Web Summit 2019

O que falta modernizar? Há quatro indústrias onde a tecnologia tarda em chegar

Malin Holmberg

(Filipe Amorim / Global Imagens)
Malin Holmberg (Filipe Amorim / Global Imagens)

No microcosmos da Web Summit a tecnologia é omnipresente. Mas na vida real, há sectores que funcionam da mesma maneira há décadas. O Dinheiro Vivo desafiou uma investidora a fazer previsões sobre as indústrias que nos próximos anos irão ser apanhadas pelo furacão tecnológico.

Malin Holmberg é partner da Target Global, um fundo de capital de risco com mais de 800 milhões de euros em investimentos sob gestão. Desde há dois anos que a sua missão é caçar ideias disruptivas e fazê-las crescer até darem frutos. Está, por isso, acostumada a fazer “futurologia”. A investidora veio à Web Summit participar numa palestra sobre “o que falta modernizar” no mundo. Trouxe consigo uma lista concreta de quatro áreas onde “ainda está quase tudo por fazer” e que nos próximos cinco a sete anos irão sofrer uma revolução.

A primeira área que precisa de um abanão tecnológico é a dos cuidados de saúde, afirma Malin Holmberg. E é na Europa que existe, neste momento, uma “tempestade perfeita” para o futuro começar a acontecer.

“A procura por cuidados de saúde está a aumentar drasticamente, porque temos uma população cada vez mais envelhecida e que vive durante mais anos. A obesidade está a aumentar muito e a tornar comuns doenças como a diabetes ou problemas cardiovasculares, o que faz disparar a pressão sobre os sistemas de saúde. Ao mesmo tempo, a maior parte do dinheiro investido nesta indústria vem de fundos públicos, que são cada vez menos. é o momento perfeito para começarmos a inventar soluções que tornem a indústria mais simples e produtiva”.

Inteligência Artificial e análise de dados são as ferramentas que, segundo a investidora, têm mais potencial para tranformar a indústria. “Hoje temos um pequeno problema e vamos ao hospital, onde só deveriam ser tratados os grandes problemas de saúde. Terão de ser criadas soluções mais simples, como chats de vídeo entre médicos ou enfermeiros e os pacientes. A tecnologia vai permitir uma triagem mais eficiente dos doentes, que serão encaminhados para os cuidados certos sem terem de passar por procedimentos caros e inúteis”.

A segunda indústria “obsoleta” que está na mira da investidora é a dos seguros, um negócio “caro e complicado” que não serve as necessidades das atuais gerações. “As pessoas não sabem que serviços estão a pagar. As novas gerações querem comprar online um seguro que satisfaça as suas necessidades imediatas. Nós investimos recentemente numa plataforma que liga as empresas de seguros aos clientes, de acordo com as necessidades que estes identificam”.

Segundo Malin Holmberg, a indústria dos seguros nunca será “verdadeiramente sexy”, mas pode evoluir para algo que as pessoas considerem mesmo como indispensável. A Inteligência Artificial também terá aqui um papel fundamental. “Por exemplo, já não devia ser necessária a intervenção de uma pessoa quando há um acidente de carro. A indústria terá de se adaptar aos trabalhos de hoje. Um motorista da Uber não precisa de ter um seguro durante o dia todo, só nas horas que trabalha. Estão a começar a surgir algumas soluções nesta área”, destaca.

A terceira área que será invadida pelas máquinas será a banca, antecipa a investidora. Apesar de aqui a modernização já ser visível, com o boom das fintechs que teve lugar nos últimos anos, ainda sobram vestígios “da antiguidade” nos bancos tradicionais. “Daqui a 10 anos os bancos não terão, certamente, o poder que têm hoje na sociedade. É um sistema que será democratizado, dando mais poder às pessoas, que terão mais liberdade para escolher investimentos ou pagamentos”, destaca.

O último setor da lista de Malin Holmberg é a construção. Aqui, admite, a modernização vai chegar mais devagar. “As empresas de construção atuais ainda são totalmente analógicas. A introdução de ferramentas digitais vai transformar o setor, mas entre as quatro áreas que identifiquei esta é a que vai precisar de mais tempo para se adaptar à tecnologia”.

Desafiada a olhar para um futuro ainda mais longínquo, a investidora confessa esperar que, dentro de 15 ou 20 anos, a tecnologia já tenha permitido ao homem resolver o problema da mobilidade. “As cidades não serão tão congestionadas e a qualidade do ar será melhor. Já não iremos precisar de conduzir nas cidades, que serão exclusivas para veículos partilhados. E também será interessante ver o quão longe já teremos chegado na questão dos carros autónomos. Acredito que será algo importante e estabilizado nessa altura”.

Em resumo, Malin Holmberg revela que nos seus sonhos futuristas, “dentro de 15 anos as pessoas não terão de perder tempo a fazer coisas que não gostam nem querem fazer”, como conduzir ou cozinhar. “Hoje não conseguimos imaginar a escala de mudança que vamos enfrentar nos próximos tempos. A tecnologia é o que faz avançar a humanidade, e se bem aplicada, pode resolver todos nossos problemas”.

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