empreendedorismo

O futuro dos negócios está na Firma

Bernardo Theotónio-Pereira e Bernardo Pires de Lima, junto a uma das obras de artistas portugueses que compõem a sede da FIRMA.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Bernardo Theotónio-Pereira e Bernardo Pires de Lima, junto a uma das obras de artistas portugueses que compõem a sede da FIRMA. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Com capitais próprios e informação como alma do negócio, criaram uma empresa para ajudar outras. E querem tornar Portugal no melhor país do mundo

Bernardo e Bernardo viveram ambos fora em alguma altura das suas vidas e ainda que tenham perspetivas distintas dessa experiência partilham a ideia de que isso os transformou. Com um efeito claro: a vontade de tornar Portugal no melhor país do mundo. Objetivo ambicioso? “Além de gostarmos muito de Portugal, acreditamos no potencial do país e no poder de cada um contribuir na sua medida para o melhorar. Quem quer ter um 20, não pode estudar para dez”, simplifica Bernardo Pires de Lima, “não podemos ter a ambição de subir um ou dois lugares na competitividade, por exemplo, temos de nos dedicar a tentar atingir o topo para obter uma subida real e sustentada. Sermos capazes de disromper, com total liberdade.”

Ao lado de Bernardo Theotónio-Pereira e de Vicente Caldeira Pires, é nisso que trabalha desde que os três se tornaram sócios na Firma – Agência Portuguesa de Negócios privada. Arrancaram com capitais próprios, sem dívida nem investidores externos – “acreditamos no nosso posicionamento, o que é algo original em Portugal, e assumimos o risco, isso também nos responsabiliza”, explica Theotónio-Pereira, o managing partner. Mas essa não é a única originalidade da Firma, criada em 2016 para “proteger, fomentar, apoiar e executar os interesses e as necessidades das empresas portuguesas no mundo”.

Sob o slogan “olhar para o futuro para preparar o presente”, a agência tem como base “a informação e a negociação estratégica”. O que faz? Simplificando, gere à medida dos projetos dos clientes, ajudando-os a antecipar engulhos e alcançar resultados. “Representamos instituições para missões locais ou internacionais. Mas focamo-nos antes de tudo em entender o que querem e só então avançamos para montar equipas de advisors multidisciplinares e multigeracionais capazes de acrescentar valor e facilitar o trajeto das empresas portuguesas que querem crescer ou de investidores estrangeiros que querem entrar aqui.”

Conscientes de que hoje apenas com um business plan não se vai muito longe, apoiam-se numa série de fatores: “Em primeiro lugar, é preciso os investidores saberem o que querem, e só então podemos dar-lhes informação, ajudá-los a interpretar o mundo ou o país, as decisões políticas e os muitos fatores exógenos que impactam nos negócios. Por isso não trabalhamos com todos.”

Na verdade, de 115 clientes que os abordaram só aceitaram 11 – “a maioria não era indicada para nós, por isso preferimos focar-nos nos poucos que o eram, e concretizámos 97% dos objetivos propostos”. E isso fica claro assim que são aplicados os filtros que criaram: além de ter bem definido aquilo que quer, o cliente tem de se adaptar eticamente à forma de atuar da Firma, tem de seguir as regras de compliance. “E tem de haver empatia entre nós e o cliente, porque representar alguém neste mercado tão dinâmico não vale só pelo dinheiro.”

Dizem que há bom dinheiro e mau dinheiro e têm muito clara essa definição: não dão a mão a quem se move pelo lucro, focam-se antes em trazer investidores internacionais que estejam dispostos a gerar valor às empresas e ao país, e em apoiar empresários nacionais que querem maximizar resultados. “O dinheiro é uma commodity e em Portugal há pouco dinheiro concreto – há fundos de fundos de fundos… –, nós temos de encontrá-lo, saber de onde vem na medida de garantir que tem nas suas raízes e agentes uma lógica de valorização.” O posicionamento da Firma é, portanto, menos assente no valor final de determinado ativo e mais no processo. “É essa a nossa marca, damos mais valor ao caminho do que ao desfecho”, e é por isso que dizem que “a Firma serve para ajudar o país”.

“Mexemos mais no lado material do tecido empresarial e menos no especulativo – isso também é um posicionamento geracional, não queremos engrossar a especulação.” Outro traço da sua geração, defendem, é a oposição à alavancagem. “Infelizmente, hoje, o tecido empresarial português está descapitalizado. Nos processos de aquisição de empresas em que temos participado, o mecanismo de aquisição passa pela aquisição da dívida, totalmente controlada pela banca que, infelizmente, não tem uma visão empresarial e empreendedora do mercado. Faltam empresários na banca que percebam as reais necessidades das empresas e dos acionistas. Por outro lado, existem uma série de ativos – empresas – muito interessantes para a maximização de valor da economia nacional que estão em estruturas paralelas à banca – os fundos de recuperação ou as private equity nacionais – com um balanço constituído por ativos cedidos pela banca e tendo uma remuneração fixa para os gerir. Esta situação inviabiliza muitos negócios pois o foco está na remuneração fixa choruda que a banca paga em vez da transformação, maximização ou da venda do mesmo a quem possa gerir melhor. Mas se o fizerem, perdem a remuneração fixa. Temos de trocar essa loucura capitalista pela preocupação em assegurar retorno real. É bom faturar mas gerando valor à nossa sociedade e ao país. É nesse contexto que nasce a Firma.”

A elasticidade nas soluções é outra característica distintiva, que deixa a Firma confortável para aceitar clientes em setores tão distintos como as infraestruturas, a tecnologia, a energia e a educação, as áreas onde já se move. “A tendência é pormos sempre em causa a nossa performance e por isso já estamos a mudar o foco para em breve começarmos a representar equity, por exemplo, que vai ser essencial.”

Pelo momento que Portugal vive e fatores como a estabilidade política e a segurança, tem havido muito interesse de investidores no país, mas “muitas vezes o estrangeiro não sabe navegar no quadro português, não o entende nem pode entender subtilezas como as matizes entre privado e esfera pública…”. É aí que as informações asseguradas pela Firma ganham especial sentido. Como na ajuda a determinar em que setores faz sentido investir num dado momento. No fundo, a agência guia o cliente, relacionando-se com ele de forma “totalmente institucional e transparente. Não abdicamos disso.”

Pires de Lima lembra que poder é informação – não só geopolítica, mas saber que há linguagens diferentes na banca e nos conselheiros legais, por exemplo. Por isso apostam em trazer expertise capaz de anular entropias e daí ser tão importante juntar a equipa certa para trazer valor a cada cliente ou missão concreta.

E qual é o principal fator de desânimo dos investidores que aqui chegam? A resposta chega em coro: o tempo das decisões. “Em obras de alguma dimensão, por exemplo, que têm sempre uma parte de decisão política associada e cujos timings não são os do investidor. E depois há uma certa falta de transparência, no sentido em que dizemos logo que sim a tudo, mas depois ligamos o complicómetro e há surpresas sucessivas”.

Aqui, o papel da agência não é de pressão mas de agir num momento anterior, explicando aos investidores esses anátemas portugueses, o que têm de esperar se vão investir aqui. “Se são apanhados de surpresa, acabam por fugir para outras realidades mais ginasticadas, por isso estes procedimentos ajudam, por isso a informação é a base do nosso negócio e decorre também daí a importância de criar as equipas certas para assistir cada empresa ou missão.”

Nesse encontro, a geração de confiança é chave fundamental para uma negociação bem sucedida (“90% dos negócios entalam nos advisors”, especifica Theotónio-Pereira), mas também não se abdica da eficácia e do foco: ninguém se senta à mesa de reuniões sem haver verdadeira intenção de se levantar com o negócio fechado.

Esta constituição de equipas passa maioritariamente por elementos com que a Firma conta numa base regular, mas foi também gerada uma rede global de parceiros que pode ser chamada a intervir quando essa seja considerada a solução ideal para o caso. É essa análise dirigida que dá à agência um traço especial.

Assinatura da Firma é a consciência de que “é preciso pensar a dez anos para perceber como as coisas impactam já em 2019”, explica Pires de Lima. “É preciso pensar como o nosso parceiro indiano ou americano vê o mercado para prepararmos caminho.” Esse estudo e a recolha de informação “dá-nos argumentos para os clientes escolherem Portugal dentre um portefólio de países onde podiam investir”, junta Theotónio-Pereira.

Quanto às empresas nacionais, o apoio não é menos relevante. “Temos uma economia cujo investimento público assenta a 80% em dinheiro de Bruxelas mas que não sabe o que se passa lá e estando tão dependentes das exportações, no mínimo temos de conhecer a fundo os nossos cinco principais mercados, ou não estamos a prestar um bom serviço.” E a Firma pode ajudar nesse expertise sobre Espanha, Reino Unido, França, Alemanha e agora China, além dos países lusófonos, para maximizar o potencial dos negócios.

Lamentam ter mais ingleses a falar com a Firma do que portugueses – fruto da mania nacional de que o que vem de fora é que é bom –, investidores que querem perceber onde, de um portefólio de países, vale mais a pena investir. “Não nos cabe promover o país, mas acabamos por fazer isso.” E é também por aí que passam as inúmeras atividades sociais que promovem pro bono, sem publicidade ou recibo para obter benefícios no IRC. E também o Prémio Firma, que a agência acaba de lançar precisamente com o mote: Como tornar a economia portuguesa a mais competitiva do mundo – para o qual convida professores, alunos e ex-alunos (este ano da Nova SBE, mas que irá viajar pelas diferentes instituições de todo o espaço nacional, sempre com “reptos nacionais ligados ao tecido em volta” como tema) a apresentar projetos. Um prémio “financiado por nós, com dinheiro próprio, que quer ser gerador de sinergias entre universidades e beneficiar destas diferentes visões.

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