Grécia

O fim da tragédia grega já tem data marcada

Primeiro ministro grego, Alexis Tsipras (Fotografia:  EPA/ABIR SULTAN)
Primeiro ministro grego, Alexis Tsipras (Fotografia: EPA/ABIR SULTAN)

Em agosto a Grécia fica livre de um resgate que dura há oito anos. Mas os desafios não ficam por aí

Foram o símbolo de uma Europa caída em desgraça. Carregaram às costas sete anos de austeridade. Numa altura em que o sol começa a brilhar nos países castigados pelo furacão troika, os céus de Atenas continuam carregados de nuvens. Será 2018 o ano de viragem para a Grécia? O calendário indica que sim. A 20 de agosto, oito anos e 119 dias depois, o programa de resgate à Grécia chega por fim, ao fim.

Mas a subida ao Olimpo não será livre de obstáculos. “O pior da crise provavelmente já passou, mas não pensemos que em 2018 as coisas vão mudar de repente para melhor”, considera Nick Malkoutzis, diretor do portal grego MacroPolis, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo. A explicação é simples. “Após a terceira revisão ao atual programa de resgate, que está agendada para 22 de janeiro, a economia deverá melhorar.

O país vai regressar aos mercados com novas emissões de títulos, a economia vai crescer, os credores terão de chegar a um acordo sobre o alívio da dívida e, finalmente, o programa de ajuda vai chegar ao fim, e não podemos subestimar o impacto psicológico positivo que isto vai ter”, destaca Malkoutzis. Porém, nesta maratona que dura desde 23 de abril de 2010, ainda há muitos quilómetros para correr. “Há problemas estruturais que persistem.

Como por exemplo o facto de os bancos não estarem a funcionar como instituições de crédito, o que tem um impacto negativo na liquidez disponível, além de que as taxas são proibitivas. A somar a isso temos a administração pública, que continua em muito mau estado, apesar de ter menos pessoas, e ainda os obstáculos burocráticos que continuam a colocar-se às empresas”, sublinha o diretor do MacroPolis.

Além da dignidade, os anos da crise roubaram à Grécia um quarto do Produto Interno Bruto. O orçamento para 2018 apresentado pelo Governo de Alexis Tsipras inclui uma previsão de crescimento da economia de 2,5% e a promessa do começo de um “novo ciclo de estabilidade económica”. Já este ano, o PIB de Atenas deverá descolar 1,6%, naquele que será o primeiro crescimento real da economia em quase uma década.

O excedente primário, requisito exigido pelos credores para libertar os milhões do terceiro resgate, será de 2,44% este ano e 3,82% no próximo, acima do compromisso assinado com a troika. Aos poucos, a vida em Atenas volta ao normal.

“O próximo ano será de extrema importância para a Grécia e poderá ser o ponto de viragem para a recuperação. Até ao momento tem havido um comprometimento total para a implementação do programa de estabilidade europeia e estão a ser ultimadas todas as medidas impostas pelo FMI. Um dos grandes desafios será perceber se o país terá condições para regressar aos mercados financeiros de forma estável e sustentável”, lembra João Tenente, gestor da corretora XTB.

Para já, a maré está de feição. No verão, o país emitiu dívida pela primeira vez em três anos. Já este mês concretizou com êxito, procura robusta e juros mais baixos um leilão de dívida a três meses. Mesmo sendo a única carta fora do baralho do BCE.

Para Nick Malkoutzis, que sabe de cor os meandros da crise, a chave do sucesso está mão dos líderes políticos.

“É necessário que tenham uma nova visão para o país. Nos últimos sete anos o país foi tratado como um prisioneiro na solitária, com horas para comer, dormir, fazer exercício. Não houve espaço para desvios. A partir do próximo verão os líderes políticos terão a responsabilidade de decidir que rumo querem dar ao país. E isto inclui encontrar uma forma de tornar o país mais atrativo para os investidores. O FMI prevê que o país vai crescer em média 1% a longo prazo. E isso não é suficiente para um país que sofreu tanto. Só grandes quantidades de investimento poderão mudar a trajetória do país. E eu tenho as minhas dúvidas sobre as capacidades do sistema político grego para atrair investidores”, conclui Malkoutzis.

O último acordo que a Grécia assinou com os credores, no início de dezembro, inclui uma lista de 100 medidas que o governo de Atenas terá de implementar em 2018. Setor energético, sistema financeiro, administração pública ou apoios sociais são algumas das áreas que vão sofrer mexidas. Em troca, o país vai receber uma tranche de 5,5 mil milhões de euros já em janeiro.

Após oito anos de caminhada no deserto, nos quais devorou vorazmente mais de 240 mil milhões de euros, Atenas parece por fim no rumo certo para que a ambicionada saída limpa não fique para as calendas gregas.

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