Portugal com mais 6 mil mortes em 2020. O motivo? Pandemia e calor, diz a DGS

Julho deste ano foi o mais quente de sempre e mortes dispararam. DGS admite que calor e pandemia terão causado aumento da mortalidade

Os registos são claros: há bem mais mortes do que seria expectável em Portugal em 2020 - muito acima dos 1855 mortes por covid-19 anunciados até agora. A plataforma internacional EuroMOMO (rede de epidemiologistas) estima que houve em Portugal mais de 5 964 mortes do que seria expectável no período entre 25 de março e 25 de agosto de 2020.

Da lista apresentada e citada pelo Economist, Portugal é mesmo o 13º com pior registo, ficando mesmo pior do que a Suécia ou a França, com uma média de 58 mortes a mais do que o previsto por cada 100 mil habitantes. O pior registo (e maior diferença face às mortes registas por covid-19) foi mesmo no final de julho, seguindo-se o início de abril e a semana de 2 de junho.

Esta tarde, o INE divulgou dados no mesmo sentido, com a instituição a indicar que entre 1 de março e 30 de agosto morreram em Portugal mais 5 882 pessoas que em igual período de 2019, uma variação resultante do aumento de mortes de pessoas com mais de 75 anos, é revelado.

E qual o motivo? A Direção-Geral de Saúde (DGS), que demorou alguns dias a nos responder, admitiu hoje que está a vigiar esse aumento de mortalidade, precisamente através da tal metodologia internacional EuroMOMO (que tem por base dados dos 5 anos anteriores). A DGS separa este excesso de mortalidade desde março em três períodos. O primeiro, de final de março e princípio de abril, "coincide com o pico da epidemia de covid-19 em Portugal". O organismo explica que, na ausência de "outra explicação robusta", "coloca-se como hipótese que a pandemia de covid-19 tenha sido a causa mais provável do aumento de mortalidade neste período".

Pico de calor com mais 1278 mortes

O segundo e terceiro período de excesso de mortalidade (maio e julho-agosto) coincidiram com períodos em que se registaram temperaturas mais elevadas em Portugal. A DGS diz mesmo que o pior período foi "entre as semanas 28 e 31 de 2020 (de 6 de julho a 2 de agosto)", em que o "sistema ÍCARO (instrumento de observação epidemiológica coordenado pelo INSA, que mede o efeito do calor na saúde) identificou precocemente um período de calor extremo, prevendo impactos significativos na mortalidade".

De acordo com a EuroMOMO nas últimas duas semanas de julho houve mais 1278 mortes do que o esperado e só se registam 54 mortes no mesmo período por covid-19.

E a mortalidade registada nesse intervalo temporal parece mostrar isso mesmo: "foram observados valores de mortalidade por todas as causas acima do esperado para a época do ano, em todas as regiões de saúde de Portugal Continental e nos grupos etários acima dos 75 anos de idade". As temperatura extremas terão mesmo tido "um importante contributo no excesso de mortalidade nesse período", indica a DGS que explica que além da mortalidade por covid-19, "está a apurar os óbitos por outras causas, tendo iniciado a codificação das mortes não-covid-19", algo que pode demorar - está agora a decorrer a codificação dos óbitos de 2019 e só em 2021 deverá ser feita igual processo para 2020.

Julho 2020, o mais quente de sempre

Dados oficiais do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) revelam mesmo que julho de 2020 foi o mês (de julho) mais quente desde que há dados registados em Portugal (1931). Em termos de temperatura média isso significa que houve um aumento de 2,91 graus face ao normal.

A temperatura máxima média - que costuma ter maiores efeitos na mortalidade - foi de mais 4,61 graus, ou seja, 33,4 graus. Houve três ondas de calor em julho em Portugal: entre o dia 4 e o dia 13 de julho, na região do interior Norte e Centro; entre dia 9 e 18 em todo o interior; 25 a 31, em especial no interior Norte (precisamente a altura de um dos maiores picos de excesso de mortalidade).

Comparativamente a julho de 2019, este ano foi bem pior já do que o ano passado, em que se registou na altura um aumento da temperatura média de apenas 0,02 graus. Próximo dos níveis de julho de 2020, só mesmo (por ordem de temperatura) 1989 (2,46 graus), 2016 (2,16), 1990 (2,08), 2010 (2,03).

"Só sabendo as causas se pode evitar mais mortes"

Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, explica-nos que cabe à DGS receber e analisar estes dados "que são objetivos e fiáveis, permitindo a comparabilidade entre países para perceber os desvios que existem". O também presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública admite que possam existir mais mortes por covid-19 em Portugal do que as 1855 registadas oficialmente, embora "só a DGS com acesso aos certificados de óbito poderá tirar conclusões" que são importantes "para avaliarmos o que devemos fazer para reduzir este excesso elevado de mortes".

Além do período de maior calor no verão ter o potencial de agravar várias doenças e levar a um aumento da mortalidade em pessoas mais idosas ou vulneráveis, há vários outros factores a ter em conta, isto num início de ano onde, por causa do confinamento, alguns tipos de morte. "A pandemia, especialmente durante o confinamento, também fez muitos evitarem uma ida ao hospital por receio, o que em situações mais severas pode ter levado a que só se chegasse ao hospital já tarde demais".

Mexia também admite também as descompensações do SNS em termos de consultas também podem ter tido (e estar a ter) consequências. "Há muito menos consultas de médico de família e intervenções cirúrgicas e isso influencia negativamente a saúde em geral dos portugueses", explica o especialista, que espera que não tenha havido grande desvio de mortes relativamente a doenças oncológicas (cancro).

Nos números anunciados esta semana pela Ordem dos Médicos, que Ricardo Mexia também evidencia com preocupação, destaque para redução significativa de acesso às urgências hospitalares em Portugal. Não só as consultas presenciais nos centros de saúde caíram 36% no primeiro semestre do ano face a igual período de 2019, como as urgências caíram 27%, com menos 839 mil do que em 2019. As cirurgias tiveram uma quebra de 27% - 30% nas cirurgias programadas e 10% nas operações urgentes, algo que a Ordem dos Médicos e os administradores hospitalares indicaram esta terça-feira ser motivo de preocupação, com "o agravar da situação" em Portugal.

"As pessoas têm de procurar cuidados de saúde"

Mexia deixa mesmo um alerta: mesmo em tempos de pandemia "é fundamental que as pessoas procurem cuidados de saúde quando precisam, como o faziam no passado". Outro tema que preocupa o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública é o da vacinação.

Além da questão das possíveis vacinas para a covid-19, "deve haver uma manutenção do Programa Nacional de Vacinação para não haver outros tipos de surtos". O especialista destaca, por exemplo, as vacinas para as crianças: "é muito importante que a cobertura nacional de vacinação não caia nem quebre".

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de