fundos comunitários

Norte já aplicou mais de metade das ajudas

Industria do mobiliário de madeira lidera os investimentos do Norte 2020 com 57,4 milhões de ajudas aprovadas. Foto: Hernâni Pereira
Industria do mobiliário de madeira lidera os investimentos do Norte 2020 com 57,4 milhões de ajudas aprovadas. Foto: Hernâni Pereira

Número de candidaturas ao programa operacional dirigido à região bate recorde, com mais de 19 mil projetos. Micro e pequenas empresas lideram.

O Norte 2020 aprovou já 5800 projetos correspondentes a um investimento total elegível de 2,841 mil milhões de euros. Em causa estão apoios que ultrapassam os 1,902 milhões e que correspondem a cerca de 56% dos fundos totais deste programa operacional. A Área Metropolitana do Porto lidera, com 47% das verbas alocadas, e as micro e pequenas empresas são as maiores responsáveis pela dinâmica de desenvolvimento, com mais de 43% dos fundos comprometidos. Ao terreno já chegaram 667 milhões de euros.

Estes são dados de 30 de setembro, quando tinham dado entrada mais de 19 mil candidaturas ao Programa Operacional Regional do Norte 2014-2020, mais do dobro das submetidas, em igual período, ao anterior quadro comunitário de apoio. Um “volume recorde”, reconhece Freire de Sousa, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), e que “constitui um ótimo sinal da dinâmica de investimento” na região.

Parte significativa das verbas destina-se ao apoio a micro e pequenas empresas da região: são 4271 os projetos aprovados, com um investimento elegível de 1,475 mil milhões de euros e fundos atribuídos de quase 825 mil euros. Aqui se inclui tudo o que tem que ver com qualificação, internacionalização, inovação ou investigação e desenvolvimento, mas apenas com investimentos inferiores a três milhões de euros, já que os restantes são submetidos diretamente ao programa Compete.

Há ainda os apoios ao investimento municipal, com 994 projetos aprovados e fundos de 385 mil euros, e à ciência e ensino superior: 223 candidaturas já com luz verde e que irão receber 183 mil euros de apoio.

Mobiliário lidera
Numa análise mais fina, os números do Norte 2020 mostram que, da parcela de 1,7 mil milhões de euros que é regionalizável, a Área Metropolitana do Porto lidera, claramente, com 47% dos apoios, num total de 812 milhões de euros, seguindo-se o Ave com 232 milhões (14%), o Cávado com 203 milhões (12%) e o Tâmega e Sousa com 136 milhões (7,9%).

Já em termos setoriais, a indústria de mobiliário lidera, com 57,4 milhões de euros de fundos aprovados, seguindo-se o vestuário (31,2 milhões), os moldes metálicos (25,5 milhões), o fabrico de plástico (24,3 milhões) e a indústria do calçado (19,9 milhões de euros). O turismo, outras atividades da indústria metalúrgica e metalomecânica, a engenharia e o fabrico de componentes para a indústria automóvel têm, também, um peso significativo.

E quantos milhões já chegaram, efetivamente, às empresas? Cerca de 667 milhões de euros, correspondentes a cerca de 20% do total do programa operacional. Freire de Sousa lembra que o Norte 2020 arrancou com dois anos de atraso, em muitas das suas componentes – veja-se que o mapeamento para as infraestruturas tecnológicas, por exemplo, só foi aprovado em dezembro de 2017 -, o que ajuda a explicar esta disparidade entre a taxa de aprovações e de pagamentos. Por outro lado, admite que o contrato recente do governo com o Banco Europeu de Investimento (BEI) para financiar a contrapartida nacional no investimento municipal, que não contará, assim, para o rácio de endividamento dos municípios, vai ajudar a imprimir maior dinâmica a estes projetos. “Estamos a operacionalizar isto e temos cerca de 40 pedidos de autarquias para o efeito, o que é um indicador de aceleração”, defende.

Por outro lado, e no âmbito da reprogramação do Norte 2020, o objetivo é que sejam garantidos 260 milhões de euros para o investimento territorial. No total, a reprogramação abrange 540 milhões de euros. “Temos na próxima semana uma reunião em Bruxelas, desejavelmente este processo estará concluído antes do final do ano”, diz Freire de Sousa, lembrando que a reprogramação não implica mais dinheiro, mas apenas uma redistribuição diferente.

Já quanto ao próximo quadro comunitário de apoio, cujas negociações deverão ser aceleradas a partir do final do ano, Freire de Sousa espera que Portugal seja capaz de definir um quadro “mais seletivo” – “o mundo está perigoso e não podemos desperdiçar dinheiro”, diz – e que, simultaneamente, consensualize um modelo de governação que valorize as dimensões de proximidade. “O acumulado de conhecimento e de experiência que existe em todas as regiões não pode ser substituído por novos mecanismos de experimentalismo. É preciso um reforço das posições regionais e dos mecanismos de prestação de contas por forma a que isso possa ser eficaz”, defende.

Inovação e internacionalização

Solicel leva o xisto de Vila Nova de Foz Coa a todo o mundo
Com 75 trabalhadores e uma faturação de quatro milhões, 95% dos quais obtidos nos mercados internacionais, a Solicel é o maior empregador privado do concelho de Vila Nova de Foz Coa. O grupo familiar, com mais de 30 anos de experiência na extração de xisto e na sua transformação em esteios e muros para suporte de videiras na zona vinhateira do Douro, tem hoje no paisagismo, que engloba desde as rochas ornamentais aos jardins e ao mobiliário urbano, a sua principal área de atuação. O metro de Angers, em França, o Hospital da Luz, em Lisboa, ou o Hotel Epic Sana, no Algarve, são algumas das grandes obras realizadas com as pedras de xisto de Foz Coa.

Foi a partir da década de 90 que a Solicel, criada em 1966, pelo avô de Pedro Duarte, o atual responsável do grupo, começou a estudar a entrada em novos segmentos de mercado, designadamente da construção. França e Alemanha são os principais mercados, mas a empresa exporta os seus produtos “um pouco para todo mundo, dos Estados Unidos ao Japão, passando pela Coreia e pelo México”.

O projeto apoiado pelo Norte 2020, no âmbito dos sistemas de incentivo à inovação empresarial e ao empreendedorismo, num investimento elegível de 755 mil euros, visou proceder à mecanização da linha de produção através da aquisição de “máquinas e tecnologia de topo”. Uma transformação que permitiu a “entrada no segmento da decoração e interiores”, designadamente através do desenvolvimento de “produtos únicos em parceria com gabinetes de arquitetura”, explica Pedro Duarte.

Uma área de negócios que valeu, apenas, cerca de meio milhão de euros, em 2017, mas com perspetivas de crescimento, refere o responsável da empresa, dado que se trata de “produtos de maior valor acrescentado”. Em preparação está já nova candidatura para submissão ao Norte 2020 para aprofundar, ainda mais, a inovação no processo produtivo. O investimento estimado, diz o responsável da Solicel, será da ordem dos 1,5 a dois milhões de euros.

Fibrenamics transforma resíduos em produtos inovadores
E se os resíduos da indústria têxtil, do setor automóvel, da fileira da madeira ou da extração de recursos naturais tivessem nova vida? É isso mesmo que a Fibrenamics Green pretende fazer. A plataforma integra os diferentes atores envolvidos na valorização de resíduos, juntando desde empresas que produzem os resíduos às várias entidades que o vão transformar num novo produto, acrescentar-lhe valor por via do design ou colocá-lo já no mercado. Uma comunidade empresarial que conta com mais de 100 parceiros, desde a Cabelte, o ISQ, o Ikea ou a Spal, entre outros. A vertente técnico-científica é assegurada pela Universidade do Minho em colaboração com o Centro de Valorização de Resíduos.

O projeto, que contempla um investimento elegível de 553 mil euros, foi apoiado pelo sistema de incentivo à transferência do conhecimento científico e tecnológico. O resultado são seis produtos inovadores que contam com “um plano de marketing e uma cadeia de valor para a sua colocação no mercado”, explica Raul Fangueiro, da Universidade do Minho.

Produtos como o Matteo Lamp, um candeeiro de mesa produzido a partir de resíduos de madeira de mogno e de cabos elétricos, a Junta, peça de mobiliário feita a partir de resíduos minerais de basalto, ou o Dress Your Pans, conjunto de protetores de louça metálica, elaborado a partir de resíduos têxteis (protegem contra queimaduras e mantém os alimentos quentes). Há ainda a Zouri, uma linha de calçado ecológica, o Facet Stool, um banco produzido a partir de resíduos de mogno, e o Kort, produto que é feito de plástico de um lado e tecido do outro, e que pretende ser o produto ideal “para criar áreas onde as crianças possam brincar, aprender e dormir de forma segura”.

Quinta de La Rosa já exporta mais de 80% dos seus vinhos
Reforçar e alargar a capacidade exportadora dos seus vinhos foi o que levou Sophia Bergqvist a submeter um projeto ao Norte 2020, com um investimento elegível de 407 mil euros e apoiado no âmbito dos incentivos à qualificação e internacionalização. Hoje, a Quinta de La Rosa exporta já 80% das 300 mil garrafas de vinhos do Porto e Douro que produz anualmente. E Sophia Bergqvist não tem dúvidas que, sem os apoios comunitários, a pequena empresa familiar não teria capacidade para se afirmar internacionalmente.

“No mundo do vinho temos de marcar presença em muitos eventos e estar constantemente fora tem custos muito elevados, sem apoios acho que nem metade das viagens conseguíamos fazer”, diz a empresária, que investiu 3,5 milhões de euros na renovação da propriedade duriense, na posse da família desde 1906.

Mas a promoção internacional dos vinhos e azeites da Quinta de La Rosa ajudam, ainda, ao crescimento do enoturismo, uma aposta recente, mas que gera já um terço das vendas da empresa, cujo valor global ronda os três milhões. Há três anos valia menos de 10%. “Quem vem ao Douro fica apaixonado”, refere Sophia. O que ajuda, depois, às vendas nos respetivos países de origem dos turistas. Americanos, canadianos, ingleses, franceses, alemães e brasileiros são os principais visitantes da quinta no Pinhão.

Presente em mais de 30 mercados, Inglaterra, EUA, Canadá e Suíça são os maiores clientes dos vinhos da Quinta de La Rosa. Suécia, Hong Kong, Singapura e Austrália são alguns dos mercados onde a empresa quer entrar. E, claro, “com o enorme crescimento da procura turística em Portugal, o mercado nacional não pode ser descurado, é hoje uma janela para a internacionalização dos nossos vinhos”, frisa Sophia Bergqvist.

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