entrevista

“Não é por trabalhar muitas horas que há grandes ganhos de produtividade”

Entrevista a Mário Caldeira, presidente do ISEG. (Paulo Spranger/Global Imagens)
Entrevista a Mário Caldeira, presidente do ISEG. (Paulo Spranger/Global Imagens)

No ISEG será possível voltar às 35 horas sem grande impacto, diz o presidente da escola de economia e gestão “mais antiga do país” em entrevista

Mário Caldeira, presidente do ISEG, a escola de economia e gestão “mais antiga do país” fez 105 anos a 27 de maio passado, deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo.

No ISEG trabalham 247 docentes e 67 funcionários, tem 4600 alunos em licenciaturas, mestrados, pós-graduações e doutoramentos. 600 são estrangeiros. A internacionalização é agora a aposta.

A sua gestão está focada na internacionalização da faculdade. O que está a ser feito para isso?

O ISEG fez 105 anos, é a escola de economia e gestão mais antiga do país, está integrada na maior universidade portuguesa, que é a Universidade de Lisboa, fruto da fusão entre a antiga Universidade de Lisboa, a Clássica, e a Uni-versidade Técnica de Lisboa. É uma universidade com 18 escolas neste momento. Nós pretendemos ser uma escola reconhecida e com prestígio internacional e o projeto de internacionalização do ISEG é talvez o mais relevante, na medida em que eu, pessoalmente, não acredito em boas escolas nacionais.

Como assim?

Acho que as boas escolas de economia e gestão são internacionais.

Quantos alunos tem o ISEG agora? E quantos estrangeiros?

Cerca de 4600 alunos nas licenciaturas, mestrados, pós-graduações e doutoramentos. Desses, 600 são estrangeiros e cerca de 110 são alemães.

A internacionalização fará o ISEG crescer organicamente em Lisboa?

Não crescer em dimensão, mas em prestígio.

Querem mais de 4600 alunos ou mais de 600 estrangeiros?

Podemos ter mais de 600 estrangeiros, o número tende a aumentar, mas não vamos aumentar muito o número total de alunos, não.

Têm espaço, meios, para acomodar este plano de expansão?

Não vamos aumentar muito… Podemos, se calhar, chegar aos cinco mil. Estamos a construir novas instalações, novos auditórios, que estão praticamente concluídos. Em termos de lotação, no que diz respeito a mestrados e a pós-graduações, estamos cheios.

Para um estrangeiro escolher o ISEG, o fator preço é importante?

Pode ser relevante. Comparado com o ensino em Inglaterra ou com o ensino nos EUA, sim. No fator qualidade/preço, penso que Portugal tem uma posição excelente.

Um MBA aqui é quantas vezes mais barato do que nos EUA ou Inglaterra?

Tanto nos EUA como em Inglaterra, o preço varia muito de escola para escola, mas digamos que um curso aqui em Portugal pode ser várias vezes mais barato do que um curso em Inglaterra, onde um MBA pode custar 20 mil, 30 mil, 50 mil libras, depende da escola.

Para que outros mercados estão a olhar? China, Índia?

A China sim, mas também privilegiamos muito a Índia por uma razão simples: por causa do domínio da língua inglesa. O Brasil também.

Sentiram impacto na procura de cursos por causa da crise em países como Brasil, Angola ou outros?

A crise é recente e não tenho números neste momento, mas sentimos um pouco no caso do Brasil. Porém, não é um impacto muito significativo. Aliás, a crise não diminuiu a procura pelo ISEG, nem pouco mais ou menos. As pessoas veem no ensino uma forma de se valorizarem, de se distinguirem e de serem mais competitivas no mercado de trabalho.

A empregabilidade dos formandos do ISEG é alta?

Temos um gabinete de empregabilidade. Tivemos no ano passado cerca de 1500 ofertas de emprego para os nossos alunos. As taxas de empregabilidade oficiais, de acordo com os indicadores do Ministério da Educação, situam-se acima dos 95% nos cursos do ISEG.

Mais empregabilidade não tem que ver só com o ISEG, mas com a força do mercado de trabalho.

Sim, mas os alunos também olham, cada vez mais, para o mercado de trabalho global. Olham para Paris, Londres, Nova Iorque, mais recentemente para Angola e Brasil.

Quantos licenciados é que terminam anualmente?

Cerca de 300 a 400 alunos.

Quantos é que entram?

Nas licenciaturas, 455 alunos por ano.

E no MBA?

O número varia entre 20 e 40.

Gostava de falar sobre política. Como avalia as medidas do BCE para a economia europeia?

Antes de mais, defendo uma maior integração dos países da União Europeia. Penso que um dos grandes problemas da UE é a indefinição que temos sentido. As políticas do BCE têm de ser sempre tomadas tendo em atenção não haver desintegração e tentar beneficiar um pouco os países mais frágeis.

O BCE diz que já fez a sua parte, que agora compete aos países, aos governos, fazerem reformas e reorganizarem-se. Concorda?

As decisões políticas são determinantes. Penso que, por exemplo, no caso da Grécia, o país tem problemas estruturais que não são facilmente ultrapassáveis, Portugal tem alguns problemas estruturais que não são fáceis, apesar de a situação ser bem melhor do que na Grécia.

Dê-me um exemplo de um problema estrutural difícil de resolver?

Não somos um país rico, não temos recursos naturais, não temos uma indústria forte, temos um mercado relativamente pequeno, ou seja, não é fácil, quando se diz que o mercado agora é o mercado europeu. As nossas empresas têm sempre algumas desvantagens a internacionalizarem-se comparativamente com empresas que nascem e que crescem em países onde os mercados nacionais são mais fortes.

Mas há indústrias que conseguiram fazer isso, o calçado, o têxtil…

Pontualmente. Muitas vezes fazem–no na medida que outros vão à falência e eles conseguem crescer um pouco. Temos médias empresas, a percentagem de grandes empresas em Portugal é pequena, têm-se de-senvolvido muito à custa de algum protecionismo no passado e, naturalmente, sentem dificuldades em competir num mercado mais liberal. Muitas das pequenas empresas, nomeadamente no calçado, que conseguiram triunfar, se for ver alguns casos, são pessoas que estiveram alguns anos fora do país, que perceberam e conseguiram criar alguma inovação tecnológica, alguma diferenciação que permitiu entrar nos mercados estrangeiros e exportar mais facilmente.

Que qualificações fazem falta na economia?

Há uma enorme falta de informáticos em toda a Europa, uma enorme falta. Temos também de começar a pensar em desenvolver conhecimento que possa ser exportado e que possa ser utilizado para inovar as empresas e os processos organizacionais. Os portugueses não são mais nem menos inteligentes do que os outros, muitos profissionais de gestão triunfam quando vão trabalhar para o estrangeiro e são reconhecidos.

Entre reformas estruturais e políticas do lado da oferta e medidas para incentivar a procura, o que escolheria? Que opinião tem da política do atual Governo?

A minha dificuldade é exatamente saber qual é o ponto de equilíbrio, porque se nós estimularmos a procura em excesso isso pode fazer crescer o défice e a dívida, se tivermos um regime de austeridade excessivo, isso também não é nada benéfico para a economia. O ponto de equilíbrio é difícil de encontrar. Eu não sou a favor de uma austeridade excessiva.

No setor público debate-se muito a questão do horário de trabalho. Como é a vossa situação?

Somos um instituto público, aplicam-se as regras da função pública.

Vão reduzir de 40 para 35 horas?

Sou a favor de melhorar as condições das pessoas. Acho que, se conseguirmos ajustar os processos organizacionais, será possível ter a redução dos horários de trabalho sem grande impacto. A vida das pessoas em Portugal é difícil, as pessoas têm dificuldades financeiras, têm dificuldade de tempo. Ter pessoas desgastadas, a dormir pouco, que estão no trabalho, mas que estão a pensar em resolver os seus problemas financeiros ou diários, isso não estimula a produtividade. Ou seja, se eu aumentar o horário semanal para 50 ou 60 horas, tenho dúvidas se vou ter uma produtividade real porque as pessoas estão presentes, mas não estão empenhadas, a produtividade é decrescente. Penso que há espaço para melhoria nesse âmbito.

Trabalhar muitas horas pode ser sinal de que as organizações estão, passe a expressão, mal organizadas?

Se as pessoas não tiverem tempo disponível, se estiverem em esforço, ou se saírem tarde porque têm de ir buscar as crianças à escola, depois não têm tempo, têm de fazer o jantar, deitam-se tarde e levantam-se cedo, a produtividade não é a mesma. Não é por as pessoas trabalharem muitas horas ; que vamos ter grandes ganhos de produtividade.

Com as condições que a economia e as empresas têm para crescer e criar emprego , é possível cumprir o Pacto de Estabilidade? O Pacto de Estabilidade é estúpido?

Acho que estúpido não é, eu percebo naturalmente os motivos que levaram ao Pacto de Estabilidade. Agora pode não ser fácil cumprir e creio que não será fácil cumprir para Portugal, e em alguns outros países. Mais uma vez o problema é o ponto de equilíbrio, ou seja, encontrar a forma de não se ter uma austeridade excessiva e que se possa dar espaço para a economia crescer, e aí tenho sempre alguma dificuldade em dizer com rigor que números é que deveríamos ter no Pacto.

Mas reestruturar a dívida é muito perigoso? Não é um caminho que se deve considerar?

Nem sei se há grandes alternativas.

Não estou a falar de perdão de dívida, mas de formas de a “alisar”.

Penso que é uma medida que deverá ser tomada, depois depende do que se conseguir na economia.

Sendo que Portugal já teve um alisamento no tempo de Vítor Gaspar que foi negociado com os credores oficiais.

E acho que faz sentido ter.

Estudou e viveu em Inglaterra. Na sua opinião, qual será o resultado do referendo?

Penso que a maioria da população acha que o Reino Unido deve continuar na União Europeia, ainda que a Inglaterra sempre tenha visto a Europa com desconfiança.

Mas sempre beneficiou bastante da União Europeia.

Exatamente. Acho que para a Inglaterra é um erro se porventura sair da União Europeia, penso que não irá acontecer e se acontecesse entendo que seria um erro muito significativo.

De volta a Portugal. O ISEG está hoje em peso no Ministério das Finanças. Conhece o ministro Centeno e os secretários de Estado João Leão e Ricardo Mourinho Félix?

Conheço relativamente bem o Mário Centeno, foi ex-aluno do ISEG, docente do ISEG. Tenho uma excelente opinião tanto a título pessoal como a título profissional. Tem perfil técnico para as funções e acho que tem sentido de responsabilidade, mas é evidente que trabalha num contexto que não é fácil.

Teve de dar a cara por um défice de 4,4% em 2015 depois da desgraça do Banif. O maior problema das contas públicas é a banca?

Acho que tem de se olhar com algum cuidado para a banca e alguns problemas da banca eventualmente deveriam ter sido tratados de forma um pouco diferente, mas gostaria de não me alongar muito sobre esse assunto.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
lisboa casas turismo salarios portugal

Turismo em crise já pensa no day after

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. TIAGO PETINGA/LUSA

Governo estima que mais de um terço dos empregados fique em lay-off

Mário Centeno, Ministro das Finanças.
Fotografia: Francois Lenoir/Reuters

Folga rara. Custo médio do petróleo está 10% abaixo do previsto no Orçamento

“Não é por trabalhar muitas horas que há grandes ganhos de produtividade”