preocupante ver como a TAP está. Para nós, em termos turísticos, o que nos interessava é que, já que a TAP deverá ser intervenccionada houvessem algumas exigências em termos de quais são as linhas que nos interessam. As linhas que interessam para a atividade turística são as da Madeira, Porto Santo e também linhas que tragam para Lisboa e Porto. Para Faro não dizemos nada porque já estamos habituados que a TAP não conte. Mas o Algarve tem outras companhias e tem essa capacidade de dar a volta, de viver sem a TAP.

Ao que tudo indica, o Estado vai apoiar financeiramente a TAP. O Estado deve ficar com lugares na administração e gestão que possa tomar essas decisões?

O Estado já tem lugares na administração.

Mas a gestão é totalmente privada.

A TAP já foi várias vezes pública e foi nessa altura que praticamente deixou o aeroporto de Faro. É verdade que quem paga tem de ter uma palavra a dizer; não sei se é na gestão direta mas, se houver dinheiro público, na contratualização de um programa de rotas que sirva Portugal e os interesses dos portugueses. Para nós, uma das coisas que faz mais sentido é viajar para a Madeira, Porto Santo, ou fazer voos a partir do Porto para a Europa - para trazer turistas para o Porto - mais do que estar a voar para as Caraíbas ou para a Tunísia. Para aí leva portugueses para passarem férias noutros destinos.

Mas a aposta no mercado americano seria mais positivo.

Foi a TAP e a sua estratégia que nos últimos dois anos abriram o mercado americano. Depois com reforços do Turismo de Portugal, que fez promoções, e que trouxe turistas americanos. O turismo americano tornou-se num dos principais mercados e muito importante. O que fez aumentar o preço médio da venda foram mercados como o americano. O trabalho que estava a ser feito, e que se esperava que continuasse em 2020, que era um trabalho importante com o mercado americano e que estava a resultar. A pandemia acabou com tráfego aéreo e muito mais o aéreo transcontinental.

Antes da pandemia, um dos temas quentes associados ao turismo era o aeroporto do Montijo. Justifica-se avançar nesta altura ainda?

Justifica-se porque o Montijo só estaria pronto daqui a cinco anos. Era o que diziam os especialistas. Se demora cinco anos é bom que comece, porque esta recuperação da crise vai demorar, e vai ser muito gradual, mas em cinco anos haveremos de recuperar. E chegar daqui a cinco anos com uma recuperação do mercado e estarmos limitados, como estávamos por limitações no aeroporto, era perder uma oportunidade. Faz todo o sentido continuar com esse projeto e ganhámos tempo. Infelizmente, ganhámos tempo. O aeroporto deixou de ser tão urgente.

Têm hotéis em vários pontos do mundo. Como está a operação internacional?

Só temos quatro hotéis abertos, que estão com contratos com os Estados desses países: um em Cabo Verde, outro em São Tomé, outro em Moçambique e um na Venezuela. Não temos nenhuma unidade a operar normalmente. A perspetiva é que na Europa, a partir do mês de julho, se comece a abrir algumas das unidades - Berlim, Amesterdão e Madrid provavelmente. E até setembro conseguirmos abrir as outras unidades na Europa. Nos EUA, entre julho e agosto abrir o hotel de Nova Iorque e em setembro o de Miami. Na América do Sul a abertura vai ser mais tardia. Depende muito da evolução que o Brasil tenha e um bocadinho o mesmo em África. Em termos da estratégia internacional, o que é que tínhamos? Tínhamos dois hotéis para inaugurar e continuamos com as obras. É o segundo hotel em Nova Iorque e o segundo em Espanha. As obras atrasaram-se mas vão estar terminadas até ao final do ano. São essas unidades que abriremos provavelmente durante o próximo ano. As outras unidades internacionais que estavam previstas abrir são: uma em Marraquexe e outra em Tânger, são parcerias que temos - o investimento não é nosso. Esses projetos também estão em construção e também se atrasaram. Também se espera que até ao final do ano possam terminar. Por isso, a nossa estratégia internacional e nacional foi não deixarmos nenhum dos projetos que estava praticamente na parte final a meio. Acabamos todos. O que fizemos foi: aqueles que não tinham iniciado estão a ser repensados e a ver como saímos desta situação para depois equacionarmos.

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