Pobres aguentam um mês de despesas, ricos um ano. Turismo, não se sabe

"Turismo em Portugal tem de sobreviver ao próximo verão”, foi um dos avisos mais sérios de Paolo Gentiloni, o comissário europeu da Economia.

Os portugueses mais pobres só vão aguentar um mês de despesas normais se o atual contexto de pandemia continuar, ao passo que as famílias mais ricas conseguem aguentar um ano, diz o Banco de Portugal (BdP) num estudo novo, ontem divulgado.

A Comissão Europeia (CE) também falou ontem para confirmar que a recessão portuguesa pode chegar a quase 7% este ano e o desemprego a perto de 10% da população ativa.

As previsões da primavera deixam o aviso e, embora a economia de Portugal nem seja das mais destruídas pelo vírus, a descolagem pode ser lenta e dolorosa, porque o país depende muito ou demasiado do turismo estrangeiro, um sector muito intensivo em emprego.

O trabalho do BdP analisou o que acontece à capacidade de as pessoas honrarem as suas despesas normais mensais; os gastos em "consumo de bens não duradouros e serviços e encargos com dívida e rendas".

Diz o Banco governado por Carlos Costa que "as famílias no quintil mais baixo de rendimento

conseguem pagar pouco mais de um mês de despesas recorrendo a riqueza disponível no curto prazo enquanto no quintil mais elevado as famílias dispõem de recursos suficientes para financiar mais de um ano de despesas na ausência de rendimento".

E isto num cenário de carestia de emprego e de restrições à atividade por ainda não haver vacina para o novo coronavírus.

O banco central considera que "a capacidade das famílias pagarem as despesas com base no rendimento é igualmente muito heterogénea. Antes da pandemia, o valor médio do rendimento deduzido de despesas é de 610 euros no conjunto das famílias", ou seja, era o que em média sobrava no final do mês depois de todas as contas saldadas.

"Este valor varia consideravelmente com o rendimento das famílias, situando-se em média num valor negativo de 86 euros no grupo de 20% de famílias com rendimento mais baixo, e em 2788 euros no grupo de 10% de famílias com rendimento mais elevado."

Dito de outra forma, nas camadas mais pobres, gastam tudo e ainda ficam a dever ou têm de pedir emprestado 86 euros em média. Aos mais ricos, sobra-lhes 2788 euros no fim do mês.

No entanto, o BdP fez o mesmo exercício, mas com as moratórias das prestações devidas aos bancos e das rendas, que são o encargo mais pesado para os mais pobres. Mesmo com a ativacão das moratórias, o rendimento final, já depois de tudo pago, continua a sofrer um corte. Em média, pode chegar a 8% (toda a população estudada).

O Banco refere ainda que "em todas as classes de rendimento e escalões etários, a moratória sobre as prestações tem um impacto mais significativo do que a moratória sobre as rendas. Em geral, as moratórias têm um impacto particularmente favorável nas famílias de menor rendimento e nas famílias mais jovens".

Seja como for, é só alívio passageiro. Quando a pandemia acalmar, as rendas e as prestações do banco vão ter de ser todas pagas na mesma. E aí os mais pobres e os que ficaram desempregados, estarão numa situação complicada, talvez pior.

Turismo sobrevive ao verão?

Muitas das pessoas (trabalhadores, sobretudo muitos jovens) que ficaram, de um dia para o outro sem trabalho, estavam no sector do turismo ou em alguma atividade conexa. Tudo parou e milhares engrossam agora as fileiras do desemprego, outros foram para lay-off.

No estudo que ontem publicou, Bruxelas refere várias vezes esse problema que pode arrastar a recuperação da economia nacional. Assim como outras muito dependente do turismo, como Espanha e Itália. Os riscos para a retoma portuguesa "são negativos, dada a dependência de Portugal do turismo estrangeiro".

"As exportações devem diminuir significativamente, tendo em conta as receitas consideráveis que Portugal obtém normalmente do turismo estrangeiro (cerca de 8,7% do PIB em 2019) e também algumas medidas de distanciamento social que vão continuar a afetar os serviços ao longo do segundo semestre de 2020", alerta a entidade presidida por Ursula von der Leyen.

Bruxelas refere ainda que "muitas das reduções no emprego são provavelmente temporárias, mas a lenta recuperação que se espera para o turismo e os serviços relacionados deverá ter um impacto negativo na procura por mão-de-obra e por um período mais longo".

Portugal, que cresceu 2,2% no ano passado, vai afundar numa das piores recessões da sua História, com a economia a recuar 6,8% este ano, prevê a Comissão Europeia, nas novas projeções da primavera.

"O turismo tem de sobreviver ao próximo verão em Portugal, estamos a trabalhar nisso", declarou o comissário da Economia, Paolo Gentiloni, na conferência de imprensa de apresentação das previsões da primavera, esta quarta-feira, em Bruxelas.

Ou seja, até pode haver alguma retoma, mas ela será internamente desequilibrada. O turismo e as atividades que a ele estão encostadas podem levar tempo a levantar-se deste enorme embate que está a ser a pandemia.

"Temos de trabalhar para ter a certeza que o sector do turismo sobrevive ao verão", insistiu o comissário, sublinhando que a tarefa é mais complicada pois "Portugal está mais exposto a turismo estrangeiro" do que outros países.

"Nesse sentido, esse será um dos pontos no colégio comissários da próxima semana, temos de trabalhar para ter guias de política para poder coordenar esta situação relativa ao turismo", referiu Gentiloni. "Temos de trabalhar nisso até porque envolve outros sectores como aviação, as fronteiras", acrescentou.

A Comissão Europeia está a tentar chegar a um acordo com os 27 países da União para desenhar um fundo de recuperação no valor de 1 bilião de euros ou mais para ver se a economia sai deste buraco.

Mas há desacordo e o fundo que era para ter sido apresentado anteontem atrasou quase duas semanas, pelo menos. Ao lado da CE, está o BCE que tem um programa de compra de dívida de 750 mil milhões de euros e que ficará ativo até que a pandemia acabe.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de