Medicina na UCP é "cedência a pressão" dizem Ordem e Conselho

Foi aprovado o primeiro curso de Medicina numa privada, na Católica, depois de governo ter tentado aumentar vagas no público.

Ordem dos Médicos e Conselho de Escolas Médicas Portuguesas acusaram hoje a agência oficial, A3ES, que autorizou o primeiro curso de Medicina numa privada - na Católica -, de ceder a "pressões vergonhosas" do governo.

"A Ordem dos Médicos enviou os seus pareceres à A3ES no passado dia 14 de agosto e não voltou a ter qualquer novidade sobre os processos, tendo tomado conhecimento da aprovação do ciclo de estudos da UCP pelas notícias", sublinhou em comunicado o bastonário. "Tendo em consideração o condicionamento político prévio a que se assistiu nos últimos meses, e que oportunamente a Ordem dos Médicos lamentou, a decisão foi ao encontro do que era esperado, com a esfera política a prevalecer sobre a esfera técnica", lamenta Miguel Guimarães, afirmando que deixou então à agência a decisão sobre a divulgação dos seus argumentos para se opor à abertura de Medicina no privado.

"No entanto, confrontada hoje com declarações por parte do presidente da A3ES, em como o parecer da Ordem dos Médicos tinha sido positivo, e por tal não ser fiel ao que foi submetido, cumpre-nos repor a verdade", comunica, divulgando o parecer onde são apontadas as suas reservas e onde revela "vários motivos de preocupação que colocam em causa a qualidade do curso".

Depois de um chumbo à candidatura apresentada há dois anos e de ver também o recurso ser inviabilizado pela agência, a Católica teve hoje aprovação para abrir o curso de Medicina, que já tem data de arranque marcada para setembro do ano que vem, sendo lecionado em inglês e em parceria com a Luz Saúde e a Universidade de Maastricht.

Os chumbos foram justificados com os pareceres negativos nomeadamente da Ordem dos Médicos, que levantava questões pedagógicas, discordava de especificidades curriculares e considerava haver tempo insuficiente de contacto com a prática clínica em hospitais. A Ordem lembrava ainda a sobreposição de oferta, uma vez que a abertura do curso representaria uma terceira formação em Medicina na região de Lisboa, e o facto de "parte do pessoal docente da nova faculdade ser retirado da Universidade de Lisboa e da Universidade Nova de Lisboa".

Também o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP), que agrega representantes de oito instituições públicas, lamentou a aprovação do curso de Medicina da Universidade Católica, alegando que houve cedência "a forte pressão de agentes políticos", reiterando em comunicado que não está em causa a universidade. "A forte pressão exercida por vários agentes políticos, ao mais alto nível (...), terá sido, seguramente, a razão principal da tomada de decisão."

Recorde-se que o governo tentou no início deste ano alargar o número de vagas de Medicina, mas as faculdades públicas recusaram essa ideia, levando o ministro do Ensino Superior a admitir fazê-lo então através do privado. "Não é com corporativismos e com o fecho da prática da Medicina que vamos conseguir evoluir", sublinhou há um mês Manuel Heitor, insistindo que é necessário "trabalhar na criação de novos cursos e no aumento de vagas" em Medicina.

Contra a posição oficial parecem estar todos os representantes atuais do setor. No comunicado do Conselho de Escolas Médicas, evoca-se mesmo o consenso entre este, a Associação Nacional dos Estudantes de Medicina e a Ordem dos Médicos, que "têm o conhecimento adequado sobre o ensino médico em Portugal", sobre "a não oportunidade" de um novo curso de Medicina.

"Não queremos a vulgarização e banalização do ensino médico e, sobretudo, a desadequação àquilo que são as reais necessidades do país", advoga o CEMP, acrescentando que "aumentar a oferta formativa em Portugal contribui apenas para engrossar o número de médicos indiferenciados, sem saída profissional, que não seja a emigração ou a sujeição a contratações por empresas de fornecimento de serviços indiferenciados". "Tal só contribuirá para a descaracterização duma profissão, que se quer sempre regida pelos mais elevados padrões", invoca o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, assinalando que a sua posição "não tem nada contra qualquer universidade, privada ou pública". Com Lusa

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