Health Cluster

“O olhar do governo para a saúde será determinante”

Salvador de Mello,
(Artur Machado / Global Imagens )
Salvador de Mello, (Artur Machado / Global Imagens )

Salvador de Mello, do Health Cluster Portugal, lamenta que não se use toda a oferta de saúde, pública, particular e social, para recuperar atraso.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Salvador de Mello, presidente da direção do Health Cluster Portugal, fala sobre a forma como temos lidado com a pandemia e as transformações que a covid provocou, incluindo ao nível da smart health. “Avançámos mais nas três ou quatro primeiras semanas do confinamento do que nos últimos dez anos”, considera o responsável.

Nesta resposta urgente à covid, foi preciso repensar toda a rede de cuidados de saúde. Como correu a experiência, nomeadamente ao nível de teleconsultas? A diferença é para ficar?

Há sempre um lado positivo de qualquer realidade e este é, sem dúvida, um dos que se distinguem nos tempos atribulados que coletivamente passámos nos últimos três meses: o impulso e o incentivo à smart health, em particular à disseminação e generalização da teleconsulta. Julgo que se avançou mais nas três ou quatro primeiras semanas do confinamento do que nos últimos dez anos.

A necessidade, neste caso imperiosa, não precisou de aguçar o engenho porque de algum modo já estava aguçado – tecnologia madura e disponível – mas impôs a sua generalização que a utilidade e a comodidade para todos vão agora tratar de garantir que esta diferença é para ficar.

Nas outras doenças houve atrasos significativos – a atividade caiu 30%. As pessoas deixaram de procurar os hospitais. Isso é preocupante? Quanto tempo levará a voltar a normalidade?

Ainda que preocupante a situação era, em grande medida, previsível e justificada nos tempos mais agudos da pandemia. A questão que nos deve preocupar a todos é como rapidamente conseguir recuperar a normalidade. O sistema nacional de saúde tem recursos e capacidades para o efeito e a resposta será tão mais rápida e eficaz quanto mais abrangente for a solução encontrada. Os portugueses terão dificuldade em compreender porque não usamos, já e a todo o vapor, além da pública, toda a oferta disponível nos setores particular e social.

O privado disponibilizou-se para ajudar nesta crise pandémica mas o governo não entendeu isso como um ato desinteressado…

Observámos uma disponibilidade clara do setor privado para o combate à pandemia e uma preparação exemplar. Sabemos que tanto a nível dos grupos hospitalares como das empresas de diagnóstico houve um esforço e um contributo muito significativo na resposta aos doentes. O país deve estar orgulhoso da resposta que o sistema de saúde como um todo foi capaz de dar. Quanto ao governo, foi necessário tomar atempadamente decisões muito difíceis e isso foi crítico para o sucesso que o combate à pandemia está a ter. É evidente que sempre que conseguimos construir respostas integradas e abrangentes obtemos melhores resultados e aí há progressos que podem ser feitos no futuro.

O Health Cluster defende a exportação do potencial da saúde. Como pode Portugal aproveitar este momento para ganhar espaço ou vantagem a esse nível?

A saúde deve assumir um papel central na estratégia de recuperação económica do país. O HCP tem vindo a trabalhar nesse sentido (muito antes da Covid) envolvendo os principais atores do setor desde a ciência à prestação de cuidados passando pela indústria e pela prestação de serviços. Foi nesse sentido que em março do ano passado assinámos com o governo português, através do ministro da Economia, o Pacto para a Competitividade e Internacionalização da Saúde. Agora é preciso agir com determinação. Na Industrialização, na Inovação, nos Dados e na Digitalização há um enorme potencial a concretizar.

Até março, as exportações de saúde cresceram quase 9%, para 277 milhões. O que podemos fazer para potenciar esse movimento?

Estes resultados surgem do trabalho persistente e de fundo que o setor tem vindo a desenvolver há vários anos uma vez que há muito de maratona e de longo prazo na construção da competitividade no mercado global da saúde. O que temos de continuar a fazer é aprofundar e consolidar esta trajetória, o que passa, entre outras opções, pelo assumir definitivamente este como um setor estratégico nacional. É neste sentido que em conjunto com os demais atores da saúde, o HCP tem vindo a trabalhar.

Os resultados que esperamos e legitimamente ambicionamos exigem a participação concertada de todos: da academia às empresas, passando pelos hospitais, pelos departamentos e agências governamentais e pelos reguladores. Há muito para fazer. No Reforço da Internacionalização das Empresas e Captação de Investimento Direto Estrangeiro; na Promoção da I&D, da Inovação e do Empreendedorismo; no Reforço do Capital Humano e da Criação de Emprego; na Redução dos Custos de Contexto; e no Reforço da Eficiência do Sistema de Saúde. O olhar do governo para a saúde e o peso estratégico que lhe der serão determinantes para o sucesso.

Tem noção de quanto custará a covid– quer em consultas, tratamentos e cirurgias perdidas quer em doentes de coronavírus que não serão pagos pelo SNS – ao privado?

Não temos esses números apurados. Em todo o caso julgamos mais interessante conhecer quanto custará a covid-19 ao sistema de saúde português, independentemente de a prestação ter origem nos prestadores públicos, privados ou sociais.

Acredita que esta pandemia – e os seus efeitos, que perdurarão – poderá levar a uma renegociação com uma visão mais amiga das PPP ou da integração de um SNS que considere a oferta pública, privada e social como um todo?

Qualquer abordagem desta temática pelo lado ideológico parece-nos redutora, desfocada e completamente inútil e desinteressante. A questão das PPP e de uma forma geral de toda a organização e financiamento do sistema de saúde português deverá estar essencialmente focada nos resultados para os cidadãos e em particular para a garantia do acesso a cuidados de saúde sempre que deles necessitem.

A gestão privada na saúde é mais eficiente do que a pública?

A dicotomia não deverá ser colocada entre gestão privada e gestão pública mas antes entre boa e má gestão, entre gestão eficiente e gestão não eficiente. Sendo, como já referido, a garantia de acesso em tempo útil a bons cuidados de saúde o primeiro critério.

Num momento de reorganização de forças, que medida gostaria de ver tomada para proteger e potenciar o health cluster português no contexto europeu?

A aposta nacional na marca HealthPortugal, iniciativa que está considerada no Pacto para a Competitividade e Internacionalização da Saúde, que referi anteriormente.

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