a vida do dinheiro

“Não é justo pôr culpas da produtividade no trabalhador”

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Licenciada em Economia pela Universidade de Manchester, com especialização em Tecnologia Têxtil, Isabel Furtado é presidente executiva da TMG Automotive (Grupo Têxtil Manuel Gonçalves) e desde há um ano presidente da COTEC Portugal, associação empresarial portuguesa para promoção da inovação e cooperação tecnológica. Abrange multinacionais, grandes grupos e pequenas e médias empresas (PME), representando mais de 16% do produto interno bruto (PIB) português e cerca de 8% do emprego no setor privado.

Decorreu nesta semana em Nápoles o encontro COTEC Europa, dedicado à Competitividade e Inovação na Administração Pública. Que traz do encontro?
Foi um encontro dirigido à digitalização da função pública, com Portugal, Espanha e Itália, que representam 7 milhões de empresas e 35 milhões de trabalhadores. Foi discutido como o setor público terá de digitalizar administração e conteúdos de forma a seguir uma indústria 4.0 já patente nas empresas. Portugal tem feito um percursos sustentado – a digitalização na função pública está num patamar muito superior a outros países da Europa – e viemos com contentes por ver que estamos no pelotão da frente nisso.

No privado em ponto estamos?
No segundo pelotão, porque temos estádios diferentes nas empresas, com umas muito bem conectadas e a trabalhar de forma inteligente e outras ainda a começar ou num percurso inicial. Não há harmonia no 4.0 no nosso país. É ainda preciso uniformizar regras na União Europeia para que possa haver perfeita conexão de informação e partilha de conhecimento, sobretudo na construção e na saúde. Porquê na construção? Porque faz todo o sentido que empresas portuguesas que queiram concorrer noutro país europeu trabalhem na mesma plataforma de digitalização e conectividade em que estão os parceiros. Em Portugal, temos empresas a fazer isto muito bem… Trata-se do BIM – Building Information Modeling, que consiste na conceção, adjudicação, obra, desmantelamento e recuperação de edifícios.

Na prática, a construtora que não tenha BIM tem dificuldade ou impossibilidade de acesso aos concursos?
Em alguns mercados já não tem acesso. Em Inglaterra, toda a construção pública está no BIM, e em Espanha começa em breve. É uma grande oportunidade para as empresas portuguesas e já há algumas a fazê-lo em França. O BIM é ainda muito importante para reduzir o custo de obra pela otimização de recursos e transparência.

No discurso de encerramento, o Presidente da República disse que “temos de aproveitar a digitalização para reformar as administrações públicas, mudar a mentalidade e a consciência cívica e aproximar pessoas”. A infoexclusão já é um problema social?
Podemos estar perante o perigo de a digitalização criar maior desigualdade. Foi um assunto que o Presidente da República levantou e é uma frase que requer atenção – sobretudo nas zonas com menos acesso à digitalização.

Há risco de infoexclusão entre as empresas?
As empresas em risco de infoexclusão poder perder a sua sobrevivência. A digitalização e conexão não são uma opção, podem ser mesmo uma questão de sobrevivência.

Vídeo. “Uma empresa não é feita de blocos estanques, é feita de pessoas”

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É para isso que serão formadas 200 mil pessoas na área da economia digital com os fundos do programa Indústria 4.0. Que expectativa tem na adesão das empresas ao Indústria 4.0?
Fechou há pouco o primeiro ciclo, de demonstração e mobilização, arranca agora o segundo, de divulgação e capacitação. Estamos perante uma revolução industrial que tem como base dados e conhecimento como fatores de produção, que tem de chegar não só às pessoas que saem da via académica mas também requalificar quem já está na vida ativa. As empresas sabem que o têm de fazer mas também é preciso que os conteúdos académicos, desde o ensino básico, conduzam os jovens a gostar do novo paradigma, das matemáticas, das engenharias. Porque não adianta muito no 10.º ano fazer os alunos escolher quando já ganharam aversão à matemática.

Vídeo. é preciso uma política de educação mais focada nos alunos

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O que está a pedir é uma nova política de edução?
O que peço é uma política de educação que se centre mais na carreira dos alunos do que até agora.

Depois da primeira fase do Indústria 4.0, as regras de acesso ao programa mudaram. As medidas agora já correspondem às necessidades das empresas?
Tivemos de aprender do que precisavam as empresas. Foi necessário ajustar para ir ao encontro não só das necessidades de implementação que a i4.0 precisa mas também ao estádio em que as empresa se encontravam. Por isso o open shop floors da Cotec tem vindo a dar conhecimento de empresas de vários setores, dos mais sofisticados, onde está a Nokia, a outros que nunca pensaríamos, como o da tratamento de pedra, que estão automatizados e digitalizados. E isso é bom para motivar quem tem de percorrer esse caminho. A segunda fase inclui também o programa que a Cotec elaborou com o BEI, de apoio a cerca de 350 projetos transformadores. O valor dependerá dos projetos a concurso…

Qual pode ser o impacto da digitalização no crescimento de um país onde 75% das empresas não tem maturidade digital?
Se virmos os estudos, a digitalização está ligada ao crescimento económico, ao PIB. Na Europa, os países que produzem com maior valor acrescentado também têm a indústria mais digitalizada. Portugal está em 12.º lugar em termos de digitalização; se conseguirmos saltar para um 7.º, teríamos uma subida no PIB estimada em 2,1% a 2,4% em cinco anos.

E o que é que falta para dar esse salto? Falta um empurrão do governo, das empresas…?
É necessário trabalhar em conjunto. Falta-nos algum atitude de empreendedorismo, temos alguns empreendedores mas faltam empreendedores jovens; temos um problema na passagem de conhecimento entre a academia e as empresas; e temos, e é mais preocupante, grande falta de colaboração interempresas, que é fundamental para o crescimento económico – e isso deixa-nos atrás dos parceiros, sobretudo no norte da Europa.

E no caso da TMG Automotive: como é que a digitalização está a ter impacto na indústria automóvel e na empresa que lidera?
Na indústria automóvel, a digitalização já tem algum tempo e também oferece uma maior oportunidade porque os clientes estão muito concentrados – para mais de 60 marcas há dez a 12 construtores. Como a partilha de conhecimento é importante desde a conceção, temos sempre uma ligação duradoura com o cliente, o que permite estabilidade na partilha de informação. Há digitalização e conexão da conceção até à expedição. É uma indústria just in time e é preciso ter uma conexão imediata com o cliente. Não podemos nunca atrasar, porque significaria parar uma linha de montagem.

Fala-se muito hoje de veículos elétricos, autónomos… o que espera desta nova era da mobilidade?
A mobilidade hoje está essencialmente dependente de três fatores: da potência que a indústria transformadora tem e a sua capacidade em transformar ideias em bens que se apliquem em veículos; da preferência dos consumidores; e das tendências da sociedade, nomeadamente no relacionamento veículo/pessoa. Uma certeza podemos ter: a mobilidade vai ser livre de combustíveis fósseis – seja elétrica, híbrida ou por hidrogénio –, vai ser partilhada, conectada e cada vez mais autónoma.
A primeira, porque, até por tendência social, os jovens não querem carros poluentes e as diretivas europeias já avisaram que em 2030 temos de ter um target e cumprir nas emissões de CO2. Partilhada porque os jovens não têm a relação que tínhamos de posse: querem ter acesso, não possuir – que implica ter o custo da revisão, do imposto, a preocupação de estacionar… Depois, com o aparecimento das megacidades – estamos a falar de 41, em 2030 –, vamos ter de competir entre espaço de estacionamento (um carro está parado 80% do tempo) e casas para as pessoas viverem.

Face a essa mudança tão rápida, o governo dá incentivos necessários para que esta transformação da mobilidade seja tão acelerada quanto a das cidades?
Possivelmente não, mas nunca dará. Nem podemos viver constantemente dependentes de subsídios para andar para a frente. A mobilidade partilhada é uma tendência. O governo poderá pensar toda a sua mobilidade dentro das cidades e seria interessante que o fizesse, porque as cidades não podem conter a quantidade de carros que têm neste momento.

Que medidas tomaria se estivesse nesse lugar de decisão?
Uma excelente rede pública, rápida e abrangente – mas tinha de ser nas cidades grandes e não restrito a Lisboa. E não podia criar desigualdades do centro para o resto. O ideal era uma pessoa chegar a uma estação, estacionar num parque gratuito ou tendencialmente gratuito e entrar em Lisboa num transporte público.

O carro vai deixar de ser estatuto social?
Penso que vai. Aliás, o estatuto social que entendíamos como posse já mudou nos jovens. Eles não querem ter carro e casa, querem experiências. E nisso a mobilidade partilhada é interessante, porque um jovem pode querer hoje uma pick up para ir às compras, amanhã um descapotável para passear, uma caravana para as férias… e aluga. Temos de estar muito atentos a estas mudanças de sociedade, porque elas é que vão ditar o consumo e o negócio do futuro.

Passemos às exportações. Como analisa a saúde do setor automóvel em Portugal?
A saúde do setor em Portugal é reflexo do que acontece na Europa. Temos vindo a verificar, diria desde novembro, um arrefecimento na construção dos carros em todas as gamas, nomeadamente no chamado premium, há um desvio de produção para a China – mas 1% de crescimento lá é logo um número considerável de viaturas…

E sente o impacto na TMG?
Também, com alguma mudança não propriamente no decréscimo em relação ao ano passado, mas também numa direção nova do cliente – porque trabalhamos com plataformas globais. Quando o meu cliente me pergunta se eu internacionalizo, é óbvio que sim, mas faço-o de acordo com onde o fabricante final está: pode ser na Alemanha, na África do Sul, ou na China.

Enquanto presidente da COTEC, tem abordado o tema da cibersegurança. Como avalia os riscos quanto à proteção intelectual e existência de ataques cibernéticos e de espionagem industrial em Portugal?
O ataque cibernético é sempre uma ameaça e tanto maior quanto mais digitalizados e conectados estamos. Tem de haver um exercício de proteção e experimentação para assegurar que não somos atacados por hackers – e temos sido em algumas áreas.…A cibersegurança, com todo este movimento de conectividade, é fundamental e a COTEC tem um programa interessante nessa área. A propriedade industrial e intelectual é pouco protegida em Portugal – patenteamos 20 vezes menos do que no norte da Europa. A nossa proteção é fundamental. E nesta era de partilha e colaboração ainda se torna mais importante.

A importância da tecnologia 5G traz riscos mas também é uma oportunidade. Como analisa, até também o que tem sido o debate com a China e a Huawei, a guerra com a União Europeia…
Ainda tenho pouco conhecimento sobre o que nos trará o 5G, mas qualquer avanço tecnológico traz consigo um aumento do risco e da ameaça de ataques. Portanto, o facto de ser liderado pela China pode não nos deixar confortáveis, mas também não sabemos o que daí advém, portanto era um pouco especular sobre o que vai trazer. Terá com certeza coisas muito boas, mas temos de ter atenção à maior ameaça.

A China representa já 9% do negócio da TMG Automotive. Como é trabalhar com Pequim?
A China é um parceiro necessário, é um mercado que cresce, e nós, fornecedores automóveis, temos de acompanhar esse movimento. Eu exporto para a BMW, a Mercedes e a Volvo e estou a estabelecer uma parceria para abastecer o mercado local – as regras assim o ditam.

Vai abastecer marcas chinesas?
Europeias, mas que fabricam e têm linhas de montagem na China.

Pequim tem feito um caminho de grande crescimento nos elétricos…
De facto, a China feito um percurso interessante na mobilidade elétrica – não têm alternativa.

O Presidente esteve ainda há pouco tempo na China. Como viu essa viagem de Estado?
Foi extremamente importante, não só para a China mas para Portugal. Temos uma aliança grande com Pequim, devemos observar o que lá se passa. Trata-se de um motor económico em crescimento acelerado – mesmo que tenha abrandado a força desse crescimento continua a ser uma potência mundial. Nós temos oportunidades – de enviar materiais, de produzir lá – há, como em todos os mercados, barreiras naturais, técnicas, culturais, mas que têm de ser ultrapassadas.

Como está a carteira de clientes da TMG Automotive?
Relativamente melhor do que em 2018 e mantêm-se as expectativas de crescimento – mesmo com esta desaceleração estamos acima das perspetivas do ano anterior. São mercados complicados, que requerem grande esforço, mas sou otimista.

E prevê fechar o ano com que volume de negócios?
Cerca de 130 milhões – foram 123 no ano passado.

Uma empresa como a TMG requer muita investigação e desenvolvimento (I&D). Parte do investimento que fazem é em I&D e esse é feito por doutorados já residentes da empresa?
A TMG Automotive conta hoje com mais de 700 pessoas, das quais 100 têm o ensino superior e seis são doutoradas. Investimos 4% a 6% do nosso turnover em inovação e temos 20 e tal patentes.

Muitos empresários queixam-se de que é difícil encontrar pessoal qualificado que corresponda a estes desafios de digitalização, do 4.0, da nova era da mobilidade. Sente o mesmo?
Nós temos dois tipos de necessidades: pessoal qualificado – precisamos de mais engenheiros, sim, mas não somos só nós, Portugal todo precisa de mais engenheiros – e pessoal de chão de fábrica, que preferimos formar internamente, embora leve muito tempo a formar alguém para trabalhar numa máquina complexa, estamos a falar de seis meses no mínimo. Portanto, interessa-nos reter talento, ficar com elas anos. Para isso, tem de haver um esforço grande das empresas para serem motivadoras, aliciantes para as carreiras profissionais dos mais qualificados e dos não tão qualificados que se qualificam dentro de portas. Hoje, na indústria, não há pessoas não qualificadas.

No caso da sua empresa, o que as retém?
Talvez sermos uma empresa familiar que consegue transportar os seus valores e ética para a companhia. Ou sermos, na área automóvel, das que têm mais mulheres do que homens a liderar: temos 52% de mulheres em gestão – na produção não, porque requer um esforço físico maior e isso ainda condiciona. Também somos uma empresa num meio pequeno, as pessoas conhecem-se, temos já a terceira geração a trabalhar connosco – eu própria sou terceira geração. E temos uma tradição na zona do Vale do Ave de sermos uma empresa estável, o que alicia as pessoas a lá ficarem.

Falou da necessidade de engenheiros, no entanto a engenharia têxtil é um setor onde há cada vez menos candidatos, nomeadamente na UBI – eram 173 em 2017, foram 81 em 2018. Como avalia esta redução e que dificuldades é que traz?
A indústria têxtil sofreu um decréscimo grande, deixou de ser atrativo investir nessa área de formação profissional, desde 2008. Mas o ciclo inverteu-se, Portugal subiu consideravelmente e com todo o esforço das empresas no têxtil. A verdade é que, neste momento, eu preciso de menos engenheiros têxteis do que de engenheiros químicos. Como há grande apetência por engenheiros não só aqui mas também no estrangeiro, é mais fácil escolher uma Engenharia Química ou de Polímeros ou Mecânica, porque isso permite dar o salto para o estrangeiro, enquanto a Têxtil o limita a Portugal. Isso pode ter pesado.

Outra preocupação dos empresários é a produtividade. Continua a ser um problema do tecido empresarial português?
Sinto-me sempre desconfortável a falar de produtividade, porque o nosso problema nessa área tem que ver com o produto. Aquilo que fazemos ainda se situa mais em baixo na cadeia de valor. Nós temos é de subir nessa cadeia, ir para produtos mais sofisticados, de maior valor económico, acrescentado. Não tem nada que ver com chãos de fábrica e não é justo pôr as culpas dessa questão em quem trabalha nas empresas. A gestão é igualmente responsável pelo que se faz dentro de portas.

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