O mercado é uma questão de língua

Editoras internacionalizam-se
Editoras internacionalizam-se

Quando Jorge Vaz Nande trocou Lisboa por São Paulo, o nome da sua profissão também mudou: de guionista passou a roteirista. Esse era um sinal de que, embora continuasse a fazer a mesma coisa e trabalhasse com a mesma língua, tinha de adaptar-se a uma nova maneira de escrever, particularmente tratando-se de diálogos. Três anos depois, Jorge diz: “Foi um enorme desafio. Sendo a mesma língua, não é bem a mesma língua. Empenhei–me em entrar no ritmo, tive de anular portuguesismos.” O ajustamento não implicava apenas usar o gerúndio, escrever “cadarço” em vez de “atacador” ou abrir as vogais quando falava. Cada palavra tem uma história; a sintaxe e o vocabulário relevam quem somos ou quem queremos ser. Jorge sabia que dificilmente uma tia do Estoril diria “bué de fixe”, mas teve de aprender que uma grã-fina dos Jardins, em São Paulo, jamais diria: “Chega aí, truta, qual é as treta?”

Certa noite, um mês e meio depois de aterrar no Brasil, cansado dos enganos, dos “oi?” como resposta e do esforço para anular palavras em detrimento de outras, entrou num McDonald”s. “Não queria saber como se dizia meia de leite (média) ou o que era catupiry (tipo de queijo). Só queria comer descansado”.

Pedir um Big Mac não exigia grandes ginásticas linguísticas. Jorge sentia-se confiante. Até que reparou que faltava uma coisa. “Pedi uma palhinha. Ela disse “oi”?”. Nessa noite, Jorge aprendeu a dizer “canudinho”.

A ideia de lusofonia inspira uma ilusão de proximidade entre países que nem sempre estão tão próximos quanto supomos. A ideia de um mercado lusófono de 250 milhões de pessoas, em quatro continentes, pode estimular a ambição expansionista de bancos, petrolíferas ou hipermercados, mas não inspira delírios de riqueza entre os portugueses cujo ofício é a língua.

Para Mário Patrocínio, realizador português que estreou este mês, no Rio de Janeiro, o documentário I Love Kuduro, rodado em Luanda, e que também dirigiu Complexo – Universo Paralelo, sobre um dos maiores conglomerados de favelas cariocas, a lusofonia é algo limitado: “Se tem “luso” na palavra já está errado, é insuficiente. Devia haver outra palavra porque se trata de uma troca.”

João Pedro Santos, comediante português que vive em São Paulo, é mais duro: “A lusofonia é um tipo num escritório a dizer “Eh pá, lusofonia, que boa ideia”. É tudo uma treta. Bastou duas semanas a trabalhar em Angola para que a minha noção de lusofonia fosse abalada.”

Bárbara Bulhosa, portuguesa que, em 2012, fundou a editora Tinta da China Brasil, diz que a literatura nacional não merece tratamento de preferência: “Há interesse por bons escritores que escrevam em português, não necessariamente pela literatura portuguesa. Se a Dulce Maria Cardoso fosse angolana ou espanhola tinha recebido a mesma atenção quando esteve no Brasil”.

O livro O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, editado pela Tinta da China Brasil em 2012, foi elogiado pela crítica e a visita da autora, convidada para a Feira Literária Internacional de Paraty, mereceu destaque em vários jornais. “Em Portugal, O Retorno vendeu dezoito mil exemplares”, diz Bárbara, “no Brasil vendeu dois mil”. Se os números são excelentes para a realidade portuguesa, não estão nada mal para o Brasil, ainda mais se considerarmos que alguns autores brasileiros, mesmo conhecidos, não esgotam tiragens de três mil exemplares.

Muitas vezes, o prestígio e a admiração que os escritores portugueses suscitam no Brasil é superior à venda dos seus livros. José Saramago, António Lobo Antunes, Inês Pedrosa ou Valter Hugo Mãe, são nomes bem conhecidos entre leitores mais informados. E Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, João Tordo ou Patrícia Reis têm os seus títulos publicados no Brasil. Mas é pouco provável que algum deles venda aqui 250 mil livros, como aconteceu com as obras de Miguel Sousa Tavares, especialmente Equador. Não é fácil encontrar um fenómeno cultural português, de grande expressão, que tenha triunfado no Brasil tal como as telenovelas ou a música brasileira se entranharam em Portugal. Este ano, a fadista Carminho e o músico António Zambujo esgotaram as salas onde atuaram no Rio de Janeiro. O Festival do Fado, que decorreu em São Paulo e no Rio, foi um sucesso de bilheteira e crítica. O filme Tabu criou interesse em São Paulo. Mas são eventos pontuais, que funcionam para uma audiência de nicho, não têm o impacto de Daniela Mercury ou mesmo de Caetano Veloso em Portugal. E mesmo que nunca, como agora, a cultura portuguesa tenha estado tão presente no Brasil, e haja mesmo um interesse crescente por ela, é ainda muito pouco se tivermos em conta o tamanho do mercado.

Por norma, os filmes portugueses só passam no Brasil em festivais de cinema e com legendas. Nenhum filme português registou audiências significativas, especialmente se comparadas com o sucesso de títulos como Cidade de Deus ou Tropa de Elite nas salas internacionais. E se em Portugal há mais de trinta anos que se veem telenovelas da Globo, além dos canais brasileiros agora disponíveis no cabo, aqui só os emigrantes seguem a RTP Internacional e os raros produtos de ficção que cruzam o Atlântico, como Equador e Morangos com Açúcar, passam despercebidos e dobrados. O Brasil produziu no ano passado mais de cem longas-metragens. Através da lei do mecenato, que permite que as empresas descontem parte dos seus impostos para financiar projetos culturais, grandes companhias como a Petrobras têm alavancado as produções brasileiras, que enchem as salas. Em 2012, o filme brasileiro mais visto foi Até que a sorte nos separe, com 3,3 milhões de bilhetes vendidos. No mesmo ano, o primeiro do top dos portugueses, Balas e Bolinhos – o último capítulo, teve 257 mil espectadores.

Jorge Vaz Nande, guionista na produtora Moonshot, alerta para as óbvias diferenças de dimensão e mercado: “A indústria audiovisual aqui é muito desenvolvida, e o tipo de formatos e de exigência aproximam-se do que se faz nos Estados Unidos. Precisas de orçamentos bem grandes, por isso é difícil que um produto com orçamento mais baixo, como costuma ser o português, se torne atraente. Além disso, tens o obstáculo da língua.” De facto, a sonoridade do nosso português, com vogais fechadas, sílabas mudas e frases que se colam umas nas outras sem pausas, torna difícil o entendimento de quem escuta. De certa maneira, os portugueses estão para os brasileiros como os açorianos estão para os portugueses do continente. E além da fonética cerrada, há que ter em conta que a grande maioria dos brasileiros nunca ouviu um português na vida, a sonoridade é-lhes estranha, inédita.

“No primeiro espetáculo de stand up que fiz em São Paulo disse “Boa noite” e riram-se todos”, conta João Pedro Santos. “Pensei: “Isto vai ser fácil”. Eles riam-se, mas fora de tempo. Percebi que não se estavam a rir das piadas, e sim da forma como eu falava. Hoje começo por avisar que, antes do show, fumo sempre um baseado (charro) para desacelerar a língua – assim entendem-me melhor.”

Depois de estudar teatro, fazer peças para crianças e estrear-se na Sic Radical, João entrou para a equipa do programa CQC, da TVI. Mudou-se para São Paulo há dois anos, desafiado por um amigo brasileiro. Preparou um número de stand up de vinte minutos, cuja premissa era a chegada de um emigrante ao Brasil e, depois de um mês e meio a atuar em clubes de comédia, foi convidado para o seu primeiro espetáculo a solo, num teatro. Depois outro e outro. Também faz shows corporativos, que pagam bem melhor. Mas avisa que, embora haja um circuito de stand up e uma poderosa indústria de comédia, viver em São Paulo tem um preço: “Não chegas aqui e entregam-te dez mil reais no aeroporto. A competição é grande e é tudo muito caro. Por vezes trocas seis por meia dúzia.”

João tem participado em diferentes programas de TV, como o talk show do comediante Danilo Gentili, e escreveu uma série e um filme sobre o “Patrício” – um português desencantado com a pátria, que procura amor e um emprego no Brasil. Desde que João chegou a São Paulo, o seu número de comédia foi perdendo as piadas do emigrante: “Tenho muito material sobre o quotidiano paulista, o celular que não funciona, o banco que parece uma prisão de alta segurança. O meu trabalho seria uma merda se o fizesse à custa de ser português. Quero que as pessoas se riam das histórias que conto, não do meu sotaque.”

Jorge Vaz Nande já tinha escrito uma ópera – entretanto escreveu mais duas -, quando trocou uma produtora portuguesa pela Moonshot. “Em Portugal via o Ricardo Pereira, nas novelas, a falar com sotaque e pensava “Porque é que este gajo fala assim?” Mudei de opinião meia hora depois de aterrar. Sou guionista, tenho de vender as minhas ideias.”

Quando a crise chegou, Bárbara Bulhosa não quis despedir ninguém na Tinta da China portuguesa e abriu a Tinta da China Brasil. Teria mais mercado, mais compradores. Os títulos da editora são produzidos em Portugal, tudo é feito internamente pelos nove funcionários. A impressão é brasileira. “Não arrisquei muito, não fiz um grande investimento, fui com muita calma, testando, fazendo um trabalho consistente, não cheguei e venci.” Entre os autores que publicou no Brasil estão Ricardo Araújo Pereira, Alexandra Lucas Coelho e Pedro Rosa Mendes.

O trabalho da Tinta da China é louvado entre livreiros e leitores, e os seus livros considerados singulares pelo cuidado e bom gosto. Quando chegou, em 2012, Bárbara encontrou um mercado em crescimento, com muitos títulos e a promessa de uma população que leria cada vez mais. Como em outros aspetos da narrativa brasileira dos últimos anos, a realidade ficou aquém das expectativas. Não quer dizer que o mercado não tenha crescido, que seja mais sofisticado e que haja um maior número de leitores, mas o entusiasmo superou os resultados.

Serenamente, Bárbara diz saber que, ao publicar autores de língua portuguesa, tem uma limitação – não há muitos escritores lusófonos a vender milhares de livros, menos ainda entre os autores literários. E os países de língua portuguesa não estão no topo do ranking dos que mais leem. “Já não há muitas editoras a trabalhar o texto, o livro”, diz Bárbara. “É isso que queremos fazer. Se fosse por dinheiro…”

Chegar a São Paulo, Luanda ou Díli e poder falar a mesma língua é ainda uma das últimas dádivas de ser português. A língua permite proximidade e identificação. Mas, como negócio, pelo menos para os portugueses, é ainda mais um labor de teimosia – ou de paixão – do que uma forma de construir impérios transatlânticos.

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