Prestação da casa vai subir mais de 100 euros para 480 mil contratos 

O Banco de Portugal avisa que os riscos para a estabilidade financeira estão a aumentar devido à alta inflação e subida dos juros. Prestações da casa podem subir, em média, 92 euros.

A prestação mensal do crédito à habitação pode aumentar mais de 100 euros para um número significativo de famílias entre junho de 2022 e final de 2023. Cerca de 476 mil contratos deverão ter aumentos acima daquele valor caso as estimativas para a evolução da Euribor usadas pelo Banco de Portugal (BdP) no Relatório de Estabilidade Financeira, que foi divulgado ontem, se concretizem. Segundo os dados divulgados pelo supervisor, 34,5% dos cerca de 1,4 milhões de contratos à habitação existente terão aumentos acima de cem euros.

O Banco de Portugal estima que o valor total das prestações pagas pelos particulares em empréstimos da casa passe de cerca de 390 milhões de euros, em junho de 2022, para 520 milhões de euros, em dezembro de 2023. Segundo as contas do supervisor, "o valor médio em dívida dos particulares, de cerca de 64 mil euros, traduz-se numa prestação média estimada de 279 euros em junho de 2022". Neste quadro, "espera-se que esta aumente 92 euros até ao final de 2023", detalha a entidade liderada por Mário Centeno. Para 41% dos contratos de empréstimos à habitação, espera-se que o aumento da prestação entre junho de 2022 e dezembro de 2023 seja inferior a 50 euros.

Apesar de as novas operações de crédito à habitação com taxa de juro fixa ou mista estarem a aumentar, representando nos primeiros nove meses do ano 13% do montante dos novos empréstimos, os contratos com taxas variáveis continuam a dominar, pesando cerca de 90% do total.

Riscos a aumentar

A predominância dos contratos de crédito da casa com taxas de juro variável e a redução da poupança das famílias estão precisamente entre os riscos apontados pelo Banco de Portugal para a estabilidade financeira. Tendo como pano de fundo a alta inflação, as subidas abruptas das taxas de juro e a incerteza que a guerra na Ucrânia traz, o supervisor vê um agravamento dos riscos.

No que diz respeito à poupança, Mário Centeno tem defendido um aumento da remuneração dos depósitos para combater a inflação. Um pedido que os bancos até agora parece não terem acolhido, mas que foi reforçado esta quarta-feira. "Há necessidade de todos os agentes económicos em Portugal pensarem duas vezes sobre o ganho marginal de curto prazo de aumentarem as suas margens de lucro face ao ganho para todos e permanente a médio prazo de contermos esta espiral inflacionista, o que se aplica aos bancos também", defendeu Centeno na apresentação do relatório. "Se houver incentivos adicionais à poupança estamos certos de que irão ajudar na contenção dos preços e nesta batalha pela inversão do atual ciclo", acrescentou o governador.

Queda dos preços das casas

A redução dos preços das casas é outro dos riscos destacados no relatório, uma situação que poderá também afetar o valor de carteiras de ativos de famílias ou de entidades financeiras, seja de forma direta, seja por via das garantias em operações de crédito. "A incerteza corrente, a potencial perda de rendimento real das famílias e aumentos adicionais das taxas de juro poderão reduzir a procura por ativos imobiliários". Porém, com as restrições na oferta de habitação, o BdP sublinha que não é de esperar um excesso de oferta "que requeira um período prolongado até que seja absorvida pelo mercado".

No mesmo documento, o supervisor da banca detalha que a percentagem de transações financiadas com crédito bancário doméstico, cerca de 50% em 2022, é bastante inferior à anterior à crise da dívida soberana - cerca de 75% em 2010. Além disso, outro fator que leva o Banco de Portugal a olhar para a situação de uma forma menos preocupada prende-se com a recomendação macroprudencial relativa aos novos créditos às famílias, a qual "promove a resiliência de mutuantes e mutuários nas transações financiadas por crédito".
Para o setor bancário, o BdP aponta como um dos perigos "a materialização acrescida dos riscos de mercado e de crédito". Essa materialização dependerá, em grande medida, da evolução da economia e da taxa de desemprego, do ritmo de subida das taxas de juro e das medidas de apoio adotadas.

O documento sublinha ainda que a maior dificuldade em assegurar a redução prevista do rácio de endividamento público, face ao abrandamento real e nominal da economia e a um aumento, eventualmente mais expressivo, das despesas com juros, é outra das vulnerabilidades para a economia portuguesa.

Aliás, face às mudanças no contexto dos mercados financeiros e subida generalizada dos juros, Mário Centeno antecipa uma "redução muito substancial" dos dividendos que a instituição que irá entregar ao acionista Estado nos próximos anos.

Redução dos preços das casas é um dos riscos, aponta o Banco de Portugal, liderado por Mário Centeno.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de