O emprego de sonho em Portugal? Ser gestor numa multinacional

Estudo. Ao fim de 10 anos de carreira, um gestor de uma multinacional tem aumento salarial superior a 20%. No mercado interno, ganho fica-se pelos 5%

O conceito de “emprego de sonho”, de emprego “bom” ou “mau”, é complexo e discutível, mas três economistas italianos (um deles do Banco de Portugal) foram analisar as enormes bases de dados do Ministério do Trabalho desde 1991 (Quadros de Pessoal) e conseguiram concluir alguns factos sólidos.

O emprego de sonho em Portugal, que se coaduna com a ideia de “bom emprego”, é para alguém que tem qualificações altas, experiência internacional e diversificada, que consegue conservar os benefícios alcançados de emprego para emprego (“portabilidade”), mas, acima de tudo, alguém que trabalha em empresas viradas para o exterior, multinacionais, aponta o estudo.

Se for no setor dos serviços (financeiros, consultadoria, etc.), tanto melhor: aqui o prémio salarial por trabalhar numa empresa internacional supera facilmente os 25% em dez anos de carreira no caso dos gestores.

O mesmo tipo de profissionais numa empresa cujo mercado é interno tem uma progressão magra, com um acréscimo salarial em redor dos 2% ao longo de uma década. Tendo em conta a inflação, pode-se mesmo afirmar que estes gestores do setor dos serviços praticamente estagnaram em termos salariais.

Na indústria, a progressão salarial e as condições de trabalho também são relativamente mais vantajosas para os gestores, mas não em sempre em crescendo como nos serviços. Um gestor da indústria obtém ganhos salariais crescentes que chegam a 30% ao fim de seis anos de carreira, mas esse incremento depois torna-se mais moderado nos anos seguintes.

A progressão entre os chefes, os gestores de topo, das multinacionais é evidente seja qual for o setor. Já os empregados subalternos (os chamados blue-collar, operários, que não têm competências de chefia) também progridem mais numa multinacional, mas pouco.

Ou seja, seja qual for o caso (vendo a média dos setores, nos serviços ou na indústria), a desigualdade no crescimento dos salários é assinalável. Nas multinacionais, o fosso é enorme: os chefes e decisores progridem sempre muito mais rápido. Os outros, hierarquicamente abaixo, ficam virtualmente estagnados.

Nas empresas do mercado interno, a dispersão existe a favor dos chefes, mas é muito mais suave.

Como referido, o estudo “Dream Jobs” , de Giordano Mion (Universidade de Sussex, Inglaterra), Luca David Opromolla (Departamento de Estudos do Banco de Portugal), Gianmarco Ottaviano (Universidade de Bocconi, Itália), passou a pente fino as enormes bases de dados históricas do Ministério do Trabalho, cobrindo várias décadas de dados.

Este trabalho de investigação acaba de ser publicado por dois institutos alemães de referência, IZA e CESIfo.

Por exemplo, ao fim de 10 anos de carreira, um gestor de uma multinacional teve um aumento salarial superior a 20% face ao momento de entrada (média da amostra total, com serviços e indústria): já o gestor (médio) de uma empresa que viva do mercado doméstico só ganhou mais 5% nesta década em análise.

 

No grupo dos empregados blue-collar (os tais trabalhadores não-chefes) registam-se aumentos quase irrisórios num horizonte de 10 anos, mas os das multinacionais, mesmo assim, ainda conseguem alcançar um prémio maior. Mas nada de especial para dez anos de carreira.

A desigualdade na progressão salarial é, portanto brutal, quando se compara o universo das multinacionais com o das empresas viradas para o mercado interno.

Os três investigadores concluem que “em primeiro lugar, nas empresas internacionalmente ativas, o perfil salarial é muito mais acentuado do que nas empresas nacionais, especialmente no caso dos gestores em oposição aos operários ”.

“Em segundo lugar, o maior rendimento salarial ao longo da vida dos gestores em empresas internacionalmente ativas depende da acumulação mais forte de experiências valiosas e da portabilidade (quase) perfeita dos ganhos salariais acumulados” quando mudam para outras empresas, rematam os autores.

Estes dizem ainda que “não é fácil identificar e distinguir empregos bons de maus”. “Por exemplo, a maioria das pessoas concordaria que, para um especialista em TI (tecnologias da informação), trabalhar para a Google seria um 'bom' trabalho pois fornece um ambiente de trabalho vibrante e pode mudar toda a carreira de um trabalhador, afetando substancialmente o seu rendimento salarial ao longo da vida”.

“No entanto, a avaliação pode ficar mais complexa e discutível quando se consideram outras ocupações ou locais de trabalho. Além disso, não está claro se o efeito positivo que um 'bom' emprego tem sobre a rendimento salarial ao longo da vida é principalmente devido a um efeito estático (ou seja, um 'salto salarial' quando se assume esse emprego) ou a um efeito dinâmico (ou seja, um crescimento salarial mais rápido 'depois de aceitar o emprego')”.

Além disso, os investigadores notam que um bom emprego também pode ser aquele que permite a “portabilidade” dos benefícios entretanto alcançados quando se muda para outro emprego.

Outra explicação para o ambiente mais favorável nas empresas multinacionais, diz o estudo, é que estas tendem a ser “maiores e mais produtivas”, “pagam salários mais altos” e “também são locais de trabalho mais vibrantes graças às melhores práticas de gestão, aos gestores com experiência mais diversificada” e ao facto de a sua atividade envolver mais interações entre vendedores e compradores. Têm mais mundo.

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