O que nos separa da Grécia: corte na despesa e mais exportações

Portugal é hoje diferente da Grécia, sobretudo porque fez diferente. Governo e economistas não têm dúvidas. Portugal, o "bom aluno" da UE, cumpriu as metas e os objetivos traçados pelo programa de austeridade da troika; Atenas prometeu muito, mas fez pouco.

"A Grécia tinha um sobredimensionamento maior do que Portugal, tinha contas manipuladas, além do próprio país ser diferente", explicou João Duque, ao Dinheiro Vivo. "A população grega está mais dispersa e a própria continuidade do território é diferente sendo, por isso, mais ineficiente".

Além disso, "Portugal tem instituições internas (a nível de sistema judicial e fiscal) que podem conduzir políticas. Por isso, Portugal foi sempre uma situação diferente", adianta, por seu lado, o economista Luís Campos e Cunha.

A realidade é que Portugal já não está sob a intervenção da troika e o Governo prevê até que o défice público fique abaixo do limiar dos 3% do PIB; a Grécia, por seu lado, está a negociar um terceiro pacote de ajuda externa.

O que fez Portugal para estar numa situação diferente da Grécia? Os economistas não têm dúvidas: as medidas de corte da despesa e as exportações.

"Portugal fez uma efetiva redução do défice público, através de um conjunto de medidas que incidiram nos rendimentos", adiantou o economista Augusto Mateus. Aumento de impostos (IVA, IRS), corte nos salários da função pública e pensões, redução do investimento público e um novo conjunto de privatizações foram algumas das medidas que fizeram parte do programa de ajustamento português.

"Além disso, também houve um contributo por parte das empresas, nomeadamente na redução do défice externo. Conseguimos reduzir o peso das importações e aumentar o peso das exportações com produtos inovadores e de maior valor acrescentado. Isto permitiu que chegássemos a um défice que ficará aquém dos 3%", acrescentou Augusto Mateus.

"No caso da Grécia, creio que as medidas estão mais centradas nas finanças e menos na economia. A Grécia só conseguirá ter uma situação de estabilidade com a economia a crescer", adiantou Augusto Mateus. A mesma opinião é partilhada por Henrique Medina Carreira. "Não se resolve o problema da Grécia enquanto não se puser a economia a crescer".

No entanto, para Medina Carreia o problema de fundo de Portugal e Grécia é "não terem economia para o Estado que criaram". E a diferença entre os dois países está na despesa. "O que fizemos foi travar os gastos público, o que parece que os gregos não fizeram".

Para Augusto Mateus, Portugal ainda assim continua "numa situação de vulnerabilidade e é necessário continuar a fazer ajustamentos durante mais tempo". O país precisa de "pôr ordem nas finanças públicas e torná-las sustentáveis", fazer "um esforço para uma redistribuição da carga fiscal", até porque há desequilíbrios entre particulares e empresas, e "preparar a economia para quando o investimento público vier e o consumo retomar".

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