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“Não podemos deixar cair milhares no desemprego de repente”

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Consultor do governo para o plano de recuperação deixa alertas quanto ao emprego e acredita que a crise ainda vai piorar antes de melhorar.

No Plano de Recuperação de Portugal, defende os 4 D: descarbonização, digitalização, descentralização e democratização da energia. São áreas desafiantes. O que é que pode correr mal neste caminho e como podemos garantir que alcançamos os 4 D?
Esse é um tópico central do nosso tempo, a transição energética. E vai fazer-se muito pela eletrificação da economia. A única razão porque petróleo e gás continuam a determinar a matriz energética mundial é podermos armazená-los e consumi-los quando necessário. Não podemos fazer o mesmo em relação à eletricidade. O armazenamento da eletricidade de grande escala, a escala da rede, vai ser a descoberta deste século e está a caminho. Sentimos que essa grande inovação tecnológica está a caminho e quando isso acontecer, vai ter um impacto fundamental em toda a matriz energética. Vamos assistir à eletrificação crescente de setores da economia. E o que é que vai acontecer? Vamos ter frotas elétricas nas cidades, é indisputável. Atenção à emergência do hidrogénio. O hidrogénio é um gás com uma densidade energética muito assinalável e com as fuel cells pode competir com as frotas elétricas nas cidades. Mas o hidrogénio tem potencial também para os transportes de longa duração. As baterias elétricas em experiências nos Estados Unidos com os camiões de transporte de longa duração e uma bateria de lítio para esses camiões que percorrem 1000/1600 quilómetros por dia custa 350 mil dólares, é incomportável. Mas o hidrogénio pode competir nessa fileira. Há já experiências para competirem na navegação, portanto, no sistema todo de navios. Inclusivé, já há experiências na Austrália, só agora é que se estão a desenvolver para o meio aéreo e eu penso que o hidrogénio com a eletricidade vai desempenhar aqui um papel crucial nesta transição energética.

Video: Defende apoio dos governos às renováveis, com hidrogénio, e antecipa redução do défice tarifário

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O que é que pode correr mal? A crise pode atrasar todo este processo?
A crise pode atrasar o processo. Nós nunca sabemos como vai ser o futuro, mas para mim há uma grande consciência não só a nível dos cidadãos mas também dos decisores políticos de que temos de fazer essa transição pela simples razão de que o planeta está a testar os seus limites. Se analisarmos o que se passa no planeta vemos, por exemplo, que no Polo Norte a temperatura aumentou 1,6 graus centígrados nos últimos 100 anos, nas últimas três décadas o gelo que perdemos no Polo Norte são 2 milhões de quilómetros quadrados. O gelo é um estabilizador climático do planeta porque reflete parte da energia solar. Se deixamos que isto aconteça e não fizermos a transição energética e a descarbonização, vamos assistir cada vez mais ao aquecimento dos oceanos e a situação do planeta pode tornar-se incontrolável. Há uma grande consciência crítica no mundo sobre isto e portanto tudo o que possamos fazer para acelerar a transição é crucial. Portugal, a esse nível está muito bem encaminhado. Lembro que somos dos primeiros países da Europa que vão acabar com as centrais a carvão. O carvão é o mais poluente dos combustíveis fósseis e nós para respeitarmos os acordos de Paris temos de, até 2040, diminuir o consumo mundial de carvão em cerca de 40% – Portugal está bem encaminhado aí. Temos de diminuir o consumo de petróleo em cerca de 15% e aumentar 40% o consumo de energia renováveis.

E também estamos bem encaminhados no hidrogénio, com aquele projeto em Sines. Mas há muitas críticas sobre se será um daqueles projetos megalómanos que daqui a uns anos depois não dá em nada, porque há questões de financiamento e até de falta de maturidade da própria solução. Estamos aí no bom caminho também, nesta aposta tão grande que está a ser feita?
É uma excelente pergunta e o país deve aprender com os exemplos anteriores, os erros que fez noutros desenvolvimentos. Não há dúvida de que o país fez muito bem em apostar no cluster das renováveis. São indispensáveis no futuro, não só a eólica como a solar. Eu sou das pessoas que acreditam que a energia solar vai ter um papel cada vez maior pela simples razão de que em cada dia que passa nós recebemos do sol 8 mil vezes mais energia do que toda aquela que o planeta consome e com a criatividade e o engenho humano estamos a ver que a energia solar nesta altura tem os seus custos a declinar cerca de 75% nos últimos seis anos. Vai ser uma grande aposta. Agora passando ao hidrogénio e portanto no desenvolvimento desse cluster, evidentemente cometeram-se uns alguns erros, conhecemos o problema dos défices tarifários, daquilo que teve em termos de impacto para os consumidores e do aumento dos custos de contexto, sobretudo dos custos da energia. Espero que isso não aconteça desta vez e que o projeto seja desenhado de forma a desenvolver-se e a ter em atenção todos estes fatores. E queria dizer que as tecnologias de hidrogénio não estão maduras comercialmente. Há quatro grandes tecnologias, uma é da oxidação parcial, outra é da reformulação a partir do gás natural como o metano, outra é a eletrólise da água e outra é gaseificação. Atenção, a gaseificação e pirólise da biomassa florestal que eu penso que é um aspeto que nós também podemos aproveitar no país. E o que é que se passa? Estas tecnologias ainda não estão maduras do ponto de vista comercial, elas têm ainda de se desenvolver, os custos têm de se reduzir de forma apreciável, mas eu penso que como há um investimento de cerca de 300 mil milhões de euros da União Europeia para este tipo de projeto, e é uma das grandes tecnologias de futuro e tem todas as condições para maturar e fazer o seu caminho. Eu penso que o país tem de apostar, talvez em termos modulares, começar com um módulo para demonstração e teste e a partir daí desenvolver um projeto à medida que as tecnologias se forem afirmando do ponto de vista comercial e os custos sejam reduzidos. E queria só dizer que o hidrogénio já é a matéria-prima que é utilizada por toda a indústria petroquímica. Se formos a Sines, é uma das matérias-primas vitais. A matéria-prima vital para fabricação do amoníaco, de fertilizantes, do metanol, de muitas outras fileiras. É um produto industrial que já tem aplicações. Se ele conseguir ser produzido no país de forma consistente e competitiva pode expandir-se adequadamente. Porque depois tem essa versatilidade e pode competir na fileira da mobilidade, como já vimos, pode servir também como sistema de armazenamento, é uma das grandes questões que existem para o futuro, para o armazenamento de eletricidade. E o hidrogénio é claramente um dos componentes que podem afirmar-se nessa fileira. E se Portugal conseguir desenvolver um projeto consistente que não penalize os consumidores nem cometa os erros anteriores, que faça desenvolver uma nova fileira e produza um recurso nacional, penso que esse é o grande objetivo. Acredito que o governo tem isso em mente e está ciente de que não pode cometer os erros que foram cometidos anteriormente.

Na prática, quando estivermos em 2030, que até onde vai este plano, a fatura energética das empresas, dos empresários que nos estão a ouvir, poderá reduzir-se substancialmente por uso de hidrogénio? Tem essas expectativas?
Eu penso que a fatura energética vai reduzir-se porque muitos dos apoios das feed-in tariffs vão entretanto terminar. Foram utilizadas para o lançamento da fileira das renováveis, particularmente da eólica. Também devo referir, por uma questão de honestidade intelectual, quando analisamos a história da energia no mundo não há nenhuma forma de energia que se tenha imposto sem o apoio inicial dos governos. O exemplo paradigmático é o petróleo, em 1911, quando Winston Churchill era o primeiro lorde do almirantado britânico e decidiu substituir a ulha – curiosamente produzida no País de Gales – pelo petróleo para alimentar toda a armada britânica. Foi a partir daí que o petróleo deu um salto e se afirmou na matriz energética mundial.

Defende que se mantenham os apoios às renováveis?
Nos apoios que há não vale a pena recuar, eles vão terminar. Muitos estão em ciclo de finalização e quando finalizarem o défice tarifário, que hoje provavelmente anda à volta dos 3 mil milhões de euros, muito elevado, vai reduzir-se. Isso penaliza os custos de contexto, penaliza as empresas e nós temos sobretudo de ser um país competitivo. Não podemos apostar em fileiras ou áreas que depois penalizam o próprio desenvolvimento da indústria. E todas as empresas têm essa queixa dos custos de contexto e sobretudo dos custos da energia. Com estas apostas, se os planos forem bem desenhados e as políticas públicas consistentes, podemos atingir todos esses objetivos. Há todas as condições para isso se fazer.

Outra questão é a aposta nas qualificações digitais e a crise agora até tornou esta questão mais premente por causa da telescola, da necessidade de acesso a ferramentas digitais por parte de muitas famílias que por vezes nem têm capacidade para isso. É possível acelerar esta qualificação digital da população sem deixar ninguém para trás? Como é que isto se faz?
Eu sou das pessoas que defendem que isso tem de se fazer como uma forma de promover a igualdade de oportunidades e a democratização do acesso das pessoas, e portanto, no plano, defendo claramente que deve estender-se a fibra ótica a todo o país. Nós vemos as regiões do interior com a dificuldade que as escolas tiveram, e mesmo as empresas do interior, porque não têm acesso direto à internet e não podem competir nesses meios. Isso é absolutamente vital. Se for feito, vamos dotar as escolas de meios e capacidades tecnológicas para poderem competir, trabalhar no mesmo patamar que as escolas do litoral. Não podemos ter um país a várias velocidades. Defendo também que deve apoiar-se a transição energética nas empresas e condicionar esse apoio também à qualificação da gestão. Nós temos muitas pequenas e médias empresas (PME), muitas delas sem escala, e temos de ter processos para as empresas, para promover a criação de escalas para poderem competir e ir ajudando à qualificação da gestão. Portanto, há aqueles cursos, com os politécnicos e as universidades, com as questões fundamentais de gestão. Mas depois, para responder ao seu ponto, que é uma questão muito interessante. Nós somos o país da Europa que tem o pior desempenho em termos de qualificação da população. Somos o que tem a percentagem mais baixa com ensino secundário. E isto, como sabem, é uma espada de Dâmocles que impende sobre o desenvolvimento da economia, sobre o aumento da produtividade. E portanto o que eu defendo é trabalharmos em todas as áreas e a qualificação da população, sobretudo da população adulta, quer do ponto de vista escolar quer do profissional, com o acesso de toda a população pelo menos ao ensino secundário. Se chegarmos a 2030 e dissermos que aumentámos a percentagem da população que tem o ensino secundário e a qualificámos isso é uma mais-valia impressionante em termos de futuro. Depois é ligar isso a todos os nichos tecnológicos e às qualificações digitais.
Há desafios enormes para as empresas e por isso é que defendo um programa específico de apoio da qualificação digital das empresas, porque isso permite simplificar processos, redesenhar os modelos de negócio, redesenhar os processos de trabalho com impacto brutal na produtividade mas simultaneamente na administração pública.

Video: Metas: Em 2030 temos de ter mais população adulta com ensino secundário

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A nossa Administração Pública está obsoleta?
Nós temos um problema com a nossa administração pública. Há áreas que estão muito desenvolvidas, têm qualidade, e outras que deixam muito a desejar. E quando olha para a quantidade de recursos financeiros que vem da Europa, como é que vamos executar esses recursos? Tem de se fazer a digitalização da administração pública, mas não se pode fazer isso sem rejuvenescer os quadros, admitir engenheiros informáticos, pessoas que saibam lidar com software e que tenham massa crítica para operar toda essa transição. Nós temos um excelente sistema em termos de hardware e software na Autoridade Tributária, mas todos os outros serviços da Administração Pública são obsoletos.

Esta resposta à crise demonstrou falhas sistemáticas porque falta essa…
Mas é por isso que eu defendo que tem de haver investimento forte quer no hardware quer no software em todos os sistemas da administração pública, para terem interoperabilidade e comunicarem, isso é absolutamente fulcral, mas para isso acontecer tem haver rejuvenescimento e isso é em si um grande desígnio.

E não podendo começar tudo ao mesmo tempo, por onde é que começaria? Qual é que a seu ver é a área mais crítica. Será a segurança social? Será a justiça que também aponta aqui no seu relatório, por onde começaria?
Eu tenho muitas dúvidas relativamente a isso. Quando vemos a magnitude dos desafios que temos à frente e a necessidade de responder e de executar os programas necessários para o país se transformar e olhamos para o nível de execução que temos dos fundos europeus, nos melhores anos são 2500/3000 milhões de euros, se tivemos as ajudas agora podem ser três, quatro vezes este valor. Como é que vamos operar? Para mim, é prioridade máxima mobilizar as melhores pessoas da administração pública dar-lhes autoridade num corpo que tem de ser definido ou com as estruturas existentes para acelerar decisões e para se implementar o plano. É absolutamente indispensável, se não vamos criar expectativas elevadas e depois não vamos responder. É essa para mim a prioridade, preparar a administração pública para este novo ciclo, usando o melhor que ela tem.

Quase que criar uma dream team, criar uma equipa de sonho da administração pública?
Não lhe chamaria uma dream team, mas qualquer coisa que acelere os processos de decisão. O papel das empresas na execução deste plano é fulcral. O volume de investimento privado vai ser absolutamente essencial para materializar esse plano e as empresas hoje quando interagem com a administração pública têm de passar por cinco, seis, sete organismos. É por isso que eu defendo que se crie uma espécie de loja do cidadão empresarial com interlocutor único entre a administração pública e as empresas para simplificar os processos, para direcionar exatamente para onde apostar os recursos e como é que vão desenvolver os projetos. Não podemos continuar com uma administração pública baseada em pareceres. Às vezes para executar um projeto há cinco organismos públicos envolvidos. Cada um faz um parecer. Os pareceres podem ser dissidentes e tudo isto se anula e no fim não há operacionalidade nenhuma. O que eu defendo é que quando há vários organismos envolvidos deve haver um conselho desses organismos para emitir a decisão.

Video: Fraca administração pública pode pôr em causa a execução do plano de recuperação

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Se nada mudar na administração pública e nem todas as sugestões forem acolhidas, receia que o plano possa não ser executado, que isso possa comprometer realmente aquilo que é a sugestão desta visão estratégica?
Há riscos de o plano não ser executado, ou pelo menos algumas partes essenciais. Há sempre esse risco e é por isso que a magnitude do desafio é tão grande, a crise que estamos a viver ainda vai piorar a partir de setembro/outubro como também alerto no relatório, e podemos ter uma cascata de falências de empresas que são absolutamente cruciais para o futuro, se elas não forem ajudadas. Não é despejar dinheiro em cima dos problemas, isso não resolve. Mas devemos analisar as empresas que têm rentabilidade, que foram penalizadas pela pandemia e têm carteiras de encomendas que podem medrar no futuro e essas têm de ser ajudadas. E quando reemergirem, evidentemente terão um impacto muito grande sobre a economia. Se isso não for feito e não for bem desenhado, e de forma urgente, podemos ter problemas ainda mais sérias no futuro.

Havendo esse risco, o que é que seria uma vitória para o António? É cumprir-se este plano em 10%, em 20%? Quando chegarmos a 2030 o que é que seria uma vitória?
É uma excelente questão. Se chegarmos a 2030 e pudermos dizer ‘nestes dez anos o país conseguiu fazer algumas infraestruturas físicas vitais como a rede ferroviária elétrica nacional, conseguiu apostar nos Portos de Sines e de Leixões e portanto atrair maior volume do tráfego mundial, conseguiu superar o problema das qualificações e portanto aumentou significativamente a percentagem da população que tem um ensino secundário, conseguimos fazer a transição digital em muitas empresas e significativamente também ao nível da administração pública e além disso, apostámos no serviço nacional de saúde, conseguimos completar toda a rede de hospitais programada – apostar não só nos equipamentos mas também na qualificação dos recursos humanos – e em cima disso conseguimos tornar o país uma espécie de fábrica da Europa para certos medicamentos e dispositivos médicos de alto valor acrescentado, tudo isso seriam vitórias muito significativas. Completadas por um início da reindustrialização do país e mudança da nossa estrutura produtiva…

Vídeo: O que seria uma derrota?

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Deixe-me perguntar-lhe ao contrário. O que é que seria uma derrota? Seria não sair da gaveta mais um plano, depois de muitos feitos em Portugal?
Sim, os planos, nós temos uma grande tradição no nosso país de os planos não saírem da gaveta, mas como os os ingleses dizem: failing to plan is planning to fail. Eu penso que isto condensa tudo, e foi por isso que eu aceitei esse desafio do senhor primeiro-ministro e foi com muito gosto de empenho que o fiz e que estou pronto para o acompanhar e dar todo o contributo, mas isto é um plano que não é de ninguém. Tem que ser um plano do país, as pessoas aqui importam pouco. Infelizmente nós vivemos num país de muitos eus e pouco nós e a grande transição aqui é também do nosso paradigma cultural e as empresas colaborarem mais umas com as outras, as universidades colaborarem mais umas com as outras, e com as empresas. E ao nível dos decisores políticos, conseguirem convergir nas grandes linhas de um plano que tem de ser implementado para transformar o país, porque é a vida de todos nós, e sobretudo das novas gerações que está em causa. Nós temos competências funcionais. Se não o fizermos nós vamos continuar a ter um país com o modelo de baixos salários sem inovação tecnológica, que de vez em quando faz alguns fogachos nesta ou naquela área mas depois não é consistente na sua transformação. Eu penso que essa transformação é possível.

Disse há pouco que receava uma cascata de desaparecimento de empresas, de falências ou de insolvência de empresas a seguir ao verão. Uma das novidades introduzidas nesta versão tem que ver com incentivos fiscais e parafiscais à absorção do desemprego decorrente da pandemia. Como é que isso poderia ser feito? Qual era a sua ideia quando introduziu este parágrafo no plano?
Pensamos sempre que toda a modernização tecnológica vai ser um aspeto positivo, mas ela vai criar mais automação e ter impacto sobre os postos de trabalho, vai substituir empregos. A minha ideia era haver um sistema de incentivos parafiscais ou fiscais que mantenham o emprego dessas pessoas enquanto são requalificadas para poderem ser reconvertidas para tarefas que têm grande valor social, por exemplo cuidar de idosos, limpar a floresta, o que for. O país não pode deixar cair de repente milhares e milhares de pessoas no desemprego. E nós somos um país que nesta altura tem grandes dificuldades em adaptar-se e convergir no sentido de proteger os mais vulneráveis. Uma das coisas que esta crise revelou de forma brutal foi que muitas das pessoas que têm direito a apoios sociais estão fora da economia formal e nem sequer conseguem aceder aos apoios a que têm direito. É um drama.

Vídeo: Incentivos ao emprego antes que a automação faça cair milhares no desemprego

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Também propõe aqui repensar o sistema…
Temos um bom sistema de proteção social mas tem de ser reconfigurado, repensado e sobretudo integrar todos esses apoios. É por isso que o pilar social é fundamental, não podemos olhar só para a economia, temos de olhar para as pessoas, no centro do programa têm de estar as pessoas e as empresas. Há que proteger o emprego, e qualificar o emprego, tentar minimizar no futuro todas as formas precárias de exercício do emprego porque isso qualifica as pessoas, capacita o país mas simultaneamente não esquecermos também o papel das empresas que criam riqueza, que desenvolvem a economia, e depois fornecem toda a rede que suporta o desenvolvimento económico do país.

E estando preocupado com as empresas e o que vem a seguir, acha que o lay-off simplificado deveria manter-se por mais tempo como forma de apoio ao emprego?
É uma boa questão mas não gostava de me pronunciar sobre as medidas que o governo está a tomar. O governo está a fazer muito bem em termos das medidas de emergência; só alerto é que essas medidas de emergência podem ter um prazo e se esse prazo terminar antes de os apoios europeus chegarem podemos ter um espaço que medeia entre a cessação desses apoios e a vinda dos fundos europeus – que provavelmente só vão chegar em 2021. Podemos ter uma situação extremamente difícil e portanto é muito importante redesenhar esses apoios e olhar para isso para impedir que a economia entre em estado de coma. Quando se fala em economia zombie as pessoas às vezes questionam essa ideia, mas quando se diz: a economia está a funcionar a 80% ou a 70% a gente esquece que os 20%, os 30% que não estão a funcionar têm um efeito brutal sobre tudo o resto. Portanto não é só 30% que não está a funcionar. Há cadeias logísticas de abastecimento da produção que inquinam toda a máquina. E depois é muito difícil recuperar. E a recuperação provavelmente vai ser muito mais lenta por causa de tudo isso.

Falando ainda das empresas. Na apresentação apontou falhas na qualificação dos gestores portugueses. Há uns anos quando a troika ainda estava em Portugal também divulgou um estudo que apontava essa falha e que na altura deu muita polémica em Portugal. No seu entender temos maus gestores?
Eu não digo que temos maus gestores, eu penso que temos excelentes gestores mas isto é como tudo. Temos excelentes gestores e temos gestores que não são excelentes. Há um universo de PME – a maioria das nossas empresas –, muitas de índole familiar e quando olhamos para as qualificações podíamos subir muito mais. Esse espeto é extremamente importante porque se um gestor de uma empresa familiar não tiver qualificações adequadas tende a contratar trabalhadores que provavelmente também não terão as qualificações e criamos um ciclo vicioso. Isto não é criticar ninguém, é que hoje em dia podemos viver realmente na economia do conhecimento e ela é transversal à própria gestão. Dar a formação mínima em termos dos indicadores, dos processos de gestão, da análise dos projetos, da análise dos mercados pode sustentar o desenvolvimento da economia.

E esse também é um papel do Estado, assegurar essa formação dos gestores em Portugal?
Eu não diria que é o papel do Estado, mas se o Estado intervém numa empresa pode ter uma condicionante do tipo: vamos dar este apoio com esta condicionante, há estes cursos de gestão que nós gostaríamos que pelo menos a gestão da empresa fizesse. Penso que nós podemos fazer isso como em muitos países do mundo se faz para tentar elevar o patamar. É absolutamente crucial para o futuro.

Já que estamos a falar do papel do Estado na empresa, tocar aqui também num outro tema que tem que ver com isso, que é o instrumento para a capitalização das empresas que defende com o fundo de base pública; falou aqui também na sugestão de um fundo soberano, de um banco de fomento – que existe mas que enfim, não tem sido muito ativo e com a possibilidade de o Estado entrar no capital das empresas para ajudar a capitalizá-las. A minha pergunta é: algumas empresas reagem menos bem a isto. Será Estado a mais?
Eu acho que não é Estado a mais quando olhamos para a situação da economia portuguesa e vemos empresas críticas. E atenção que eu também tive interações com alguns dos maiores bancos portugueses e uma das questões que colocava em algumas das nossas empresas críticas na situação em questão se os bancos ajudavam ou não e a resposta invariavelmente era ‘não’. Não, com uma situação deste tipo, não ajudo. E você vê empresas que são absolutamente fulcrais para o futuro do país como por exemplo o caso de uma Efacec – felizmente está em linha com a sua resolução – que eu acho que é uma empresa indispensável para o nosso futuro.

Vídeo: Estado fez bem em entrar na Efacec, mas com estratégia de saída

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Fez sentido a injeção?
Eu acho que faz sentido. Eu acho que nessas situações é por isso que eu defendo que o Estado não se deve substituir às empresas. O Estado não tem que fazer aquilo que as empresas fazem. O Estado não tem que escolher campeões globais, mas tendo em conta a grande situação de emergência que a economia vive, eu vejo que o instrumento público como um banco de fomento, e falo no fundo soberano por causa do exemplo da Irlanda que eu penso que funciona muito bem, mas tem que haver um instrumento soberano do estado como um banco de fomento para intervir. Eu sou favorável à entrada no capital das empresas, sujeito a certos critérios de rentabilidade e um plano de negócios e depois haver uma estratégia de saída quando as empresas se desenvolvem. Porque senão, nós vamos deixar cair empresas emblemáticos que são cruciais para o futuro, vamos gerar mais e mais desemprego e quando a economia recuperar, que recuperará muito lentamente e muito dificilmente, muitos destes sectores são completamente dizimados. A minha pergunta não é mais inteligente agora, pelo menos nestes casos fulcrais proteger, digamos, o funcionamento destes segmentos da atividade, dar-lhes algum alento para estarem à tona da água. E depois quando a economia recuperar, enfim a situação será muito melhor e isso é uma questão que eu acho que temos que debater e que é importante para o país.

Sendo a intervenção na Efacec o modelo que concorda, que é o estado entrar e depois sair, acha que devia ter sido seguido esse modelo também na TAP? O Estado anunciar um momento de saída?
Não queria comentar o caso específico da TAP. Eu só gostava… Nós temos que ter uma grande companhia como a TAP, penso que isso é indispensável, temos que ter um grande aeroporto até para aumentar a nossa conectividade global. Eu acho que isso é quase indisputável nos dias de hoje.

Era inevitável o estado intervir na TAP e fazer esta injeção, para si?
Eu acho que sim.

Não deixar cair, é isso?
Exatamente.

Falou da banca, em relação às pequenas e médias empresas e não só, em que os empresários não têm acesso aos fundos da banca, o que estava a querer dizer é que a banca também não cumpriu o seu papel neste momento de crise de fazer chegar o dinheiro as empresas?
Estou também preocupado com a nossa banca. Tudo aquilo que estudei analisei e das discussões todas com os gestores bancários, penso que não pode haver uma economia saudável com uma banca doente. A nossa banca está ainda em processo de restruturação, melhorou significativamente com todos os problemas que conhecemos, mas quando analisamos os indicadores de capitalização, a própria rentabilidade, ainda são relativamente baixos. Somos dos únicos países europeus em que a banca é toda controlada por outros países.

Nomeadamente Espanha.
Nomeadamente Espanha. O que condiciona fortemente muitas destas políticas e depois não há condições de concorrência leal dentro da União Europeia. A nossa banca é muito penalizada por isso. E é por isso que eu defendo a questão do level playing field dentro da união monetária e financeira na Europa. A banca portuguesa deve ter as mesmas condições, pelo menos para competir que as outras e não pode ser constantemente penalizada e discriminada porque tudo isso depois vai ter impactos em todo o funcionamento do país. É altura também de colocar esses problemas em cima da mesa.

E da análise que fez à banca, que acabou de dizer que foi detalhada, considera que há esqueletos ainda para sair do armário? Vamos ter novos casos como o BES…
Eu não queria comentar. Queria reservar para mim tudo aquilo que eu analisei. Eu desejo o melhor para o país e o país já está tão traumatizado com todos estes processos que aconteceram. Se nós analisarmos o percurso do país é impressionante a destruição de valor de capital longo do tempo, a destruição de empresas que eram absolutamente emblemáticas para nós e portanto isso é um história tão triste. Só espero é que as pessoas aprendam com os erros todos que foram cometidos e que superem estas grandes dificuldades.

Falou há pouco da necessidade de termos os fundos europeus que foram agora aprovados no Conselho Europeu e do risco que corremos entre o período que medeia esta aprovação e a chegada dos fundos. As empresas e a economia portuguesa conseguem aguentar este lapso de tempo que se espera que chegue no início do próximo ano? Comecem a chegar, pelo menos.
Eu gostava de acreditar que sim, espero que estejamos todos atentos a isso e sobretudo ao nível também do poder político que as decisões sejam tomadas como têm sido. Eu penso que as autoridades ao longo desta crise têm respondido à altura. Estão muito cientes de todos esses aspectos, estão genuinamente interessadas em desenvolver e desenhar modelos, programas que permitam pelo menos manter a economia a funcionar até os Fundos europeus chegarem e eu acredito que nós podemos conseguir isso, mas toda a atenção é pouca porque nós vivemos realmente um período extremamente difícil e nós vamos ainda piorar bastante antes de começarmos a melhorar. E este piorar bastante está muito dependente de como é que vamos responder, de como é que os mecanismos vão funcionar e em que altura é que os fundos europeus vão começar a chegar. E é por isso que tudo isso é tão urgente hoje, nesta situação de emergência. Nós temos que concatenar aqui todas as vontades e todos os processos de decisão para atalhar a isso, senão vai ser difícil.

A recuperação começará já em 2021? Há aquele famoso V da recuperação económica em que temos uma queda muito abrupta e depois iniciamos uma subida também ela rápida. Acredita que será assim tão…
Eu não acredito que será assim, eu acho que será um U e a parte horizontal do U se calhar vai inclinar até começar a subir. Vai ser um U meio esquisito mas eu acho que a recuperação vai ser lenta. Provavelmente nunca tínhamos experimentado isso antes. Temos simultaneamente o colapso da oferta e da procura. E veja que nós tivemos no nosso país a evaporação de setores completos de economia como o turismo, com o transporte aéreo ou como outras áreas como a produção automóvel – que me preocupa muito. E é por isso que eu defendo que deve haver um plano especial também para ajudar a indústria automóvel nesta fase, que é o programa do abate da frota mais antiga. Isso deve ser redesenhado até para incentivar a substituição dessa frota mais poluente. Autocarros elétricos e híbridos e isso era absolutamente vital estar em cima da mesa. Temos que olhar para todos os setores da economia. Nós temos um excelente ministro da Economia que está muito atento a tudo isso.

O senhor Ministro do Ambiente também assinou por baixo na medida do abate de veículos na medida em que ele tem sido questionado sobre esse tema e não tem querido relançar essa medida, tem-na posto de parte. É uma medida que já discutiu com ele?
Não gostaria de revelar as discussões que tenho. Expresso a minha ideia, tenho uma excelente relação com o ministro do Ambiente que é indubitavelmente um dos melhores ministros deste governo, tem feito uma ação extremamente interessante. Ele está atento a todas essas questões e o ministro da economia também é excelente. O país está bem entregue em todas essas áreas, a questão agora é que muitas vezes quando se decide tem que se fazer escolhas. E isto é o mais difícil. Também temos de compreender que governar é fazer escolhas, é definir prioridades, é ver os setores onde se aposta, não podemos fazer tudo ao mesmo tempo, Aí mantenho a minha reserva mas sei que eles estão absolutamente cientes de todas essas questões e buscam as melhores soluções Para o benefício do país.

Nessas opções de escolha é preciso também fazer escolhas consoante o dinheiro que está disponível e é inevitável voltar a questioná-lo sobre este tema. Onde é que se vai buscar financiamento para este plano que é tão extenso? Nesta semana assistimos à aprovação dos fundos do Conselho Europeu, mas onde é que se vai buscar financiamento para todo este plano e que contas são essas que nos possam dar uma ideia de quanto é que custa este plano até 2030?
Eu sou um homem de números. Eu não sei pensar sem números e evidentemente quando elaborei o plano, tenho os meus números que partilhei com quem devia partilhar, mas essa fase é a fase subsequente que é aquela em que as prioridades vão ser definidas e é da competência exclusiva do governo os fundos alocados e depois os cronogramas das diferentes atividades que vão ser desenvolvidos e monitorizados e eu penso que aí há uma área que já não me compete, é a área exatamente em que o governo vai definir as suas escolhas e com toda a competência como órgão de soberania que é. É a ele que vai caber gerir todo esse processo. Vamos ver o que é que vai acontecer mas eu penso que as pessoas estão alinhadas em termos de alguns dos objetivos estratégicos e cientes do que é necessário fazer para que o país seja diferente daqui a 10 anos.

Não querendo o António revelar os números que tem, as contas que fez, receia que o plano possa ser chamado de megalómano por ser tão extenso?
Eu fico sempre contente se chamam megalómano mas não é megalómano nem é ambicioso. Eu acho que isso é bom nós termos planos megalómanos. Se olhar para a estrutura produtiva portuguesa nós temos competências para fazer esta transição e para produzir tudo isso. Algumas das coisas que estão aí já estão em desenvolvimento, no fundo o que nós precisamos é de integrar numa visão estratégica aquilo que está a ocorrer e olhar também para o futuro para ver para onde é que queremos chegar. Se ser megalómano é ver de onde é que a gente sai, qual é a estrutura existente e para onde é que pode ir, podem chamar todos esses nomes, para mim é para o lado que durmo melhor.

O senhor ministro das Finanças estava lá na sessão, estava muito atento, naturalmente. Ele aprendeu a ser muito poupado com Mário Centeno, como nós sabemos, estava na mesma equipa. Acha que João Leão como ministro das Finanças vai facilitar a vida ao plano ou nem por isso?
Penso que o senhor ministro está perfeitamente ciente de todas estas questões. É muito qualificado, tem já grande experiência na sua área e acho que ele vai ser uma surpresa, vai ser também um excelente ministro das Finanças e o país bem precisa.

Espera que alguma destas medidas já apareça no Orçamento do Estado para 2021?
Eu não vou comentar isso porque não me compete a mim. Compete ao governo e é o governo que tem que responder. Eu estou a dizer aquilo que eu conheço das pessoas e das interações que tive são pessoas extremamente qualificadas, muito preocupadas com os problemas do país, cientes da urgência de responder e portanto vão ter que ser feitas escolhas porque a definição de governar, para mim, é fazer escolhas. E é aí que está o busílis da questão. Há coisas que vão avançar e há outras que vão ser preteridas em função dos recursos disponíveis e da nossa capacidade de executar os diferentes programas. .

O que é que gostaria que não fosse deixado cair de todo. Qual é aquela que é a sua medida de paixão?
Isso é muito difícil de dizer porque eu tenho várias paixões e quando começo a pensar nelas seria uma pena o país não aproveitar esta situação em que está para não desenvolver as infraestruturas físicas porque elas são a base da nossa competitividade no futuro porque aumentam a nossa conectividade global e portanto, os países que vão triunfar no século XXI são que eles foram capazes de se inserir na redes globais de energia, de conhecimento, de comércio, nas redes financeiras e tecnológicas. Gostaria muito que o país não abdicasse da aposta que tem sido feita na ciência e da tecnologia. Temos hoje cerca de 1,38 % do alocado a Ciência e Tecnologia. Ao desígnio do governo de chegar a 3% em 2030, gostaria muito que isso acontecesse. Cada euro que investimos do sistema científico e tecnológico tem um impacto brutal sobre a economia. Gostava que não se abandonasse a questão da qualificação, acho que isso é absolutamente decisivo e da parte do estado, se combinarmos isso bem com investimento no SNS seria aquilo que eu tentaria assegurar . Depois é o papel da interação entre os estado e as empresas e a transformação da economia. Gostaria que em 2030 o país quando olhasse para a sua estrutura produtiva, para os mapas do laboratório de crescimento da universidade de Harvard. Nós temos hoje a nível a complexidade da economia 0,72 %, gostaria de em 2030 chegarmos muito mais à frente. Nos países mais desenvolvidos, mais ricos do mundo, há sempre uma relação muito grande entre o rendimento, a riqueza que geram e a complexidade da sua economia. Isto é, a capacidade de produzirem produtos e serviços de alto valor acrescentado. Na nossa estrutura produtiva nós já temos esses segmentos, têm de ser desenvolvidos, mas temos dois problemas cruciais em termos das exportações. O volume de exportações de produtos de alto valor acrescentado ainda é baixo, e o segundo problema que para mim é crucial, é que o conteúdo importado, as nossas exportações ainda muito elevado. É dos mais elevados da União Europeia. Temos que ter aí uma estratégia de substituição das importações. Isto é, hoje não basta olhar para a economia só em termos de clusters, são operacionais, ajudam muito a desenvolver as coisas mas não basta isso. Hoje é necessário olhar para as cadeias de valor, para todos os segmentos e ver onde é que nós podemos intervir para mudar um bocado a trajetória em que estamos.

Perguntar-lhe apenas se depois destes meses intensos a trabalhar com os vários ministros, sente que alguns deles ainda se sentem ameaçados pela concorrência que é o António, uma lufada de ar fresco?
Não ameaço ninguém, sou uma pessoa muito modesta e portanto não quero ameaçar ninguém. Senti que isto era um dever meu, cívico, de prestar isto ao país e desenvolver este plano e tuve essas interações não só com os ministros, mas também com a sociedade civil, enfim com mais de 120 associações, organizações, pessoas, universidades, entidades sindicais, associações ambientalistas. A ideia desde o início é que temos de fazer um plano de seja nosso. Um plano o mais transversal possível e não um plano que seja deste ou daquele, isso não interessa para nada.

Vídeo: Há ministros que se sentem ameaçados com a sua concorrência?

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Depois desta experiência fica com alguma vontade de integrar um governo?
Nenhuma vontade. Eu tenho a minha vida e felizmente vou continuar a minha vida, não tenho uma vontade, sinceramente. Admiro as pessoas que integram os governos e que se sujeitam aos grandes desafios que tem na vida porque não é fácil.

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