Recessão será a mais violenta desde 1928 (ou pior) e turismo afunda 60%

Orçamento suplementar assenta numa previsão de recessão de 6,9%. Banco de Portugal avisa que segunda vaga de covid-19 afundará a economia em 13,5%.

A recessão da economia portuguesa, este ano, será a mais violenta desde 1928 (ou pior até), arrastada por todas as partes da procura, mas sobretudo pelo turismo, que entra em "colapso" total (afunda 60%), diz o Banco de Portugal (BdP) no seu novo boletim económico, divulgado esta terça-feira.

A entidade ainda governada por Carlos Costa, que a partir de julho deverá ter o ex-ministro das Finanças, Mário Centeno, no comando, é agora a instituição mais pessimista quanto ao impacto da crise da covid-19 na atividade económica do País: projeta uma recessão de 9,5% em 2020, mas um recuperação um pouco mais rápida, embora a economia não recupere totalmente do embate nem daqui a dois anos e meio.

Em março, o BdP previa que, num cenário base, central, menos adverso a economia sofresse uma contração de 3,7% e que no pior dos cenários, a depressão fosse até aos 5,7%.

Segunda vaga de covid-19 faz economia afundar quase 14%

Agora, com mais informação, designadamente a forte revisão em baixa da atividade da zona euro revelada recentemente pelo BCE, e analisando o passado recente de Portugal (os últimos três meses, sendo que este novo estudo fechou com dados até 18 de maio), o banco central nacional afirma que a recessão pode ter quase o dobro da violência do que se pensava inicialmente.

A contração de 9,5% é dita como sendo o cenário central, mas o Banco avisa que a incerteza é enorme e que os riscos negativos são especialmente dramáticos pelo que é de considerar uma contração ainda maior este ano. Num cenário mais adverso, em que há uma "segunda vaga" de infeções pelo coronavírus e as consequentes medidas de confinamento, a economia pode afundar uns impressionantes 13,5% ou mais, calcula o BdP.

Neste boletim "são identificados riscos de revisão em baixa das projeções para a atividade económica em Portugal, sobretudo relacionados com a possibilidade de uma evolução mais adversa da pandemia".

Assim, o Banco conta também com "um cenário alternativo mais severo para a economia portuguesa e mundial, no qual se assume uma nova vaga de infeções e consequente reintrodução de medidas de contenção rigorosas, com efeitos mais severos e persistentes sobre a atividade e sobre o mercado de trabalho", com uma nova onda de falências de empresas, por exemplo.

Finanças assumem recessão menos violenta no novo orçamento

Em todo o caso, mesmo aquela redução de 9,5% que consta do cenário base é muito superior à que o governo usa para alicerçar o seu novo orçamento suplementar para 2020: as Finanças assumem que a economia cai 6,9%.

A projeção de base do banco central é ligeiramente pior que a da OCDE, que na semana passada apontou para uma redução de 9,4% da economia em 2020. E é claramente mais pessimista face à contração de 6,8% estimada pela Comissão Europeia (em maio) ou face aos 7,5% estimados pelo Conselho das Finanças no início deste mês.

Segundo o BdP, "a redução projetada para o PIB (produto interno bruto) em 2020 é muito significativa, excedendo largamente as quedas observadas nas recessões mais recentes, sendo necessário recuar aos anos 20 do século passado para encontrar uma queda desta magnitude". É preciso recuar até 1928, ano em que Portugal registou um colapso de 9,7%, indicam as séries históricas citadas pelos economistas do banco central.

Um país à sombra do turismo

Como referido, o turismo vai ser o setor que mais irá complicar a economia portuguesa, reflexo do facto de o País estar muito encostado a este tipo de receitas. Ou estava porque, observa o Banco, a exportações de serviços turísticos (tudo o que é desembolsado por este tipo de visitantes estrangeiros quando vêm a Portugal) devem colapsar cerca de 60% este ano.

Diz o BdP que "a recuperação posterior deverá ser muito gradual, num contexto de elevada incerteza e de potenciais alterações nas preferências e nos comportamentos dos consumidores destes serviços e tendo também em conta a elevada elasticidade rendimento da despesa em turismo".

Ou seja, "dado o peso relativamente elevado do turismo nas exportações totais por comparação com outros países, Portugal encontra-se particularmente exposto, projetando-se uma queda desta componente das exportações de mais de 60% em 2020".

Além disso, "tendo em conta a evolução da procura externa, os exportadores portugueses deverão perder quota nos mercados externos em 2020", sendo que "esta perda reflete essencialmente um efeito de composição, associado à especialização relativa de Portugal no setor do turismo. A recuperação destas exportações deverá ser também mais lenta, ocorrendo de forma mais expressiva apenas em 2022".

Recuperação a partir de setembro, mas insuficiente

O BdP refere que a contração da atividade face ao final de 2019 atingiu "todas as componentes da despesa, com exceção do consumo público".

"Destaca-se pela magnitude a redução das exportações, em particular de serviços, refletindo o colapso da atividade turística", evolução que "contribuiu para que o principal contributo para queda do VAB (valor acrescentado bruto) tenha vindo do setor dos serviços, mantendo a construção uma variação positiva".

"O impacto sobre a atividade dever-se-á acentuar marcadamente no segundo trimestre, estimando-se uma redução em torno de 15% face ao nível do primeiro trimestre", mas a partir do segundo semestre de 2020 a economia deverá recuperar progressivamente e de forma mais marcada em 2021 e 2022."

Segundo o novo estudo, o PIB deve crescer em termos reais 5,2% em 2021 e 3,8% em 2022, mas "no final do horizonte de projeção, a atividade deverá situar-se num nível próximo do observado em 2019, mas consideravelmente abaixo do esperado antes da pandemia".

"Para o consumo privado, projeta-se uma redução de 8,9% em 2020, mais acentuada do que a quebra do rendimento disponível real", pelo que "a taxa de poupança deverá aumentar substancialmente em 2020, refletindo a dificuldade de consumir alguns bens e serviços durante o estado de emergência e a elevada incerteza prevalecente". Os consumidores gastam menos com receio do futuro próximo, de ficarem sem trabalho ou porque já estão desempregados ou com cortes de rendimento (caso do lay-off),

O consumo público deve subir 0,6% "em resultado do efeito conjugado de uma maior despesa em saúde pública no contexto da crise pandémica e da diminuição da atividade das administrações públicas, relacionada com uma redução do número de horas trabalhadas".

"Após a reversão destes efeitos pontuais e na ausência de medidas de política adicionais, prevê-se que o consumo público mantenha, ao longo do horizonte de projeção, uma evolução similar à projetada para o ano em curso."

Já o investimento afunda 11,1% este ano, mas depois "deve recuperar mais rapidamente do que em ciclos anteriores, após uma queda significativa em 2020, embora seja esperado que, em 2022, permaneça aquém dos níveis registados em 2019". "A expectativa é que o impacto negativo sobre a FBCF residencial seja relativamente limitado e que a FCBF pública apresente um crescimento superior ao do PIB" até 2022, pelo menos.

O maior contributo para a recessão vem das exportações, que até 2019 eram a estrela da economia. "A queda das exportações de bens e serviços deve chegar a 25,3% em 2020, seguida por crescimentos de 11,5% em 2021 e de 11,2% em 2022", mas estas subidas "serão insuficientes para recuperar o nível registado em 2019".

"A queda nas exportações reflete, sobretudo, uma descida muito acentuada das exportações de serviços associados ao turismo, com efeitos persistentes até ao final do horizonte de projeção."

"No mercado de trabalho, as projeções apontam para uma queda expressiva do emprego em 2020, de 4,5%, e para um aumento significativo da taxa de desemprego, para 10,1%, evoluções que dependem criticamente das políticas adotadas que visam preservar o emprego e a liquidez das empresas". Nos próximos dois anos "deverão registar-se melhorias" no emprego e na taxa de desemprego, "mas não suficientes para retomar os valores observados em 2019".

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