Pandemia corta um quarto das horas trabalhadas no alojamento e restauração

Foi também neste setor que se registou uma das maiores destruições de emprego em 2020, apenas ultrapassado pelo imobiliário.

No ano passado, os trabalhadores do setor da restauração e alojamento trabalharam, em média, menos dez horas do que em 2019, revelam os dados do inquérito ao emprego, do Instituto Nacional de Estatística (INE), pedidos pelo Dinheiro Vivo.

Esta redução em 2020 traduziu-se numa queda de 24,4% face ao ano anterior, de acordo com os cálculos do DV, passando de uma média de 41 horas semanais efetivamente trabalhadas para 31 horas semanais.

Este corte brutal é quase o triplo da média total dos 20 setores de atividade considerados que foi de 8,8%, representando cerca de menos três horas em média, passando de 34 horas para 31 horas semanais.

A redução nestes setores altamente dependentes do turismo está diretamente relacionada com a crise pandémica. No ano passado, houve 10,5 milhões de hóspedes no país, responsáveis por 26 milhões de dormidas, representando quedas de 61,3% e de 63%, interrompendo um ciclo de crescimento que durava há vários anos, depois da forte recuperação iniciada em 2014.

Tendo em conta os dados da faturação divulgados esta quarta-feira pelo INE, o alojamento registou uma queda de 66,5% entre março e dezembro do ano passado, comparando com o mesmo período de 2019. De acordo com os dados da Associação da Hotelaria de Portugal, no final do ano passado perto de metade dos hotéis estavam encerrados devido à falta de clientes.

O ramo de atividade de restauração e similares registou uma quebra homóloga de faturação de 42,5% de acordo com os dados do gabinete estatística, referentes aos meses de março a dezembro do ano passado. Uma redução que se ficou a dever aos encerramentos, ainda que intermitentes, ao longo de 2020 depois do início da pandemia.

As maiores quebras de horas trabalhadas registam-se depois nas "outras atividades de serviços" que incluem trabalho nos sindicatos, nas associações profissionais ou salões de cabeleireiros, que também estiveram encerrados ou com horários limitados em 2020. Neste caso, o decréscimo das horas médias trabalhadas foi de 17,1%.

"As artes, espetáculos e desporto" é o ramo de atividade que encerra o pódio dos que perderam mais horas trabalhadas (-16,7%), com menos cinco horas, em média, seguindo-se as atividades imobiliárias com uma quebra de 15%, correspondendo a menos de quatro horas semanais.

Os dados fornecidos pelo INE a pedido do DV mostram que apenas um ramo de atividade manteve a média de horas trabalhadas. Na "captação, tratamento e distribuição de água, gestão de resíduos e despoluição", preservou a média de horas trabalhadas por semana - 33.

"As atividades financeiras e de seguros" e as "indústrias extrativas" registaram quebras de 2,8% e 2,9%, respetivamente, correspondendo a menos uma hora por semana.

Destruição do emprego

Os setores de atividade onde se registaram as maiores quebras de horas semanais trabalhadas são também aqueles em que se verifica uma quebra mais pronunciada do número de pessoas empregadas, apesar de algumas alterações na tabela.

Olhando para este indicador, a destruição de emprego entre o final de 2019 e o mesmo período de 2020 foi maior no imobiliário com uma quebra homóloga de 18%, correspondendo a menos nove mil pessoas.

Logo depois está o alojamento e restauração, que em termos relativos registou uma quebra de 9%, mas em termos absolutos a dimensão é muito significativa, com quase menos 29 mil pessoas a trabalharem neste ramo de atividade.

Ou seja, mais uma vez a pandemia arrasou os setores diretamente relacionados com o turismo e as atividades que exigem contacto direto e pessoal com os clientes, além das restrições impostas por determinação do governo.

Mas também houve casos de criação de emprego no ano da pandemia, apesar de uma destruição de 2% no total. É o caso das indústrias extrativas, que registaram um aumento homólogo do emprego de 30% ou na eletricidade e gás, sendo que em ambos os casos o ponto de partida era muito baixo. As indústrias extrativas empregavam em 2019 menos de 13 mil trabalhadores e na eletricidade e gás cerca de 25 mil.

Olhando para os setores com maior peso no emprego, destacam-se as quedas no comércio por grosso e retalho (lojas) e precisamente o alojamento e restauração. No primeiro caso, perderam-se 38 mil empregos e no segundo cerca de 29 mil, como já referido.

O economista João Duarte, da NOVA SBE, reconhece que é difícil analisar o que se está a passar no mercado de trabalho e mesmo na economia como um todo. "Houve mudanças estruturais, como com o teletrabalho", começa por assinalar, admitindo que a economia está ainda a ser "alimentada" pelos apoios do Estado.

"Todos estamos a favor das medidas de apoio, mas está tão difícil perceber o famoso outup gap, isto é, quanto é que nós estamos abaixo ou não do potencial de produção, que fica muito difícil perceber qual é o estado da economia", conclui o economista.

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