Só 24% dos jovens abaixo dos 30 anos tem casa própria

Compra de casa acontece mais tarde e o número de jovens a viver em casa dos pais está a aumentar.

As preocupações com o tema da habitação são transversais a todas as faixas etárias, mas os dados apontam que algumas gerações podem estar a sentir na pele mais dificuldades para ter morada própria. O estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado "Habitação Própria em Portugal", desenvolvido no âmbito do projeto “Desafios sobre a justiça intergeracional”, aprofundou as diferenças entre gerações no tema do acesso à habitação.

Apesar de o acesso à habitação própria ter aumentado em Portugal, entre 1981 e 2001, chegando mesmo a 73% das famílias com casa própria em 2011, os jovens estão a enfrentar mais desafios na hora de comprar casa. O estudo mostra que, ao contrário das duas gerações anteriores, apenas 24% dos jovens com menos de 30 anos é dono de habitação própria (dados de 2017). Este fenómeno tem vindo a agravar-se desde o início do século: em 2001 e 2011, a percentagem de famílias cujo representante tinha menos de 30 anos situava-se nos 64% e 45%, respetivamente. Feitas as contas, entre 2011 e 2017, esta percentagem recuou 21 pontos.

Assim, para quem consegue comprar casa, os anos seguintes são promessa de algumas décadas com encargos de hipoteca. Baseando-se em dados do INE e do ICOR, a distribuição etária dos proprietários com hipoteca sofreu significativas alterações entre 2011 e 2017. Estes dados revelam que, em 2017, 61% dos proprietários com hipoteca estava entre os 30 e os 44 anos, contra 56% em 2011.

Ou seja, com as hipotecas a iniciarem-se em muitos casos para lá dos 30 anos, os encargos com os empréstimos à habitação também prometem terminar já além da idade legal de acesso à reforma, situada atualmente nos 66 anos e 5 meses.

Os fatores que justificam o acesso mais tardio à compra de casa nem sempre são lineares, mas há alguns com maior relevo, como a instabilidade do emprego entre os jovens, o peso crescente das despesas com habitação ou a quebra de riqueza líquida das famílias mais jovens nos últimos anos. No caso dos encargos com a habitação, os dados indicam que, no espaço de 26 anos, a despesa anual média das famílias portuguesas com a habitação duplicou: em 1990 representava 12% e em 2016 já valia 32% da despesa anual média das famílias.

As autoras do estudo - Romana Xerez, Elvira Pereira e Francielli Dalprá Cardoso - concluíram que, mesmo com vários fatores para esta diferença entre gerações, o desinteresse dos jovens pela ideia de casa própria pode não ser uma realidade. Um inquérito feito em Portugal, em 2019, questionou jovens entre os 18 e 34 anos para imaginar uma situação de estabilidade e o tipo de casa - seria própria ou arrendada? Nesta situação, apenas 12% sonhava com uma casa arrendada, mostrando que os jovens portugueses indicam preferência pela aquisição de casa própria.

Por outro lado, está a aumentar a percentagem de jovens adultos (18 a 34 anos) que continuam a viver em casa dos pais. Se, em 2004, esta percentagem rondava os 55%, em 2018 situava-se nos 64%. Estes valores dão a Portugal o terceiro lugar no pódio dos países da União Europeia (UE) com as percentagens mais elevadas de jovens adultos ainda a morar em casa dos pais. Se a média da UE rondava os 48% da população de jovens adultos, Portugal era ultrapassado pela Itália (66%) e Grécia (68%). “As razões culturais poderiam explicar isto mas outros estudos mostram que jovens do sul têm menos condições de acesso à habitação”, referem as autoras, lamentando o “mercado de habitação social muito reduzido”, “um dos mais pequenos da UE”.

“A dificuldade de acesso à habitação por parte dos millennials já não é uma questão privada, é uma questão pública”, comenta Romana do Carmo Lança. “O estudo mostra que jovens podem estar numa situação de desvantagem face às gerações anteriores”, em que a “situação de desvantagem poderá ser realçada pela pandemia" de covid-19.

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