Opinião

O pântano no horizonte

Mário Centeno, ministro das Finanças. REUTERS/Rafael Marchante
Mário Centeno, ministro das Finanças. REUTERS/Rafael Marchante

A evolução da economia portuguesa nos últimos dois anos é má. É difícil passar esta mensagem

A evolução da economia portuguesa nos últimos dois anos é má. É difícil passar esta mensagem, porque ela é confundida com as críticas à política económica, com os avisos falhados que o diabo vinha aí, ou com a perceção correta que estamos melhor do que no tempo da troika. O ponto é diferente, e mais importante, porque tem a ver com o longo prazo.

O vinténio 2000-2020 vai ser quase de certeza o pior período para o crescimento económico do nosso país dos últimos 150 anos ou mais. A crise mundial de 2008-10 e a crise europeia de 2010-13 agravaram o problema. Em 2018, Portugal finalmente produziu tanta riqueza como produzia em 2008. Se a taxa de crescimento anual do PIB fosse antes uns normais 3%, Portugal seria hoje 35% mais rico. Mesmo que crescêssemos à taxa medíocre de 1,8% que se verificou entre 1999 e 2007, estaríamos hoje a produzir mais 40 mil milhões por ano, e a receita fiscal seria 13 mil milhões maior, o que dá para cobrir as despesas anuais do serviço nacional de saúde (e sobra), como apontava João Silvestre no Expresso.

O sistema político nacional é excecional por ter resistido a vinte anos de fraco crescimento sem novos partidos, extremismo político, ou mesmo mudança de regime. Dez anos de crescimento económico zero implicam que há uma geração de pessoas de 30 a 40 anos, que quando agora finalmente consegue um emprego estável, tem um rendimento miserável igual ao que esperava ter quando acabou a escola. Não há presidência de afetos ou virar da página da austeridade que resistam muito tempo a isto. A onda de greves atual pode ser em parte conjuntural, ou mesmo oportunismo político, mas a fonte da contestação é o facto de, protestando ou calando, os portugueses terem perdido uma década de progressão económica.

Claro que entre 2008 e 2013 era difícil Portugal crescer. Mas nessa altura fizeram-se reformas importantes, flexibilizando o mercado de trabalho o que ajudou a baixar o desemprego, liberalizando as rendas e a habitação o que permitiu o boom do turismo, facilitando a formação de empresas, limpando o sistema financeiro, e removendo muitas barreiras às exportações. Ainda esta semana, Christine Lagarde elogiava estas reformas. A economia acelerou em 2014 criando a esperança que crescêssemos muito nos anos seguintes para recuperar o atraso. Desiludiu 2015, mas poderá ter sido afetado pela incerteza das eleições e de um governo de minoria, e em 2016 pode-se desculpar que a redistribuição de rendimentos tenha sido antes a prioridade. Mas um crescimento medíocre em 2017 e 2018, sem nenhuma recuperação de terreno perdido, é desolador.

Quem quiser, pode culpar as reformas do tempo da troika por afinal não terem tido tanto efeito; outros vão preferir culpar antes o governo socialista por não ter feito quase nenhumas reformas económicas e não se ter focado no crescimento. Mais importante é perceber que se o estado da economia se mantiver na trajetória de 2017-18, o pântano social e político é quase certo.

Professor de Economia na London School of Economics

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