Entrevista Dinheiro Vivo

Nelson de Souza. Portugal 2020 deverá ajudar a criar 55 mil empregos

fundos europeus
Nelson de Souza, ministro do Planeamento. Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

Execução de fundos europeus está a ir bem, mas ministro também nota que há concursos que ficam desertos e empresas sem condições a concorrer

Nelson de Souza, ministro do Planeamento, considera que o debate sobre o TGV vai ter de acontecer, mas ainda é cedo. E que os empresários precisam de saber organizar-se melhor para acederem a fundos europeus. Lamenta o impasse provocado pela Finlândia na discussão sobre o próximo orçamento da União Europeia, o que, na sua opinião, fará atrasar bastante o arranque do próximo quadro de fundos comunitários em toda a Europa. Segunda de três partes da entrevista ao ministro.

Relativamente ainda a 2019. Há uma queixa recorrente dos empresários, por exemplo, dizem que ter dificuldade em aceder ao crédito bancário, Isso é um constrangimento para a vossa atividade no Ministério do Planeamento? Ou seja, os bancos dizem que emprestam. Do outro lado, os empresários lamentam a falta de recursos. Vocês conseguem medir isso? Verificar em que proporção é que o fluxo de crédito está a ir ou não? Quem é que tem razão no fundo nesta neste diálogo entre banca e empresa?

É uma matéria difícil de ajuizar. Mas há, naturalmente, técnicas e análises que se podem fazer. Desde logo comparar as condições que se praticam aqui com condições que se praticam aos outros países. As melhores empresas, que apresentam melhores condições, apresentam melhores rácios, estão mais capitalizadas, naturalmente têm acesso a melhores condições e maiores facilidades de acesso a financiamento. É assim e quanto a isso não há nada a fazer, é o mercado a funcionar e nós o que podemos fazer são duas coisas. Relativamente até às PME e, nomeadamente, às micro e pequenas empresas, ajudamos a encontrar formas de fazer com que o risco que a banca vê em empresas de menor dimensão seja mitigado. E nós temos de ajudar essas micro e pequenas empresas a arranjar formas de se agruparem para encontrarem formas de ir em conjunto à banca, ou com garantias do nosso lado que possam partilhar o risco, a banca, no sentido de fazer com que elas tenham acesso. Portanto, sempre esquemas que ajudem a mitigar o risco, melhorar o acesso. É isso que fazemos com os nossos instrumentos.

Portanto, não há falta de financiamento em Portugal.

Nós temos sempre uma atividade permanente relativamente tanto a essa matéria. Deixamos que o mercado funcione para aquilo que são as necessidades, digamos, tanto decorrentes das empresas, necessidades de fundo de maneio, necessidades normais que as empresas têm, mas, tentamos sempre ajudar as empresas – as pequenas empresas que são aquelas mais precisam, as PME.

Como?

A mudar e a dar o salto no seu patamar competitivo. Qualificando, formando internacionalizado, inovando. E quando elas querem fazer isso, é então que vêm as nossas ajudas. Quer, digamos, tanto subsidiando, se ela vai contratar um designer, se ela quer contratar uma pessoa acabada de sair da universidade, quando vai querer comprar equipamento mais tecnologicamente evoluído… Então sim, ou damos um subsídio, um apoio direto, ou então arranjamos uma linha de crédito em condições bonificados com acesso onde nós dizemos ao banco, ‘olhe, nós damos uma garantia de 50%, se a empresa não pagar, pagamos nós’… São este tipo de esquemas que o Portugal 2020 tem e tem funcionado, na minha opinião, muitíssimo bem. E isto porquê? Porque nós temos uma carteira muito grande de projetos apoiados. E este ano de 2019 não fugiu à regra até agora verificados. Porque nós temos uma carteira de projetos aprovados.

Estamos a falar deste universo de 15 mil projetos.

Sim, 15 mil projetos que têm um investimento enorme. Até me impressiona pelo volume que são 11 mil milhões de euros de investimento. E temos uma agenda muito exigente para esses projetos. Queremos inovação, qualificação, internacionalização.

Tem ideia de quantos empregos podem trazer os 11 mil milhões de euros?

No que temos contratado com as empresas, estamos a falar de perto de 55 mil postos de trabalho que estão aqui envolvidos.

Só em Portugal? Imagino que há muitas empresas internacionais…

Mas a maior parte deles são aqui em Portugal, são aqueles que a gente contabiliza.

Queria-lhe fazer uma pergunta relativamente às pessoas, uma das vossas prioridades. E queria fazer a pergunta também à luz de outra coisa que os empresários começam a dizer, ou já dizem há algum tempo, que é a falta de recursos em determinadas áreas mais especializadas. Como é que os fundos estruturais e a vossa atividade podem responder a isto? Sentem que há menos procura porque há menos gente a formar-se nestas áreas ou ainda não chegamos a esse ponto?

Olhe, é uma questão vital. Porque nós temos aqui estes projetos todos para implementar, metade deste investimento até já está feito. Destes 11 mil milhões de euros, grosso modo, aliás, mais de metade, já vai quase 60%. Falta realizar 40% do investimento. Nós não queremos uma atividade económica que persista num modelo de competitividade assente em baixos salários, e por isso mesmo é que precisamos de introduzir esses elementos de qualificação, de modernidade, de internacionalização, de orientação para fora. Assim, é essencial termos os verdadeiros agentes de mudança que são as pessoas. Mas, é verdade, estamos hoje confrontados com uma realidade que até há pouco tempo parecia que não existia. É que nós, portugueses, somos poucos. E como tal nós temos de nos valorizar. Os recursos são poucos e temos de os tratar bem.

Está a falar de não perder capital humano, de ter fluxos grandes de emigração. O que acontece nalgumas áreas, atualmente.

Acho que acontece em quase todas as áreas, mas também em áreas onde perdemos gente muito qualificada e isso é um desperdício ao qual o país não se pode dar ao luxo. O país precisa dessa gente, as empresas precisam dessa gente e essas pessoas precisam da oportunidade de ficar cá. Todos nós temos um papel a cumprir. As empresas e os empresários, usando o Portugal 2020, têm sido capazes de apresentar um conjunto de enorme de projetos, de grande qualidade, capazes de arriscar porque o subsídio nunca é a 100%. Portanto, eles também põem a sua quota-parte. Agora também é preciso levar a empreitada até ao fim. E levar até ao fim significa saber gerir esta aposta.

Acha que o setor do turismo pode estar a ficar sobre representado na economia portuguesa, tendo em conta que é um setor, é um transacionável, mas que contempla riscos ou traz riscos, porque depende muito da procura externa. Qual é o papel que o turismo deve desempenhar numa economia portuguesa que se quer diversificada? Acha que o turismo está a ir para além daquilo que é o razoável em termos de risco para a economia?

Não, não acho. É preciso ter aqui algumas cautelas em termos de impactos, de impactos urbanos e sobretudo no impacto que isso causa na vida das pessoas que habitam esses mesmos espaços. Isso é uma é uma preocupação que julgo que os responsáveis por esses espaços estão a ter. Agora, sobre o ponto de vista global…

Destes incentivos, desta mobilização de 11 mil milhões de euros, quanto é que vai para o turismo?

O turismo não representa mais de 20%. O essencial disto do investimento está na indústria e nos outros serviços transacionáveis, sobretudo nas tecnologias da informação. Portanto, nós temos um perfil diversificado e bastante aceitável. Eu acho que tanto que globalmente os números não estão ainda bastante…

As tecnologias de informação, as atividades cutting edge, investimento em tecnologias novas. Quanto é que estes representam?

Não gostaria ainda de fazer essa conta.

Porque há projetos que não estão executados?

Pois, exatamente. Não estão executados, é uma batalha que nós temos de ter porque, como em tudo, o carimbo não é tudo, não diz tudo sobre a qualidade do investimento. Também em matéria de tecnologias de informação nós temos que ter cuidado com aquilo que nos é proposto. Porque sob o chapéu tecnologias de informação e comunicação pode haver muita coisa. Aliás, que são visíveis pela qualidade de postos de trabalho que se criam. Nós temos esse particular cuidado.

O que está a dizer é que os centros de contacto (call centres) são negócios de tecnologias de informação, no entanto, sabemos que tipo de empregos criam, os salários que pagam.

Por isso mesmo. Importa fazer uma seleção. É completamente diferente um investimento desse tipo ou um investimento de centros de recursos partilhados, ou de um centro de produção de multimédia, de conteúdos noticiosos. São coisas completamente diferentes que nos interessam de forma diferenciada. Costumo dizer que se esta carteira for – e vai ter de ser executada e realizada – o perfil de especialização da nossa da nossa atividade produtiva, nada ficará como dantes. Acho que vai ser muito mais enriquecida, porque muito mais diversificada, e sobretudo também com muito mais protagonistas. Mas também é importante para a economia contar com todos. Os setores tradicionais, mas não podemos só contar com eles. Tem que se contar com os jovens, com as pessoas da meia idade, temos de contar também com as pessoas com mais experiência. Uns têm de ir transferindo experiência para os outros. Temos que contar com as empresas grandes, mas também temos que contar com as empresas pequenas que fazem as redes.

As estatísticas mostram que as pessoas com mais idade estão a ser afastadas do mercado de trabalho. Pode ser por efeitos de aposentação, claro. Mas as empresas, a contratarem, tendem a contratar as mais novas. Ou porque são mais baratas, ou porque são mais fáceis de formar. Uma reintegração das pessoas mais velhas não é uma realidade evidente, não acha?

Talvez a sociedade vá ter de rebobinar e rever alguns conceitos relativamente a isso.

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