Nova de Lisboa cria cidade de inovação "para todos" em Almada com 800 milhões de investimento

Investimento inicial maioritariamente europeu e de investidores privados é de 800 milhões de euros e promete criar nos próximos anos 17 mil postos de trabalho, mil novos fogos, trazer 4500 novos habitantes para a zona. O objetivo? "Tornar a área metropolitana de Lisboa a Silicon Valley europeia".

São mais de 100 hectares e 4 km2 de Innovation District. "Será verdadeiramente uma cidade da inovação e de harmonia entre cultura, tecnologia, conhecimento e a natureza (um quarto da área serão espaços verdes) com uma proximidade maior às praias (vão ficar a 10 minutos pelo metro do superfície) e a Lisboa, com novas e melhores ligações fluviais no Porto Brandão, com o aeroporto a ficar a 20 minutos".

Foi assim que um claramente entusiasmado vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, José Ferreira Machado, definiu o projeto, que começou por ser apresentado por Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada, que disse que este é o grande projeto para os próximos anos.

O projeto nas áreas circundantes do atual campus da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova de Lisboa irá estender-se pelas zonas do Monte da Caparica e Porto Brandão e é uma iniciativa liderada pela Nova de Lisboa com apoio do município local e de "vários investidores estrangeiros e nacionais".

Medeiros admite que se tratou de uma tentativa de juntar vários projetos que estavam separados e garante: "ao contrário de outras iniciativas megalómanas no passado que não tiveram a dimensão prometida, este vai ter e já está a acontecer, temos entre seis e oito projetos em análise na Câmara e prontos a arrancar".

Oásis sustentável para atrair talento e empresas

"Queremos criar um oásis sustentável (ambiental e financeiro) na Grande Lisboa, que terá escolas primárias e secundárias de excelente nível (parceria entre Nova e Almada), mobilidade ligeira moderna, novos hotéis, museus, um novo hub de inovação, um centro de congressos e irá reabilitar os centros históricos do Monte da Caparica e Porto Brandão", adianta Ferreira Machado que fala num projeto com mais espaço do que a área de intervenção da Expo 98 e bem mais ambicioso do que o moderno campus de Carcavelos da Nova SBE.

Além dos estudantes e investigadores, todas as pessoas, bem como startups e empresas de inovação "estão convidadas a viver e experienciar a nova cidade com conhecimento e tecnologia, moderna e sustentável onde todos querem trabalhar, aprender e viver".

Será, assim, um espaço não só para aprender mas também "excelente para viver e aproveitar os tempos livres" com aposta em área residencial de qualidade, mas também "no comércio, desporto, cultura e turismo de forma a atrair multinacionais de base tecnológica, startups e nómadas digitais de todo o mundo".

Vão renovar também nos próximos tempos o campus da FCT, todos os seus 27 edifícios, onde esperam ter apoio do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e para isso já estão a preparar candidatura. "Temos de melhorar estes edifícios que tiveram uma construção que não foi boa e estão distribuídos em nove hectares e dar-lhes eficiência energética", diz José Ferreira Machado, vice-reitor da Nova de Lisboa, admitindo: "se tivermos sucesso com a candidatura vamos conseguir a requalificação da parte já construída".

Além disso, vão arrancar com dinheiro do programa europeu 2020 já este ano com as obras para o novo hub tecnológico, criando também estruturas para superfícies comerciais e desportivas - o dinheiro europeu para o efeito tem de ter os projetos concluídos até 31 de dezembro de 2023. Também já foi aprovado pela Universidade para o campus da Caparica da criação de uma residência de estudantes que pode ir até 600 estudantes.

Uma coisa é certa para Ferreira Machado, "este projeto nunca será um elefante branco" porque está alicerçado "em vários investidores" e "num plano de longo prazo que vai gerar muito valor" e "não depende de investimento dos contribuintes".

Arquiteto Ricardo Bofill lidera urbanismo

O arquiteto catalão Ricardo Bofill deverá desenhar boa parte da base urbana da primeira fase do projeto (não foi esclarecido até que ponto), que deve decorrer durante 10 anos. Inês de Medeiros diz ser "um orgulho ter um arquiteto como este a sonhar connosco".

Bofill, um dos arquitetos mais influentes no mundo especialmente em projetos de urbanismo e planeamento de cidades apareceu em vídeo a explicar que quer ajudar a criar "algo único na Europa", num "projeto como uma obra de arte em comunhão com a natureza". Os seus trabalhos estendem-se de Nova Iorque a Marrocos, passando por França, Mónaco, Chicago e, claro, a sua Barcelona. Desenhou bairros em New Jersey, Paris ou Bordéus.

Silicon Valley europeia ao nível da Califórnia

Já ouvimos no Dinheiro Vivo gestores e CEO de empresas multinacionais falarem do potencial do Portugal como a Silicon Valley europeia. Isso mesmo disse-nos há uns meses o CEO da gigante da internet, Cloudflare, Matthew Prince - Cloudflare quer contratar mil e tornar Portugal na Silicon Valley europeia, "mas burocracia está no caminho".

Esse mesmo tema foi avançado por um dos principais investidores estrangeiros do projeto, que esteve no evento de apresentação onde também passou o reitor da Nova de Lisboa, João Sàágua, o secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias e o ministro da Economia Siza Vieira. O alemão Marcellino Graf von Hoensbroech que se mudou para Portugal há dois anos depois de viver em Barcelona é administrador do grupo imobiliário Gateway e criou em Lisboa em 2018 a Southshore Investments.

No evento garantiu que está comprometido com o país, embora não tenha sido revelado o nível de investimento da sua empresa. "Portugal é um país maravilhoso, espero ficar cá muito tempo, mas o país tem de ser inovador e mostrar que consegue avançar para aproveitar as mais valias que tem, senão serão outros países a aproveitar". Que mais valias são essas? As já conhecidas pela maioria e semelhantes à Califórnia como "bom tempo, população agradável e simpática, talento e boa localização geográfica".

O Innovation District vai ajudar a tornar a zona metropolitana de Lisboa "uma Silicon Valley da Europa", com o responsável a dizer que "competir com a Califórnia não é exagerado" até porque "têm mais parecenças do que Barcelona". Nesse aspeto este projeto em Almada tem "proximidade à praia, ao motor e coração do projeto que é a Nova de Lisboa e também a Lisboa", daí a aposta "num distrito de inovação com cultura e boas condições muito além de um parque empresarial para se viver bem de forma a atrair talento português e estrangeiro".

Von Hoensbroech lembra que Portugal "tem uma sociedade antiga que vai ser reduzida a nível demográfico nos próximos anos" e "devem atrair pessoas e empresas que têm algo para oferecer ao país". A competição não é só entre países, mas entre áreas metropolitanas por toda a Europa e Lisboa parece posicionar-se para competir com as principais na área de inovação, mesmo que Barcelona leve vantagem no tempo - "criaram um distrito de inovação logo nos anos 1990".

O gestor deixa ainda um desafio, admitindo que "a burocracia é complicada de gerir e um entrave para várias empresas que chegam ao país". "Vemos lentidão burocrática e complexidade também na Alemanha ou em Espanha, faz parte do sistema europeu mas se Portugal foi mais rápido e agilizar a burocracia lenta vai estar a ganhar à concorrência", adiantou.

Nessa área o secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, admitiu que Portugal pode fazer melhor e reconheceu que tem havido um esforço do AICEP e da sua área de Custos de Contexto para "ajudar os investidores com a burocracia entre várias entidades regionais, reguladoras e de licenciamento". "Tentamos promover melhor articulação entre estas entidades já que por vezes os projetos perdem-se neste processo e, mesmo que não consigamos apressar a burocracia, damos previsões certas para quando os projetos podem ser aprovados", explicou.

O governante lamentou ainda assim os conflitos "entre competências" das várias entidades que tornam a burocracia mais lenta e admitiu esperança que o PRR ajude a melhorar esses processos. Destacou ainda "a capacidade de Portugal atrair com boa vida" e "este tipo de investimentos para requalificar o território" talento português lá fora e estrangeiro elogiando o caminho feito pelas zonas de Lisboa e Porto e o projeto da Nova SBE em Carcavelos. "Ainda agora vai haver um investimento de uma empresa belga na Nova SBE que vai criar 60 postos de trabalho para pessoas de 15 nacionalidades", revelou.

Von Hoensbroech virou-se para Portugal depois de projetos de investimento e desenvolvimento em projetos imobiliários (zonas de escritórios) em Barcelona, mas também Luxemburgo. A Southshore Investments indica ter planos para desenvolver projetos residenciais, comerciais, industriais, turísticos e de escritórios em mais de 11 milhões de m2 em todo o país.

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