OIT. Mercado de trabalho do Sul da Europa vergou 18% até aqui

Só América Latina esteve pior. Perdas vão continuar até ao final do ano. Organização alerta contra começar a reduzir dívida cedo demais.

A realidade continua a superar largamente as previsões da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que volta a atualizar em alta os efeitos da pandemia nos mercados de trabalho em todo o mundo. No segundo trimestre, a quebra nas horas trabalhadas no grupo de países onde se encontra Portugal, o sul da Europa, terá atingido os 18%, na pior perda regional atrás das sentidas pelos países da América Central e da América do Sul.

Em abril, a organização previa um impacto a rondar os 16%. O agravamento significa, para o grupo que inclui Portugal, Espanha, Itália, Malta, Chipre e grande parte dos Balcãs, uma redução equivalente a dez milhões de postos de trabalho a tempo completo numa semana de trabalho padrão europeia, com 40 horas. Já no primeiro trimestre, a perda terá chegado aos 5,3%, correspondentes a três milhões de empregos.

A deterioração das condições foi transversal. Globalmente, OIT estima uma quebra de 14% nos meses de abril a junho (10,7% na anterior previsão), correspondente a 480 milhões de empregos. A América do Sul sofre o pior embate, numa redução de 20,6%, seguida da América Central, com uma quebra de 19% no segundo trimestre.

“O encerramento de locais de trabalho e a implementação de outras medidas de contenção, combinados com a rápida deterioração das condições económicas, levaram a perdas imediatas e massivas nas horas trabalhadas ao longo da primeira metade de 2020”, refere o relatório publicado esta terça-feira.

Os cálculos da OIT não se limitam a contabilizar desemprego, mas levam em linha de conta situações de suspensão de contrato de trabalho como no lay-off português e outras reduções de horários, licenças, e ainda a passagem à inatividade de muitos trabalhadores que não entram nas estatísticas oficiais de desemprego.

Aliás, refere a OIT, “a diferença entre inatividade e desemprego esbateu-se nesta crise, uma vez que procurar emprego e estar disponível para um novo trabalho – critérios necessários para a qualificação como desempregado – são frequentemente impedidos pelas medidas de confinamento, fazendo com que muitos desempregados sejam considerados inativos”.

Tem sido também o caso em Portugal. Para março e abril, o INE estimou ainda taxas de desemprego de 6,2% e 6,3%, respetivamente, com cerca de 96 mil indivíduos a passarem à inatividade ao longo desses dois meses.

Também segundo a OIT, as mulheres estão a ser desigualmente afetadas pela pandemia ao prevalecerem nos sectores mais expostos. A organização conta 510 milhões de mulheres a trabalhar nas áreas mais prejudicadas pela covid-19, da restauração e hotelaria à indústria, passando pelo comércio, imobiliários e serviços administrativos.

Além disso, as mulheres dominam na saúde e serviços sociais, nas artes, no trabalho doméstico, e são ainda quem mais fica a cargo de cuidados a dependentes. “Estes impactos desproporcionais nas mulheres podem desfazer alguns dos avanços na igualdade de género no mercado de trabalho e exacerbar disparidades”.

Três cenários em tempos de incerteza

Para a segunda metade do ano, a OIT apresenta novos cálculos, mas reconhece a grande incerteza. O cenário base das previsões, assente na perspetiva de alguma recuperação lançada há dias pela OCDE e nas contas da Economist Intelligence Unit, é o de que no segundo semestre se continue em todo o mundo a trabalhar menos 4,9% que no mesmo período do ano anterior. Equivalem a 140 milhões de postos de trabalho numa semana de 48 horas – ou mais, pelos padrões europeus.

Já no pior dos cenários, o mundo do trabalho pode manter uma quebra de 11,9%. Há ainda uma hipótese otimista que põe o mundo a repor praticamente os níveis de emprego da situação anterior, com uma quebra de meros 1,2% - e que presume inclusivamente que África e países árabes vão ter capacidade de criar algum emprego adicional.

Nestas previsões, o detalhe regional não é tão grande. Portugal surge incluído no grande grupo da Europa e Ásia Central, para o qual a OIT antecipa menos 5,4% de horas trabalhadas ao longo da segunda metade do ano no cenário tido como mais provável. Na pior das hipóteses, a quebra será ainda de 10,6%, e no melhor cenário fica reduzida a 1,2%.

As diferenças no espectro largo de previsões para o futuro imediato do trabalho estarão nas decisões políticas que forem tomadas agora e em breve. É preciso encontrar o “equilíbrio e sequência certos de intervenções políticas na saúde, economia e sociais”, por um lado, alerta a OIT. Por outro, e num momento em que muitos governos se debatem com espaço orçamental limitado para agir, corre-se riscos caso se comece a cortar na dívida pública cedo de mais.

“Os danos duradouros infligidos nos mercados de trabalho, e as difíceis condições económicas que prevalecerão, indicam que as políticas de apoio necessitariam de ser mantidas para sustentar a recuperação, mas tal acontecerá no contexto de condições orçamentais e monetárias sem precedentes. Uma consolidação orçamental prematura, tal como a que se seguiu à crise financeira de 2008 e 2009, arriscaria destabilizar mercados de trabalho já fracos”.

Nos dados compilados pela OIT, até meados de junho 200 países e territórios adotaram 1166 medidas de emergência para acudir à situação de pandemia, incluindo iniciativas para a proteção de saúde e rendimento, do emprego e apoios a quem ficou desempregado. Nas economias avançadas, a despesa representa em média 5% do PIB.

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