Alterações climáticas

OCDE. Ambiente e crescimento podem andar de mãos dadas?

poluicao

OCDE defende que preocupação ambiental não compromete o crescimento. Em entrevista, responsável da área do ambiente deixa recomendações para Portugal

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) acredita que é possível ter em atenção as alterações climáticas ao mesmo tempo que se potencia o crescimento económico.

A organização internacional conclui, no relatório “Investing in Climate, Investing in Growth”, que o crescimento económico, a melhoria da produtividade e a redução de desigualdades não têm de ser alcançados à custa de uma economia altamente poluente, numa altura em que a discussão em torno das alterações climáticas volta a estar no centro da agenda, com preocupações em torno da viabilidade do Acordo de Paris, que estabelece como meta uma economia neutra em carbono em 2030.

Em entrevista por escrito ao Dinheiro Vivo, Richard Baron, team leader da área de mitigação da direção de ambiente da OCDE, que estará em Portugal esta segunda-feira, no Dia Mundial da Energia, para uma conferência da BCSD, organização que representa 38% do PIB nacional e que tem vindo a trabalhar na preparação da sociedade civil e económica para este mundo livre em carbono, com o Meet 2030.

Leia mais: Como as empresas se estão a preparar para um mundo neutro em carbono

“Integrar os objetivos da política climática neste momento pode levar a uma importante redução dos gases de efeito de estufa sem impacto negativo no crescimento económico”, diz Richard Baron. O especialista acredita que trabalhar em conjunto a agenda do ambiente e do crescimento em vez de as tratar em separado por levar a uma melhoria económica de 1% nos países do G20 até 2011 e, até 2050, em 2,8%. “Se a economia beneficiar da redução das alterações climáticas, tais como os custos com inundações ou tempestades, então a contribuição para o PIB global será de 5% em 2050”, reforça.

Apesar desta visão, chegar a estas metas tem fortes desafios para os Governos, através da tomada de medidas que assegurem políticas pró-crescimento, defende Richard Baron. “Políticas para a inovação, para a formação dos recursos humanos, para a educação”, diz.

Preocupação com as populações

Outro elemento fundamental, acredita o responsável, é assegurar uma transição para uma economia baseada em baixo carbono mas de uma forma que não atinja negativamente as populações. Ou seja, é preciso ter em atenção como serão tratados os trabalhadores de setores que serão diretamente afetados por estas mudanças para a economia neutra em carbono.

“Apesar de precisarmos de uma atuação urgente para evitar alterações climáticas perigosas os governos podem planear o fim de determinadas atividades e trabalhar com os funcionários e sindicatos para minimizar as disrupções, investir em novas atividades e substituir esta economia de elevado carbono.”

Baron frisa, com base nas conclusões do relatório, que “investir no clima significa investir em crescimento, o que vai contra tudo o que os economistas têm defendido quando olham para este tema de forma tradicional. Temos uma oportunidade para relançar o investimento, a produtividade e a inovação e o desafio é tornar estas condições numa oportunidade de crescimento da economia de baixo carbono”.

Para chegar a esse objetivo, diz, é necessário colocar um preço mais alto no carbono, dando mais certezas aos investidores de fontes de energia de baixo carbono e criando infraestruturas para o transporte de baixo carbono nas cidades. Ou seja, apostar na mobilidade elétrica, em redes de transportes públicos e em energia limpa para alimentar as cidades e reduzir o número de automóveis que funcionam a combustíveis fósseis, por exemplo.

 

A transição para uma economia de baixo carbono tem de ter em conta o impacto nas populações.

A transição para uma economia de baixo carbono tem de ter em conta o impacto nas populações.

O sistema financeiro não passa ao lado desta mudança. Baron defende que o financiamento tem um papel fundamental na transição para uma economia neutra em carbono, direcionando o capital para os países onde é preciso construir novas infraestruturas, nomeadamente para os países em desenvolvimento. “Os bancos de desenvolvimento podem ter um papel importante na ponte entre o setor público e privado”, sugere, sobretudo para o financiamento a infraestruturas mais sustentáveis. Além disso, é preciso acesso a informação transparente para que os investidores saibam o que está a ser feito.

E Portugal?

Baron refere que a Europa já está a fazer este movimento, o que trará benefícios no longo prazo. Questionado sobre Portugal, o responsável refere que há vários desafios na transição para a economia neutra em carbono, sobretudo no que diz respeito à eficiência energética dos edifícios – os edifícios são responsáveis por cerca de 40% do total do consumo de energia anual em Portugal e na Europa.

“Primeiro, não é preciso haver um trade-off entre crescimento, empregos e investimento em baixo carbono. Por exemplo, achamos que o setor da construção fica muitas vezes aquém do esforço de descarbonização da produção energética”.

“Há oportunidades laborais e económicas importantes se os edifícios tiverem eficiência energética à escala nacional, com as políticas e os financiamentos corretos”.

Além, disso, defende o responsável, “além das ações genéricas que devem ser implementadas por todos os países, acreditamos que as respostas têm abordadas com uma visão global dos stakeholders da economia e sociedade civil em torno da estratégia de longo prazo do país e olhando para os vários cenários e para as questões que estes levantam”.

“A transição pode custar em setores específicos se estes não apostarem em inovação. É importante que estes problemas sejam debatidos publicamente”, avisa.

O efeito Trump no Acordo de Paris

Questionado sobre se acredita na concretização das metas do Acordo de Paris, o responsável refere que ainda não é tarde demais para acreditar que sim. “Há contratempos políticos mas também há sinais positivos do lado dos negócios, nomeadamente num reforço da competitividade das empresas de energia renovável, o preço dos carros elétricos e uma realização global de que negócios de alta produção de carbono trazem riscos”.

Do ponto de vista político a subida de Trump ao poder traz preocupações em torno da implementação de políticas para chegar às metas definidas em 2030. Este fim de semana, o G7 não conseguiu chegar a acordo com os Estados Unidos relativamente à as alterações climáticas, o que acabou por provocar novas cisões dentro do grupo dos sete países mais poderosos do mundo.

A aviação terá de se adaptar a esta economia de baixo carbono

A aviação terá de se adaptar a esta economia de baixo carbono

Baron avisa que há incertezas a nível global para chegar às metas, nomeadamente a transição da atividade industrial, com a necessidade de grandes investimentos em investigação e desenvolvimento no setor do cimento, ferro, aço, químicos, transporte aéreo e outras indústrias.

“Há desafios mas estamos a mostrar como uma abordagem da economia a estas questões pode ajudar a cumprir as metas do Acordo de Paris sem penalizar o crescimento económico”, conclui.

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