"No futuro, as marcas serão todas marcas culturais (ou não serão marcas)"

Diretor-geral da COTEC, associação parceira da recém-criada reCenter Culture., defende para o setor da cultura uma "maior cooperação empresarial e orientação internacional das suas atividades, de modo a reduzir a mortalidade das empresas culturais nacionais".

A COTEC é um dos parceiros da agência reCenter Culture, lançada no final do mês passado pela experimentadesign, de Guta Moura Guedes, e DFK, empresa de auditoria e consultoria. O projeto reúne vários parceiros, entre eles também a KPMG, a Casa da Arquitetura, o Instituto Superior de Economia e Gestão e a Escola Superior de Artes e Design, com um grande objetivo: "apoiar o tecido cultural português, ajudando-o a captar investimento financeiro nacional, europeu e internacional e conferindo-lhe novas competências na área da gestão, economia e comunicação bem como novas áreas de intervenção".

Em entrevista, Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC, explica o papel que a instituição que dirige terá no reCenter Culture e a importância para a economia do setor da cultura.

Qual é o papel da COTEC nesta agência ReCenter Culture? O que levou a COTEC a associar-se à iniciativa?

A COTEC associou-se à RCC para explorar todo o potencial da intersecção entre os setores culturais, o processo de inovação tecnológica e a economia industrial e exportadora. As tecnologias de informação e comunicação mudaram de forma radical a forma como se produz, distribui e consome produtos culturais. O setor cultural contribui para a aproximação entre povos e as suas identidades, diversidade e regeneração. As plataformas e ecossistemas digitais, símbolos da 4ª Revolução Industrial, são veículos de inovação e crescimento e aceleração da entrada em mercados globais. Nos últimos seis anos, as receitas geradas por conteúdo cultural em plataformas online cresceram a dois dígitos/ano. As empresas dos setores culturais foram historicamente das primeiras a adotar as tecnologias digitais (por exemplo no audiovisual, música e nos jogos online) e têm sido um motor do crescimento da utilização de internet de banda larga e no futuro das redes de 5G.

Que diferença pode esta agência fazer no setor da cultura?

O poder da inovação dos setores culturais e criativos é essencial para o desenvolvimento das economias e coesão das sociedades europeias. Os impactos económicos e sociais são diversos, seja no design de produtos e serviços, na conceção humana do edificado e espaços públicos, na modernização de indústrias com novos métodos, na digitalização e preservação virtual do património e heranças históricas e gerador de temas com significado para o diálogo que aproxima pessoas e povos.

A RCC poderá constituir uma plataforma de recursos e uma rede de parceiros com recursos para apoiar o empreendedorismo e aos empreendedores do setor, maior cooperação empresarial e orientação internacional das suas atividades de modo a reduzir a mortalidade das empresas culturais nacionais, superior à média europeia, conferindo resiliência, ambição e capacidade de crescimento. A Agência poderá dar o impulso que falta, através da inovação, maturidade tecnológica e competências de gestão, para as empresas desenvolverem estratégias de maior integração nas cadeias de produção e distribuição transnacionais e tirarem maior partido da atratividade e dinamismo do mercado interno europeu. Poderá ter um papel importante na recomendação de instrumentos de apoio à competitividade internacional do setor.

Há potencial em Portugal na área da cultura para a realização de projetos com impacto económico? E para a captação de investimento nacional e internacional?

Com nove séculos de história, Portugal é uma referência cultural na Europa, com um rico património e herança cultural que importa preservar, valorizar e dar a conhecer de forma atraente à Europa e ao mundo. Embora tendo à disposição vastos recursos de "matéria-prima" cultural, os setores culturais têm especificidades próprias de uma "economia de protótipos" (project-by-project) e são constituídos por ecossistemas empresariais muito frágeis, como se constatou nesta crise pandémica, embora com potencial exportador não explorado. Sendo um setor com uma contribuição muito relevante para o emprego, o oceano de freelancers (mais do dobro que na economia nacional como um todo), micro e pequenas empresas conferem flexibilidade e dinamismo mas ao mesmo tempo enorme vulnerabilidade. Para ultrapassar estas fragilidades, é requerido maior nível de organização e ação coletiva e ainda maior nível de cooperação entre os atores do ecossistema. Só assim poderão alcançar níveis de desenvolvimento superiores e estarem preparadas para entrarem no radar de interesse dos investidores.

Dentro da cultura, há alguma área ou áreas com maior facilidade na captação de investimento?

As atividades que incluem a arquitetura, o design, audiovisual e música, os jogos de vídeo geram mais de dois terços do valor acrescentado dos setores em Portugal. São fortes candidatos a atraírem a atenção de investidores, já que existe muito talento criador e competências técnicas.

Em termos de fundos europeus, qual o montante global a que as entidades culturais se podem candidatar nos próximos anos?

Não posso adiantar, já que ainda não há definição sobre esses valores.

Em sua opinião, o Plano de Recuperação e Resiliência e o Portugal 2030 contemplam devidamente a área da cultura?

O Setor Cultural foi um dos que na Europa e em Portugal sofreu maior devastação económica com a pandemia e por isso terá que ter intervenções adequadas à necessidade de recuperação. O PRR nacional prevê a internacionalização, a modernização e a digitalização do setor do livro, faltando incluir as restantes atividades. A expectativa é que tal alargamento se possa operar na fase de operacionalização dos quadros de apoio. As exportações consolidadas dos produtos culturais representam 0,3% do total, os nossos vizinhos exportam mais do dobro que nós, e a média Europeia é três vezes maior. Há assim um racional económico para dedicar mais apoios públicos aos setores culturais, já que podem dar uma contribuição relevante para a meta do 50% de exportações no PIB estabelecida pelo Governo. Para além disso, indústrias culturais fortes e exportadoras são uma fonte de "softpower", que combinada com uma forte diáspora (como é o nosso caso), fortalece a reputação do país e gera um efeito coletivo de valorização das marcas exportadoras.

Tem números quanto ao contributo da cultura para o PIB nacional?

O setor representa em emprego 3,4% do emprego total, em número de empresas 3,8% das sociedades não financeiras, 2% do VAB e 1,4% do VN, valores alinhados com a média da UE. E, como já referido, o setor tem um potencial exportador ainda por concretizar.

Qual deveria a ser a meta nacional neste domínio?

O peso dos setores culturais na economia nacional está em linha com a média europeia. Para crescer, é preciso criar uma "disciplina exportadora" à qual os apoios públicos devem ser condicionados.

A cultura pode promover a inovação nas PME? De que forma?

Há anos alguém proclamou: "Mercados são conversas". Os produtos e as marcas precisam de histórias para se diferenciaram e atraírem a atenção dos consumidores. O conteúdo cultural aporta diferenciação e valor para os clientes, consumidores e o mercado. No futuro, as marcas serão todas marcas culturais (ou não serão marcas).

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