O país que Gaspar não mostra aos mercados

Passos, Portas e Gaspar
Passos, Portas e Gaspar

Desemprego a caminho de 17%, licenciados sem trabalho há mais de um ano em nível recorde, explosão nos despedimentos coletivos, novas encomendas à indústria em queda livre (ver gráfico em baixo), estrangulamento no crédito às pequenas e médias empresas que vivem do mercado interno (a esmagadora maioria).

Mais: recessão maior do que o previsto, maioria dos empresários a dizer que investirão ainda menos em 2013 e que pretendem reduzir 14% da força de trabalho, salários líquidos da classe média a caírem 17% em apenas dois anos por causa dos impostos.

E mais ainda: emigração em massa de trabalhadores qualificados, queda do país nos rankings da inovação, alta incerteza em torno da manutenção da coesão social e política como nunca existiu até aqui, graças ao PS e à UGT.

Estes são alguns dos sinais que o governo não incluiu na apresentação que levou aos investidores estrangeiros de dívida pública, em janeiro deste ano, antes da primeira emissão (sindicada) de longo prazo, que permitiu um encaixe de 2,5 mil milhões de euros.

Compreensivelmente, a comunicação de 87 páginas que o IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública) levou aos grandes investidores globais vende Portugal numa perspetiva bastante abonatória, em que se toma a coesão social e política como um ativo sólido, que nunca refere a incerteza do ajustamento e da envolvente externa, que compensa a subida em flecha do desemprego com a constatação de que “os salários estão a ajustar, conduzindo a ganhos de competitividade”.

João Vieira Lopes, o presidente da Confederação do Comércio e Serviços (CCP), reconhece que certas políticas seguidas, designadamente algumas que visam estabilizar o défice e a dívida, tinham de ser tomadas, mas queixa-se de que o governo “está a insistir demasiado na dimensão financeira e a esquecer a economia real”. “Às vezes parece que vivem noutro país”, desabafa.

A CCP representa perto de 200 mil empresas de pequena e média dimensão, mas também alguns grandes empregadores, e está em quase todas as atividades. Esta estrutura patronal, uma das quatro com assento na Concertação Social, considera que “a situação da economia real poderá acabar mesmo por refletir-se na perceção que os próprios mercados virão a ter das condições de Portugal para honrar os seus compromissos futuros (o regresso aos mercados expõe-nos ao olhar mais atento destes), provocando uma nova subida acentuada dos juros, o que, a acontecer, nos afastaria definitivamente da companhia da Irlanda e nos atiraria para os braços da sempre indesejável Grécia”.

Como baixar a dívida pública, que já vai em 120% do PIB (e tem de cair para 60% dentro de duas décadas), numa economia que cresce pouco ou nada e oferece pouco potencial, é a grande questão que inquieta vários observadores internacionais.

“Com os desafios orçamentais que ainda estão para vir e com a economia em recessão, a dinâmica da dívida pública continua a ser a nossa principal preocupação”, refere Michael Heydt, vice-presidente da DBRS, a agência de rating do Canadá, que acompanha Portugal.

A Standard & Poor’s reitera as “perspetivas negativas” para o rating português – que continua em BB, um nível considerado lixo, “em reflexo da nossa visão relativamente aos riscos sobre o crescimento e o reequilíbrio da economia portuguesa à luz da dívida e do serviço de dívida elevados”, diz a equipa dos três analistas que seguem a República. “Há uma possibilidade de 33% de o rating ser reduzido nos próximos seis a 24 meses”, diz fonte oficial da agência.

Manuel Caldeira Cabral, professor de Economia da Universidade do Minho, está preocupado com o desinvestimento nas pessoas. “A perda de capital humano está a ser um fator dramático de redução do potencial do país, pois não só se está a degradar o capital humano dos jovens que ficam como se está a perder centenas de milhares de jovens qualificados que, saindo num período de crise prolongada, dificilmente voltarão do estrangeiro.”

Dados do INE mostram que há tantos desempregados licenciados quanto pessoas com a quarta classe nessa situação – cerca de 138 mil de um lado e de outro. No desemprego de longa duração (há um ano ou mais), os diplomados são, de longe, os mais penalizados: desde o início de 2011 que o grupo engordou 84% (quase duplicou), atingindo 70,4 mil pessoas.

No capítulo do investimento em máquinas e tecnologia mais avançada, antecipam-se tempos sombrios. Segundo o inquérito semestral do INE, as empresas com menos de 50 pessoas ao serviço (classe das micro e pequenas sociedades) investiram menos 38,8% em 2012 face ao ano precedente e anteveem um novo corte de 16% este ano. As PME têm 79% do emprego total (mais de três milhões de trabalhadores), pagam 65% dos salários e representam 61% do volume negócios nacional. Ao todo, são cerca de 1,1 milhões de sociedades.

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