fundos comunitários

Norte 2020. PME já investiram mais de 1,2 mil milhões de euros

Porto
Fotografia: Artur Machado / Global Imagens
Porto Fotografia: Artur Machado / Global Imagens

Dos 4948 projetos já aprovados pelo Programa Operacional Regional do Norte, 3294 são de pequenas e médias empresas. Os apoios à internacionalização lideram em número, mas a inovação leva a maior fatia dos apoios

A dois anos do fim do quadro comunitário de apoio, o Programa Operacional da Regional do Norte já tem 53% dos incentivos às empresas comprometidos. No total, foram aprovados 3294 projetos de pequenas e médias empresas na região, com um investimento global previsto de 1,2 mil milhões de euros na qualificação dos recursos, na internacionalização, na inovação e na investigação e desenvolvimento. Os apoios concedidos ascendem a 667 milhões a fundo perdido.

No global, e incluindo todos os eixos de apoio, o Norte 2020 está executado apenas a 15%. Uma taxa baixa, reconhece o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, mas em linha com a “tradição” e com o “nível de burocracia necessário para pôr a máquina a andar”. No entanto, Freire de Sousa garante que, tendo em conta os compromissos globais perante os municípios e outras entidades, mais de 80% das verbas disponíveis “estão já comprometidas” e “não há risco” de devolução de verbas a Bruxelas.

A verdade é que, desde o arranque do novo quadro comunitário, em 2014, foram já submetidas 18 100 candidaturas ao Norte 2020 com intenções de investimento de 6000 milhões e com um apoio requerido de 4000 milhões de euros. A dotação total é de, apenas, 3,4 mil milhões. Aprovados estão 4948 projetos (2,7 mil milhões de investimentos e apoios a totalizar 1,8 mil milhões), estando 1400 em fase de análise.

Exigência
A comparação com o anterior quadro comunitário é significativa. Nos nove anos do QREN, o Programa Operacional Regional do Norte contou com 16 600 projetos submetidos. “Lidar com 18 100 candidaturas concentradas, sobretudo nestes últimos três anos é um peso muito significativo. Há aqui exigências de gestão muito complexas”, admite o presidente da CCDR-N. Mais de metade foram de empresas.

Mas os números mostram que a taxa de aprovação do Norte 2020 é só de um terço. “Muitas das candidaturas que nos chegam não estão devidamente instruídas e há, também, promotores que desistem. A própria seletividade de quem analisa estes processos determina que algumas fiquem de fora, por falta de mérito”, diz Freire de Sousa.

Este são dados de 30 de abril e serão apresentados pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDR-N) na quarta-feira, em Braga, na conferência A Especialização Internacional da Região Norte, organizada em parceria com a Fundação Gulbenkian.

“A Fundação Gulbenkian tinha desenvolvido um estudo sobre o noroeste peninsular, mas que não teve grande sequência, e o Artur Santos Silva [presidente da instituição] desafiou-nos a aprofundar este trabalho”, explica Freire de Sousa. Um estudo que mostra que a região “se continua a focar” muito nos setores historicamente tradicionais, mas com “tendências novas, muito relevantes”, do ponto de vista da diversificação, com a construção metálica, as máquinas, os componentes para automóveis e os moldes a ganharem peso crescente.

Reprogramação
A região norte assegura 42% das exportações totais nacionais. “A grande mudança estrutural da economia portuguesa tem sido o aumento do peso das exportações no PIB nacional e, aí, o norte está dez pontos percentuais da média nacional”, destaca o presidente da CCDR-N.

Significativo é que a esmagadora maioria dos projetos empresariais submetidos ao Norte 2020 se destinam a apoiar processos de internacionalização: há 1429 já aprovados, correspondentes a um investimento de 442 milhões de euros. Mas o maior volume de investimento está na inovação: 807 projetos já aprovados, para um investimento de 630 milhões.

E na reprogramação do Norte 2020, esta semana anunciado, a CCDR-N apostou, precisamente, em “manter o ritmo do abastecimento” ao investimento privado, assegurando “algum reforço” do investimento científico e da qualificação dos recursos humanos, mas permitindo, sobretudo, o “reforço” do investimento territorial, que ganha mais 260 milhões de euros. “Acredito que é a reprogramação mais equilibrada e satisfatória que tivemos até hoje, procurando um equilíbrio justo entre competitividade e coesão”, garante Freire de Sousa.

Entrevista Freire de Sousa

“Temos 80% das ajudas comprometidas”

O presidente da CCDR-N aplaude o acordo do governo e do PSD, mas acredita que não podemos partir para a negociação de um sexto quadro comunitário com as mesmas perspetivas dos anteriores.

Estamos a meio de 2018, como estamos em termos de execução do Norte 2020?
Os valores postos a concurso totalizam já 77% do total da dotação do programa. A taxa de compromisso, entre candidaturas aprovadas e programadas, é de 53%, e a taxa de realização, ou seja, os projetos executados sobre os aprovados, é de 27%. Por fim, a execução total do programa está perto dos 15%.

Não é pouco?
É uma questão do copo meio cheio ou meio vazio. É verdade que a taxa é baixa, mas temos 80% do total do programa operacional Norte 2020 comprometido. Não temos dúvida de que serão executados até ao fim de 2020 ou 2022.

Não há risco de perda de ajudas?
Seria inédito. Temos sido bons executores, isso não é um problema.

Quais deverão ser as prioridades de Portugal na negociação do próximo quadro comunitário de apoio atendendo à previsível diminuição das perspetivas financeiras da UE?
Todos estamos de acordo nos grandes princípios, todos queremos criar riqueza, desenvolver qualificações e dar mais coesão ao território. O diabo está nos detalhes e no desagregar desses conceitos.

O governo e o PSD já acordaram que Portugal deve pedir pelo menos 25 mil milhões…
Um desejo provavelmente inalcançável, mas aplaudo o acordo. A questão é saber como é que os queremos aplicar. E nós partimos sempre para estas negociações mais pelo lado quantitativo do que qualitativo, e a dimensão qualitativa será muito importante no próximo QCA. É uma mudança de mindset fundamental. Não podemos pensar partir para um sexto quadro comunitário com as mesmas perspetivas dos anteriores. Precisamos de definir, de forma muito clara, onde queremos estar e quais as prioridades estratégicas, que terão de resultar de escolhas maturadas, seletivas e focadas e não de um cardápio em que toda a gente se revê. Será necessário fazer cortes e escolhas.

Por exemplo?
Temos de começar por definir se faz sentido que haja programas temáticos e programas regionais. No fundo, se queremos uma lógica de governação dos fundos mais centralizada ou descentralizada, como eu defendo. Quem manda nos fundos comunitários? Vamos tendo opções avulsas em função das opções políticas de cada Governo.

CASOS DE SUCESSO

Eleuterio Filigrana de luxo a caminho dos EUA e Japão

Com mais de 90 anos de tradição no trabalho da filigrana, a Eleuterio é hoje uma marca de joalharia de luxo apostada em conquistar mercados como o Japão ou os Estados Unidos. Uma estratégia que está a ser suportada com um projeto de apoio à internacionalização, no valor de 1,2 milhões de euros e comparticipado em 45% a fundo perdido. O objetivo é que, até 2020, a empresa consiga quadruplicar as suas vendas – Luís Antunes, a terceira geração na empresa, não indica o valor exato de faturação invocando a “sensibilidade” do setor -, com os mercados externos a assegurarem 70% a 75% do negócio. A empresa está, ainda, à procura de parceiros financeiros que ajudem a Eleuterio a posicionar-se como uma marca de luxo internacional. “Criar uma marca de luxo é um investimento louco e a banca em Portugal não sabe validar e impulsionar projetos deste tipo. Estamos, por isso, à procura de quem nos acompanhe neste processo”, diz Luís Antunes, que reconhece estar em negociações com um fundo estrangeiro e um potencial parceiro nacional. Em negociações está, também, uma parceria com uma “grande marca internacional” para o desenvolvimento de uma nova coleção conjunta para o mercado japonês.

TSF Crescer para acompanhar a aeronáutica

Com um projeto de inovação produtiva concluído no final de 2017 e um de I&D em curso, com o apoio do INEGI, a TSF – Metalúrgica de Precisão, de Vila Nova de Famalicão, está à espera que abra novo concurso para submeter mais um investimento produtivo, de ampliação das instalações e compra de novos equipamentos, para melhor servir os seus clientes da indústria aeronáutica. O valor não está definido, mas será da ordem dos dois a três milhões, admite Pedro Sousa, administrador da empresa, a somar aos quatro milhões de investimento já realizado. “Queremos aproveitar também para evoluir para a impressão 3D e avançar ainda mais na digitalização”, explica. Com 93 trabalhadores e uma faturação de 5,7 milhões de euros (+13% do que no ano anterior), a TSF produz desde as máquinas que enchem os frascos de perfume da Chanel ou da Dior, a válvulas para centrais nucleares, passando por máquinas para a indústria alimentar ou ferramentas para a montagem de aviões, valendo esta última área de negócio quase 30% das vendas. Exporta 95% da produção, para clientes tão variados como a Airbus, Bosch, Consoveyo, Michelin ou a Tefal. Este ano espera chegar aos 7 milhões de euros de faturação.

Carité Fábrica de Felgueiras recebe linha robotizada

Diversificar e aumentar a gama de produtos foi o objetivo do projeto que a Carité Calçados, de Felgueiras, submeteu ao sistema de incentivos à inovação empresarial do Norte 2020. O investimento de 1,7 milhões foi apoiado em cerca de 50%. A meta é simples, mas muito ambiciosa: ser líder da indústria de calçado. “Criamos uma nova linha, totalmente robotizada, que permite fabricar as solas e injetá-las de imediato no sapato, com as economias daí decorrentes e que nos tornam mais competitivos”, explica Reinaldo Teixeira, responsável do grupo. Com seis fábricas já em laboração – duas em Felgueiras, três em Celorico de Basto e uma em São João da Madeira -, a Carité dá emprego a 500 pessoas e fatura 28 milhões de euros. Exporta 98% da produção para a Europa, Estados Unidos e Japão. Este ano, a empresa espera crescer 10%, graças ao arranque da sétima unidade do grupo, a ex-OQ, em Castelo de Paiva, uma das fábricas que ardeu nos incêndios de outubro de 2017. “As chuvas de abril atrasaram as obras, tenciono abrir em junho”, diz, confiante, o empresário. O investimento é de 1,5 milhões e vai permitir a reintegração dos 85 trabalhadores que ficaram temporariamente sem os seus postos de trabalho.

Vava Óculos de sol de luxo à conquista do mundo

Pedro Silva, engenheiro têxtil com uma carreira internacional em empresas como a Hugo Boss, Inditex ou a VF Corporation, criou, em 2014, a Vava Eyewear, marca portuguesa de óculos de sol, convicto da falta no mercado de “um produto de luxo diferenciado para um público mais exigente”. Hoje, a empresa, com sede em Viana do Castelo, fatura quase meio milhão de euros e tem “presença consolidada nas principais capitais mundiais”. De entre os famosos que usam óculos Vava estão nomes como Cristiano Ronaldo, Spike Lee ou Will.I.Am. O ano de 2017 marcou o breakeven do projeto, com as vendas a crescerem 53%. Este ano, Pedro Silva quer manter o “crescimento sustentado” e consolidar a marca nos Estados Unidos, Coreia e Japão. Tem em curso um projeto de quase meio milhão de euros que prevê, entre outros, o registo internacional da marca, que está presente em 45 países, e a aposta nas vendas online. O programa Norte 2020 tem sido “um apoio precioso”, garante o empresário, que está, por estes dias, na Bienal de Veneza a lançar três novos modelos desenvolvidos em parceria com o arquiteto Siza Vieira. Em junho chega a linha Red Label, com recurso à tecnologia de impressão 3D.

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