Coronavírus

Novo vírus ameaça economia. Recessão à vista?

DANIEL DAL ZENNARO/EPA.
DANIEL DAL ZENNARO/EPA.

Centeno diz que Eurogrupo está preparado para atuar e Bruxelas admite já aliviar as metas do défice para fazer frente à crise.

É o que os economistas chamam de cisne negro – um fenómeno imprevisível, raro e de consequências incertas e, por vezes, severas. O coronavírus (covid-19, na denominação oficial) surgiu do nada na China e pode causar danos sérios na economia mundial, não ficando circunscrito às fronteiras do gigante asiático. E é precisamente por causa desse gigantismo assumido na última década e meia que os efeitos colaterais do novo vírus podem ser maiores.

A importância da China nas cadeias de valor do comércio mundial e a massa de turistas que o país alimenta todos os anos são apenas dois dos canais por onde o covid-19 pode afetar as economias de todo o mundo.

O impacto é de tal forma certo que os principais organismos internacionais já começaram a incorporar os efeitos nas previsões mais recentes, retirando algumas décimas ao crescimento previsto para este ano. Por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) retirou uma décima ao crescimento global e quatro às previsões para o produto interno bruto (PIB) chinês. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, deixou claro na reunião dos governadores dos bancos centrais e ministros das Finanças do G20 que o covid-19 é uma emergência global de saúde, assumindo que o impacto será “relativamente pequeno e de curta duração”, mas quaisquer previsões são neste momento um tiro no escuro.

Na segunda-feira, dia 2 de março, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) vai divulgar as previsões intercalares, incorporando já os impactos do coronavírus nas previsões da instituição sediada em Paris.

Risco de reação exagerada?
Sendo um fenómeno imprevisível e de evolução rápida, a única ferramenta para avaliar os impactos na economia está no passado, comparando situações semelhantes à atual. E a mais próxima é a pneumonia atípica de 2003 que ficou conhecida como SARS (o acrónimo inglês de síndroma respiratória aguda grave).

Os primeiros casos da doença surgiram na província chinesa de Guangdong em novembro de 2002, mas o primeiro aviso à população só foi feito em fevereiro de 2003 e o alerta nacional apenas em abril. A doença causou a morte a cerca de 800 pessoas só na China.

Mas qual foi o impacto na economia? Um estudo de dois economistas do Banco Mundial concluiu que o impacto económico da SARS foi desproporcional à gravidade do surto, com o PIB a perder cerca de 0,5 pontos percentuais em 2003. “Os principais impactos económicos deveram-se à descoordenação, e por vezes pânico, de milhões de indivíduos na tentativa de evitarem a infeção, abandonando a área do surto ou reduzindo os contactos com outras pessoas.”

As previsões revistas pelo FMI apontam para uma contração de 0,4 pontos percentuais, representando uma variação do produto de 5,6% em 2020.

O problema maior ao comparar os dois fenómenos está na dimensão e no peso que a economia chinesa ganhou nos últimos 17 anos.

O PIB chinês cresceu oito vezes entre 2003 e 2019 de 1,7 biliões de dólares para 14 biliões de dólares, de acordo com o Banco Mundial. O peso no comércio internacional mais do que duplicou de 5,3% em 2003 para valores a rondar os 13% no ano passado. É o segundo maior importador de bens, a seguir aos EUA.

Além disso, o país é um importante fornecedor de componentes para diversos países, sobretudo na eletrónica, com o Japão, Hong Kong e EUA à cabeça. Ou seja, falhas nas cadeias de abastecimento podem abalar as grandes economias mundiais e não apenas pela queda das importações. Além disso, os turistas chineses são responsáveis por um quarto das despesas turísticas em todo o mundo.

Europa resiste?
A China é o maior fornecedor de bens da União Europeia e o segundo maior mercado de exportações. Em média, são transacionados bens e serviços no valor superior a mil milhões de euros por dia.

Só por este valor já se percebe a importância económica direta da China na economia europeia e portuguesa (ver página ao lado). Mas existem também os efeitos indiretos e a União Europeia (UE) está atenta. Ontem, o comissário europeu da Indústria, Thierry Breton, “solicitou aos Estados membros que enviem [à Comissão] dados agregados sobre o impacto nas cadeias de abastecimento”, referindo que entre janeiro e fevereiro cerca de 250 mil turistas chineses não viajaram para a UE.

O presidente do Eurogrupo, o português Mário Centeno, garantiu ontem, em entrevista à agência Reuters, que a zona euro “está pronta para atuar”, esperando que os impactos nos mercados sejam “temporários”. Bruxelas já admitiu aliviar as metas do défice, nomeadamente para a Itália, para fazer face a eventuais despesas não previstas com esta nova crise mundial.

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