O ano em que um vírus contaminou a economia

A 2 de março de 2020, Portugal registou os primeiros casos. Eis o impacto de um ano de covid.

Há quase um ano, Portugal registou os primeiros dois casos de covid-19. Duas semanas depois, vinha a primeira morte. No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou o surto de covid-19 como pandemia e no dia 19 foi declarado por cá o primeiro período do estado de emergência, que foi renovado a 3 e a 18 de abril.

Quase tudo mudou e quase todos os indicadores ficaram pior: da atividade económica à dívida pública, do saldo orçamental ao excesso de mortalidade. As Nações Unidas consideram tratar-se de "um ano como nenhum outro" por todas as alterações que o vírus SARS-CoV-2 causou e ainda ninguém sabe quando se poderá regressar à normalidade. Falta conhecer os efeitos futuros da pandemia e dos sucessivos confinamentos, sobretudo na educação, avisam os especialistas, dada a suspensão das aulas presenciais que podem agravar desigualdades na aprendizagem das crianças.

Olhando para os grandes números, vemos que, tirando o desemprego - mas já lá vamos - foi um ano negro. A começar pelo produto interno bruto (PIB).

Um final de ano pior
O PIB, ainda considerado o "rei" dos indicadores económicos, encolheu 7,6% no conjunto do ano passado, mas Portugal ainda conseguiu crescer nos últimos três meses do ano, superando as expectativas. Ontem, o Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou um ganho de 0,2% em comparação com o terceiro trimestre, mas menos do que os inicialmente apontados 0,4%.

O turismo, que tem sido um dos motores do crescimento da economia, sofreu no ano passado uma forte contração, face às proibições de deslocações e fecho de fronteiras.

A dívida pública explodiu, sendo que ainda não há dados para o conjunto do ano inteiro, mas no terceiro trimestre já estava 13 pontos percentuais acima do rácio de 2019.

O saldo orçamental voltou a entrar em terreno negativo de forma pronunciada. Até setembro, o défice atingiu os 7,7% do PIB.

Mas a pandemia obrigou os economistas a olhar para outros indicadores que apontassem caminho sobre o que se estava a passar na economia de uma forma mais rápida. São os indicadores de alta frequência, como é o caso do consumo de eletricidade. Ao longo do ano passado, acompanhou os confinamentos e desconfinamentos decretados pelo governo, bem como a reabertura das atividades. E, no conjunto do ano, registou-se o valor de consumo mais baixo desde 2005, considerando a correção de temperatura e de dias úteis.

O enigma do desemprego
Se é certo que o PIB registou uma contração sem precedentes, provavelmente a mais violenta desde os anos 20 do século passado, o desemprego não acompanhou, tal como é referido nos manuais de economia. A explicação está nos apoios massivos do governo para a manutenção do emprego através de mecanismos como o lay-off simplificado ou o apoio à retoma, que têm evitado um contingente de desempregados mais vasto do que o revelado pelas estatísticas oficiais.

Em causa, a forma como é contabilizada a população desempregada e que, devido às limitações na procura ativa de emprego e nos esforços feitos para encontrar um novo trabalho, acaba por empurrar estas pessoas para a categoria de inativas. Para se ser considerado desempregado é preciso preencher três requisitos em simultâneo: não ter trabalho (remunerado ou não); ter procurado ativamente emprego num período específico; e estar disponível para trabalhar.

A taxa de desemprego fechou o ano passado nos 6,8%, representando um aumento de apenas 0,3 pontos percentuais em relação ao ano anterior. E ficou quase dois pontos abaixo da última previsão do governo.

Para ultrapassar esta limitação do próprio indicador, o INE publica a subutilização do trabalho. Trata-se de uma forma mais alargada de medir o desemprego e que pode traduzir-se na taxa de subutilização do trabalho, que no ano passado se fixou nos 13,9%, mais 1,2 pontos percentuais do que em 2019.

A crise também está a afetar mais os trabalhadores com salários baixos, baixa qualificação, precários e jovens. "Esta não é uma crise da burguesia", considera a economista Susana Peralta, da Nova SBE, lembrando que "as profissões intelectuais são as mais suscetíveis a entrarem em teletrabalho, sem o respetivo corte salarial", assinala.

Mais mortalidade
Também os indicadores de saúde pública tiveram um ano negativo, se medidos, por exemplo, pelo excesso de mortalidade. O dado recolhido pelo Eurostat mede a percentagem adicional de óbitos, comparando com a média mensal, entre 2016 e 2019.

De acordo com o Eurostat, o pico terá sido atingido em novembro do ano passado (25,9%), tendo ficado em dezembro nos 20,2%. E este dado pode ter consequências ainda nos próximos anos, com a diminuição da esperança média de vida aos 65 anos, diminuindo a idade legal de acesso à reforma.

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