Conversas PortoBay

O crowdfunding “distorce a consciência política e social da greve”

Lisboa- 15/02/2019. Conferencias  "30 Portugueses 1 Pais " Conversa entre Jer—nimo de Sousa e o jornalista Lu’s Os—rio no Hotel Portobay. Na imagem Jeronimo de Sousa.
(PAULO SPRANGER/Global Imagens)
Lisboa- 15/02/2019. Conferencias "30 Portugueses 1 Pais " Conversa entre Jer—nimo de Sousa e o jornalista Lu’s Os—rio no Hotel Portobay. Na imagem Jeronimo de Sousa. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Jerónimo de Sousa foi o convidado do ciclo de entrevistas públicas 30 Portugueses, Um País, organizado pelo grupo hoteleiro madeirense Portobay.

Jerónimo de Sousa não concorda com a forma encontrada pelos enfermeiros para financiar a atual greve às cirurgias no serviço público de saúde. Nesta semana, durante o ciclo de conversas 30 Portugueses, Um País, evento promovido pelo grupo hoteleiro Portobay, o secretário-geral do PCP defendeu que o crowdfunding “distorce e subverte a consciência política e social da greve.” A greve que, sublinha, era proibida e passou a ser um ‘direito de abril’ conquistado a pulso e inscrito na Constituição.

“Eu fiz muitas vezes greve e com isso perdíamos o dinheiro do salário.” Mas o facto dos dias de greve serem descontado ao fim do mês não era uma coisa má. Muito pelo contrário: isso conferia a Jerónimo de Sousa e aos seus companheiros um ímpeto para a luta: “Dava-nos ainda mais consciência do que estávamos ali a fazer.”

Ora, esta nova forma de financiamento de projetos, obras e movimentos através de plataformas na Internet de angariação de fundos junto de uma grande quantidade de pessoas (crowd) serve para precisamente compensar a perda de rendimento dos grevistas. Neste caso, a plataforma de financiamento colaborativo usada, o PPL- Crowdfunding Portugal (https://ppl.pt), serve para pagar aos enfermeiros o dinheiro do salário perdido e garantir a pressão durante mais tempo.

Uma posição que não surpreende vinda de quem vem. Uma opinião que é a cara do líder comunista, uma face dura, cheia de traços e marcas da luta contra os donos do capital. As ideias não mudam: “temos um ideal que é um projeto de transformação social.” Em plena revolução digital as suas palavras são as mesmas de sempre: “queremos libertar o ser humano da exploração do homem.” Ou será da máquina?

O Partido Comunista Português tem 98 anos de vida e “tem raízes profundas na história de luta do país.” O lema do partido continua a exclamar: “As vitórias não nos descansam e as derrotas não nos desanimam.”

Ele próprio tem origem numa família da classe operária do concelho de Loures. Ainda hoje se vê como operário da metalurgia, o mesmo que começou a afinar máquinas na MEC – Fábrica de Aparelhagem Industrial. Quando vai às fábricas falar com os operários ou às minas apoiar os mineiros – como aconteceu há dias nas minas de Aljustrel na sequência de um acidente-, reconhece que o sentimento é: “eu sou um deles; ele é um dos nossos.” Contou a Luís Osório – um dos mentores desta iniciativa de entrevistas públicas a portugueses que se destacam-, que por onde passa é tratado por camarada. “Onde moro todos me tratam por camarada, mesmo pessoas do PS ou PSD.”

E quem conhece a sua vida compreende o homem em que Jerónimo (deram-lhe o mesmo nome do seu padrinho) se tornou. O seu destino parecia já estar traçado à partida, tal como para todos os filhos de operários. Quando lhe perguntavam o que queria ser não lhe passava pela cabeça dizer outra coisa a não ser operário ou outra profissão braçal. Não havia condições para estudar além do ensino primário e aos 14 anos tinha de começar a ganhar dinheiro. O professor da quarta classe do ensino primário uma vez disse-lhe: tu tens de ir estudar, diz à tua mãe. Mas como? A sua mãe Olímpia reagiu descrente.

Jerónimo de Sousa não seria um operário como os outros. A diferença começou a fazer-se pela leitura. “Lia muito. Aproveitava a biblioteca itinerante da Gulbenkian.” Lá em casa não havia livros, os pais não sabiam ler nem escrever. Na fabrica cedo se destacou: em 1972 foi eleito pelos trabalhadores da MEC como delegado e conseguiu devolveu à classe o Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa.

Um dia foi chamado à rua António Serpa, a primeira sede do PCP, e Álvaro Cunhal disse-lhe: Jerónimo: vais para deputado constituinte. “Como é que isso se faz, perguntou-lhe. “Tu estás habituado a falar para plenários de mil trabalhadores, sabes defender os seus direitos, os direitos do trabalho, o direito à greve, a contratação coletiva…, saberás muito bem o que fazer”, encorajava um dos seus ídolos por quem tem “profunda admiração- que não é sacralização”, especificou.

Hoje, respeita António Costa e define Catarina Martins como “uma mulher despachada, inteligente, que tem conseguido criar espaço próprio.” Considera que o país perdeu muito com as decisões de Cavaco Silva, especialmente com as privatizações. Com “um estilo muito diferente” está Marcelo Rebelo de Sousa, que considera não ter perdido o jeito de analista e a quem aconselha saber “ouvir mais”.

Acredita que a desigualdade social tem origem no aumento da exploração e na riqueza concentrada na mão de poucos. Nas relações entre trabalhadores e conselho de administração das empresas, Jerónimo de Sousa não vê facilitada a ideia dos sindicatos terem formalmente um lugar no Conselho de Administração, à semelhança do que acontece nas grandes empresas na Alemanha.

“A nossa Constituição prevê a intervenção, o diálogo e que a Comissão de Trabalhadores possa dar o seu contributo para a resolução dos problemas que mais afetam as pessoas no âmbito do Conselho de Gestão. Isto além da contratação coletiva.” Mas são condições difíceis de realizar porque, explica, seria “Tudo igual, menos a distribuição de rendimentos”, referindo-se à discrepância salarial que existe entre quadros de topo e os colaboradores dos níveis mais baixos da hierarquia.

O ciclo de conversas 30 Portugueses, um País começou em maio de 2018 e termina em fevereiro de 2019. Estes encontros semanais no hotel Portobay Liberdade, em Lisboa, com portugueses que se destacam darão origem a um livro editado pela Guerra e Paz, a publicar no final de 2019.

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