Economia

O país aguenta uma nova crise? Agências de rating divididas

Visita de Angela Merkel à Bosch, em Braga. A chanceler alemã foi
acompanhada pelo primeiro-ministro, António Costa.
Fotografia: Artur Machado/ Global Imagens
Visita de Angela Merkel à Bosch, em Braga. A chanceler alemã foi acompanhada pelo primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: Artur Machado/ Global Imagens

Tendo em conta a dívida alta, Portugal não tem flexibilidade orçamental para compensar impactos negativos de crise externa, diz S&P. DBRS discorda.

No final de 2017, quando as economias do euro pareciam voltar a andar com facilidade, com crescimento em alta e criação de emprego, já se sentia que algo mau estava prestes a rebentar, que a bonança não ia durar muito.

Ano e meio depois, a economia mundial está de novo em maus lençóis, num dos momentos mais adversos desde a última grande crise. Irá Portugal aguentar um novo embate, quando passaram apenas cinco anos da saída do programa de austeridade?

O Dinheiro Vivo ouviu economistas que seguem a República nas agências de rating e especialistas domésticos. Estão divididos, a incerteza é muita, o país pode ser apanhado na curva e ter problemas, admitem alguns.

A nível internacional vive-se um ambiente de fim de ciclo. O brexit foi adiado, mas está firme no horizonte (e cada vez mais se acredita que não haverá acordo com a UE, o que será, no mínimo, destruidor para ambas as partes); a Alemanha, maior economia do euro, está estagnada e à beira da recessão; a alta incerteza política tomou conta de Itália e, de certo modo, Espanha; na guerra comercial, EUA e China atacam-se mutuamente.

E ontem, nova brecha: França e Irlanda ameaçam bloquear acordo com Mercosul, um ataque direto ao Brasil de Jair Bolsonaro.

Agências divididas

Jason Graffam é o analista principal que segue Portugal na agência de rating DBRS, a tal que nunca atirou a República para o ‘lixo’, que manteve o país ligado à máquina do dinheiro barato do BCE durante e depois do ajustamento. Este economista está confiante.

“É verdade que existem obstáculos consideráveis à economia portuguesa decorrentes da desaceleração da zona euro e da incerteza mundial”, “um ambiente externo mais fraco irá inevitavelmente ser um empecilho para a economia portuguesa”. Mas “devido às reformas realizadas, ao fortalecimento do setor financeiro e à eliminação de grandes desequilíbrios económicos, o Orçamento do Estado português está hoje numa posição muito mais forte para absorver choques externos, se for confrontado com uma recessão”.

“Embora a ocorrência de choques externos possa induzir uma deterioração orçamental e abrandar o declínio esperado no rácio da dívida, vemos que a trajetória atual já é de redução e saudável”, acrescenta Graffam.

A Standard & Poor’s (S&P) tem uma visão menos benigna. A equipa de analistas chefiada por Frank Gill, o homem que avalia Portugal, diz que as previsões “sugerem claramente que a materialização de riscos negativos mencionados tem, provavelmente, um impacto negativo no crescimento em Portugal”.

“Tendo em conta o nível elevado de dívida pública, na nossa opinião, Portugal não tem flexibilidade orçamental para compensar totalmente o impacto negativo potencial desses riscos quando eles se materializarem”, acrescenta. Diz no entanto, que o rating do país está OK [BBB] na medida em qu Portugal “possui uma capacidade adequada para honrar os seus compromissos financeiros”.

Sarah Carlson, da Moody’s, observa que tal como outros países do euro, “Portugal está a experimentar uma desaceleração económica devido a um ambiente externo bem mais fraco”. A economista ainda acredita que “Portugal atinge a meta de défice de 0,2% do PIB” este ano, mas avisa que há “riscos para o alcance dessas e outras metas, tendo em conta as nossas expectativas de desaceleração”.

Solução: Alemanha e BCE

A crise pode vir muito da Alemanha, mas também é lá que poderá estar a solução. Uma coisa é certa: Portugal será afetado pela via das exportações, mas também da contração do consumo e do investimento privados devido à degradação das expectativas.

António Mendonça, professor do ISEG, diz que não se “atreve a dizer que Portugal está mais bem preparado para fazer face a uma eventual crise”, sublinhando que a “economia perdeu mais graus de autonomia face à situação pré-crise e está mais dependente do que se passar no espaço da UE e do euro”.

Também a economista Cátia Batista, da Nova SBE, refere a “pouca margem de manobra [do País] para respostas eficazes a uma nova recessão”, muito por culpa do “acréscimo nos encargos permanentes do setor público, da redução do IVA na restauração” ou da “redução do horário de trabalho no setor público para as 35 horas sem reforço de meios”, pressionando serviços que têm maior procura em momentos de recessão.

“Portugal não está mais bem preparado para uma recessão do que em 2011 quando o rácio da dívida era inferior em cerca de 10 pontos percentuais”, avisa.

E a solução? António Mendonça lembra que “parte significativa da estabilidade atual deve-se à ação do BCE e aos juros baixos”. O ex-ministro diz que “os ajustamentos têm de ser feitos, quer do lado dos países deficitários quer do lado dos excedentários, cabendo a estes a responsabilidade de puxarem pela economia do conjunto”. O eventual estímulo de 50 mil milhões na Alemanha “é uma notícia positiva” para o economista do ISEG. Além disso, “o BCE será absolutamente necessário, mas não suficiente”.

Para Cátia Batista, “dadas as fragilidades ainda evidentes no setor financeiro português, novos programas do BCE podem ser essenciais para atenuar eventuais crises orçamentais”.

BCE está a preparar uma nova bazuca

Com todo o ambiente a ficar cada vez mais tenso e sombrio, surgem sinais claros de que o Banco Central Europeu (BCE) vai atuar e em força.

Frankfurt ainda não fala em recessão, mas preocupação no conselho de governadores relativamente ao andamento da economia da zona euro. As atas da reunião do dia 25 de julho mostram essa inquietação pelo menos entre alguns membros que discutiram o “desenho e os elementos individuais de um possível pacote de políticas” monetárias.

Outros governadores argumentaram que uma combinação de cortes nas taxas e a compra de ativos era “mais eficaz do que uma sequência de ações únicas”, ou seja, um pacote único e direcionado.

Certo é que a caixa de ferramentas ao dispor é cada vez mais curta e Mario Draghi tem três meses para consolidar a marca do legado à frente do BCE.

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