Eleições EUA

O ‘bull’ de Wall Street ainda dará asas a Donald Trump?

(REUTERS/Eduardo Munoz)
(REUTERS/Eduardo Munoz)

O Presidente dos EUA tem sido o principal agitador dos mercados, que não cederam em dois anos de período republicano. Mas, até 2020, tudo irá mudar.

Com maior ou menor oposição no Congresso, Donald Trump terá dois anos menos suaves pela frente. Neste ponto intercalar do ciclo político americano, a economia já não é só criação de emprego e um PIB a acelerar junto aos 3%. O efeito do alívio de impostos dá sinais de esmorecer, a subida nos custos de importar ameaça tornar-se visível, o endividamento das cotadas já é conversa de mercado e, depois de um outubro turbulento, este bull de Wall Street pode estar finalmente a baixar a cabeça após mais de nove anos de vigília.

Donald Trump tem muitas vezes colado a sua atuação ao desempenho dos mercados, mas daqui para a frente, dizem os analistas, o Presidente americano terá menos condições para excitar as bolsas a toque de tweets diários – e, provavelmente, terá antes razões para começar a descolar do índice S&P. A conversa da nação, antecipam, também passará a ser outra: mais focada na macroeconomia e nos efeitos fiscais das políticas do líder republicano.

“Em menos de um ano, a política fiscal dos Estados Unidos passou de aceleradora de crescimento para um fardo nas mentes de participantes de mercado cada vez mais preocupados”, diz a Eurasia.

“A política dos EUA entre as intercalares e as eleições de 2020 será provavelmente dominada pela política macroeconómica na ausência de um salto de produtividade que não é antecipado e de crescimento real, como sugerem os dados de inquéritos de opinião pública e as estatísticas do governo”, previu já a Eurasia, consultora de risco político para os mercados financeiros, em nota que remeteu ao Dinheiro Vivo.


Veja aqui a evolução dos principais indicadores da economia norte-americana desde a eleição de Donald Trump.

Até aqui, os dados do desemprego – com uma taxa de 3,7% desde setembro, em mínimos que não se viam desde 1969 – e um mercado de ações inquebrável até ao início deste outono – o índice S&P 500 segue a valorizar já perto de 30% desde que Trump foi eleito – têm sido credenciais do Presidente que em dezembro do ano passado desceu também o principal item de tributação às empresas de uma taxa de 35% para 21% – e que começa também a libertar algumas instituições do sector financeiro das obrigações de capital impostas pela regulação pós-recessão.

Mas, “em menos de um ano, a política fiscal dos Estados Unidos passou de aceleradora de crescimento para um fardo nas mentes de participantes de mercado cada vez mais preocupados”, diz a Eurasia.

A estimativa preliminar do crescimento do PIB norte-americano no terceiro trimestre já indica uma desaceleração (abrandou de 4,2% no segundo trimestre para 3,5% no período seguinte até setembro). Segundo o FMI, a economia deverá ainda expandir-se em 2,9% nos 12 meses deste ano, e recuar para um crescimento de 2,5% em 2019.

Ainda não há alarme, mas há avisos mais sonoros. Antigos presidentes da Reserva Federal têm vindo a antecipar desafios, como Paul Volcker. Allan Greenspan deu uma entrevista à Barron’s e avisou que, visto de hoje, o futuro da economia norte-americana não parece bom e terá tendência a piorar. Janet Yellen, antecessora de Jerome Powell na liderança da Fed, alertou para uma “enorme deterioração” nas situação de financiamento das empresas, que está a representar risco sistémico acrescido.

A dívida total do governo federal deverá voltar a subir este ano em percentagem do PIB, para uma taxa de 106,1%. Não só haverá menos espaço fiscal para manter estímulos como a descida de impostos, como a subida dos juros da Reserva Federal (que poderão conhecer novo incremento em dezembro) e a escalada das yields das obrigações do Tesouro trazem novos problemas em acumulação. Muitas poderão ser apanhadas desprevenidas, alerta o Instituto de Finanças Internacionais (IIF).

“Quase 20% das empresas dos Estados Unidos enfrentam dificuldades em cobrir a despesa de juros com os ganhos atuais, mas o problema é especialmente agudo para as pequenas empresas”, avisa o Instituto de Finanças Internacionais.

“Conforme a maré de otimismo recua, o aforismo de [Warren] Buffet de que muitas empresas serão encontradas a ‘nadar sem roupa’ pode mostrar-se particularmente apto. Tal como continuamos a avisar, o aumento da dívida das empresas – ainda que não seja problema imediato para as grande firmas nas economias maduras – representa um risco futuro significativo num ambiente de subida de taxas de juros”, diz o consórcio de estudos económicos que acompanha com especial atenção o endividamento global.

“Há outros sinais sobre a saúde das empresas que passaram a amarelo intermitente”, avisa. Os economistas do instituto anotam menores margens de lucro e um retorno mais baixo sobre os ativos, maior dependência da dívida a curto prazo, aumento dos custos de financiamento, endividamento maior em relação aos resultados de operações e deterioração nas condições de liquidez no curto prazo.

O IFF afirma que, tal como em 2009, duas em cada 10 empresas americanas indiciam agora menor capacidade de responder aos compromissos.“Quase 20% das empresas dos Estados Unidos enfrentam dificuldades em cobrir a despesa de juros com os ganhos atuais, mas o problema é especialmente agudo para as pequenas empresas”, escreve em nota de análise. Nas chamadas small-caps, com valorizações bolsistas que em regra não excedem dois mil milhões de dólares, metade exibem agora rácios baixos de resultados antes de juros e impostos sobre os custos de financiamento das operações.

“À medida que as taxas de juros subirem mais, esperamos um abrandamento no investimento das empresas para 2,8% em 2019, de 7,2% neste ano”, prevê a Capital Economics.

Também a Capital Economics aponta que “o aumento dos custos de financiamento nos últimos anos está já a alimentar menor investimento residencial”. “À medida que as taxas de juros subirem mais, esperamos um abrandamento no investimento das empresas para 2,8% em 2019, de 7,2% neste ano”, diz a consultora, que aponta a “ironia” de a aposta das empresas estar a regredir após os cortes de impostos.

Por outro lado, mesmo que muitos negócios se tenham mantido ao lado da política comercial de Donald Trump (o banco UBS via este verão uma taxa de aprovação de 71% para as sobretaxas impostas à China), há “crescente incerteza” entre as empresas, segundo esta consultora. Mesmo que os dados não apontem ainda uma subida acentuada nos custos das importações. A Capital Economics prevê que as tarifas “darão apenas um impulso modesto à inflação”, que continuará a pairar rente à meta de 2% da Reserva Federal.

Entre o sector tecnológico americano, houve já um bom número de tecnológicas a descontar efeitos das tarifas da guerra comercial aberta por Trump – casos da Apple, Dell e Intel – mas várias outras chegaram a protestar contra estas medidas da Administração em audição do Departamento de Comércio dos Estados Unidos – caso de uma representação importante do sector automóvel.

“No fim de contas, os investidores quererão saber se e em que medida a deterioração das relações comerciais globais teve impacto nos resultados das empresas”, escrevem os analistas do serviço a investidores da Allianz.

O grau deste impacto será outra determinante do cansaço do bull financeiro americano. Também com juros a subir e sumidos os efeitos da baixa de impostos, o abrandamento económico previsto não será favorável à manutenção da escalada. Liam Peach, analista da Capital Economics estima que o S&P 500 recue até ao final de 2019 para os níveis observados no final do verão do ano passado – 9% abaixo do nível atual. Talvez limitando o próximo voo eleitoral de Donald Trump.

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