OCDE

Gurría trava vinda de Álvaro Santos Pereira a Lisboa depois de estudo polémico

Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia, na Comissão de Inquérito ao Pagamento de Rendas Excessivas aos Produtores de Eletricidade, 7 de fevereiro de 2019. Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia, na Comissão de Inquérito ao Pagamento de Rendas Excessivas aos Produtores de Eletricidade, 7 de fevereiro de 2019. Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Governo do PS não terá gostado do teor de um estudo preliminar promovido por Santos Pereira e este foi "aconselhado" a não vir, como era hábito.

Álvaro Santos Pereira foi aconselhado a não vir a Lisboa, à apresentação do estudo económico da OCDE sobre Portugal (Economic Survey of Portugal 2019), depois de ter havido um “leak”, uma “fuga de informação indesejada” de uma versão preliminar do mesmo, no início de janeiro. O referido trabalho levantava muitas dúvidas e críticas sobre as medidas do governo do PS para combater a corrupção e melhorar o sistema de Justiça.

O governo socialista não terá gostado e Santos Pereira acabou não vir a Portugal para esta apresentação sobre a economia portuguesa, como era seu hábito, por recomendação direta do seu chefe, Angel Gurría, o secretário-geral da OCDE, confirmou este último, numa conferência de imprensa, esta segunda-feira, em Lisboa.

Santos Pereira, que foi ministro da Economia do governo PSD-CDS, estaria a coordenar a redação desse capítulo sobre corrupção em Portugal, tendo divulgado, na altura, nas redes sociais a sua opinião sobre o tema, num tom contundente.

O atual governo do PS não terá apreciado o conteúdo do relatório “draft”, muito menos algumas considerações públicas que Álvaro Santos Pereira vinha fazendo há já algum tempo, no Twitter.

Esta segunda-feira, no Ministério da Economia, agora liderado por Pedro Siza Vieira, foi apresentado o estudo final sobre Portugal pelo secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

O “leak”

Este explicou que, de facto, depois de ter havido essa “fuga de informação indesejada” (“leak”), “sugeri ao Álvaro que não viesse a Lisboa” à apresentação para que esta “não fosse sobre o Álvaro, mas sobre a economia portuguesa”, confirmou o mexicano, que depois fez logo muitos elogios à capacidade do seu diretor como economista da OCDE.

Perante os jornalistas e os membros do Governo, Angel Gurría desdramatizou a situação, dizendo que “há muitas versões preliminares e uma delas provocou um pouco de controvérsia, após um ‘leak’ indesejado e que lamentamos, mas não isso não foi um problema irreparável, terminámos o processo normal como em todos os países”,

Essa versão “esboço” do estudo que circulou foi noticiada na altura pelo Expresso. Ela abordava o problema da corrupção num tom muito negativo, dando como exemplo a Operação Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates (que também era do PS) e outras individualidades e ex-governantes socialistas, um dos aspetos que terão incomodado o atual governo.

“Se o relatório fosse transformado numa simples listagem de ideias feitas, perceções e estereótipos, seria muito errado e Portugal teria de protestar”, ripostou logo Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, ao Expresso, quando confrontado com algumas das ideias vertidas no trabalho preliminar da OCDE, que Santos Pereira já estava a promover na internet.

Assim, segundo apurou o Dinheiro Vivo (DV), terá havido pressão do lado de Lisboa para que Santos Pereira não pusesse os pés em Portugal, pelo menos agora.

Gurría, o chefe máximo de Santos Pereira, não confirmou isso, mas assumiu frontalmente perante os jornalistas que sua a ideia de que Santos Pereira não comparecesse em Lisboa, ao contrário do que tem acontecido (sempre que há algum trabalho da OCDE sobre a economia portuguesa, o ex-ministro vem a Portugal). Isto impediu que a presença do economista português inquinasse ainda mais o ambiente.

Há já uns meses que Santos Pereira insiste na corrupção

De facto, Santos Pereira não tem feito a vida fácil ao governo nos últimos meses. Em maio do ano passado, numa altura em que se acumulavam novos casos e suspeitas de corrupção dentro do anterior governo do PS, liderado por José Sócrates, o antigo ministro do governo PSD-CDS entrou no debate.

Na altura, o Dinheiro Vivo noticiou isso mesmo. No Twitter, Santos Pereira escreveu que “foram as políticas erradas, a corrupção e o compadrio entre a política e os privados que nos levaram à bancarrota, à ajuda externa e ao resgate dos bancos”.

E insistiu que “sem um combate sério contra a corrupção não voltará a haver confiança no Estado e na política”.

Já este ano, também no Twitter, na altura do tal “leak” do relatório preliminar da OCDE, Santos Pereira voltaria à carga na questão de Portugal, dizendo que “sem dúvida, é mais do que tempo de tomar uma ação eficaz contra a corrupção” e que “a falta de uma luta eficaz contra a corrupção enfraquece a democracia, a política e o sistema de justiça”.

O DV apurou que o ex-ministro de Pedro Passos Coelho deveria ainda participar, esta terça-feira, dia 19, num debate da Ordem dos Economistas, na Gulbenkian, sobre o novo estudo da OCDE. O evento também foi cancelado.

(atualizado às 16h55 com mais informação sobre o debate da Ordem dos Economistas que foi cancelado)

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