Igualdade de Género

Num mundo onde a igualdade de géneros fosse plena, o que aconteceria à economia?

Fotografia: Luca Piergiovanni / EPA
Fotografia: Luca Piergiovanni / EPA

Num mundo em que a igualdade de géneros fosse uma realidade, o PIB mundial cresceria 26% até 2025.

Se mulheres e homens tivessem as mesmas oportunidades no mercado de trabalho, a economia global poderia enriquecer em 28 biliões de dólares (cerca de 26 biliões de euros, ou as economias dos Estados Unidos e da China juntas) já em 2025. Seria o equivalente a um crescimento de 26% do PIB mundial ao longo dos próximos dez anos.

A conclusão é de um estudo do McKinsey Global Institute, que relacionou a (des)igualdade de géneros com o desenvolvimento económico mundial, para concluir que 40 dos 95 países analisados tratam as mulheres de forma desigual ou extremamente desigual em, pelo menos, metade dos 15 indicadores. Entre eles, a percentagem de mulheres na força de trabalho e nos cargos de liderança, a disparidade salarial ou a representação na política.

Mulheres representam metade da população mundial em idade ativa, mas produzem apenas 37% do PIB mundial

Começando pelo panorama atual: as mulheres representam metade da população mundial em idade ativa, mas produzem apenas 37% do PIB mundial. Os valores diferem bastante de região para região: na Índia, as mulheres geram 17% do PIB; 18% no Médio Oriente e Norte de África; 24% no Sul da Ásia (excluindo a Índia); e 40% a 41% na América do Norte, Oceânia, China, Europa Ocidental e Ásia Central.

O cenário é mais preocupante se se considerar que a “baixa representação de mulheres em trabalhos remunerados contrasta com a sua maior representação em trabalho não remunerado”. De acordo com o estudo, são as mulheres que asseguram 75% do trabalho não pago, incluindo cuidar de crianças, de idosos, cozinhar e limpar. “Esta contribuição não é contabilizada na medida tradicional do PIB. Recorrendo a cálculos conservadores, estimamos que o trabalho não pago realizado pelas mulheres equivale a 10 biliões de dólares por ano, ou 13% do PIB mundial”, aponta a McKinsey.

Agora, o cenário ideal: num mundo em que a igualdade de géneros fosse plena – isto é, em que as mulheres tivessem uma participação idêntica à dos homens no mercado laboral, sem lacunas salariais ou de representatividade em alguns sectores e nos cargos de liderança – o PIB mundial cresceria 26% ao longo dos próximos dez anos, para 136 biliões de dólares (mais de 127 biliões de euros). Se a situação de desigualdade atual se mantiver, as estimativas apontam para que o PIB mundial fique pouco acima dos 100 biliões de euros em 2025.

Reconhecendo que esta é uma perspetiva pouco realista, já que “as barreiras que impedem as mulheres de aceder às mesmas oportunidades dificilmente serão eliminadas em dez anos”, a McKinsey desenhou um cenário menos ambicioso: bastava que cada país imitasse o seu vizinho mais igualitário para acrescentar 12 biliões de dólares à economia mundial até 2025, o que representaria um crescimento anual de 1% do PIB, ao longo dos próximos dez anos.

Infografia: Telmo Fonseca

Infografia: Telmo Fonseca

No caso da Europa, se se aplicasse esta máxima, haveria poucos exemplos a seguir. Portugal teria de olhar para as medidas implementadas na Noruega – o país europeu menos desigual no que toca a salários – para que as mulheres recebessem o mesmo (ou quase, visto que o nível de disparidade salarial na Noruega ainda é “médio”) do que os homens.

Apesar das diferenças regionais, o melhor dos cenários beneficiaria todas as regiões. A McKinsey calcula que o PIB aumentaria mais de 20% em 74 dos 95 países analisados se a igualdade de géneros fosse plena. O maior beneficiado – por ser o país mais desigual – seria a Índia, onde a economia poderia disparar 60%. Mas mesmo o PIB da Europa poderia crescer 23%.

Por cada 100 cargos nos ministérios e parlamentos de todo o mundo, só 22 são ocupados por mulheres

Para que a igualdade de géneros possa ser uma realidade no trabalho, há três elementos essenciais, aponta a consultora: igualdade na sociedade, desenvolvimento económico e mudança de atitude. No primeiro caso, as mulheres terão de ter o mesmo acesso à educação, à formação digital, a proteção legal ou a representação política, entre outros indicadores. Um caminho longo, considerando, por exemplo, que por cada 100 cargos nos ministérios e parlamentos todo o mundo, só 22 são ocupados por mulheres.

Isto leva ao desenvolvimento económico: “A análise de correlação sugere que o PIB per capita e urbanização de cada país estão fortemente ligados a praticamente todos os aspetos de igualdade de géneros na sociedade. O desenvolvimento económico pode criar o argumento para diminuir as lacunas entre géneros, desde que os países usem o maior crescimento do PIB para aumentar o investimento na inclusão social e na urbanização”, refere o estudo. Atingir a igualdade de géneros através do desenvolvimento económico é, porém, “um processo lento”, além de que o desenvolvimento económico “não tem um impacto decisivo na igualdade no trabalho e em vários outros indicadores”, como a violência contra as mulheres, reconhece a McKinsey.

Por fim, a mudança de atitude. “Até as sociedades relativamente igualitárias têm lacunas significativas. Isso reflete o facto de as atitudes culturais terem uma forte influência na definição do papel da mulher na sociedade e no trabalho”, diz o estudo. Como exemplo, refere que várias análises mostram que as mulheres acreditam que discutir com os maridos, recusar sexo, queimar a refeição ou sair sem avisar o marido são razões válidas para a violência doméstica.

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