Igualdade de Género

Onde mandam as mulheres? Ainda é onde os homens querem

Sandra Correia, Kim Sawyer, Ulla Madsen, Mariana Abrantes de Sousa, Estela Barbot e Maria Cândida Rocha e Silva
Sandra Correia, Kim Sawyer, Ulla Madsen, Mariana Abrantes de Sousa, Estela Barbot e Maria Cândida Rocha e Silva

Da próxima vez que for ao cinema, faça um teste. O filme que está a ver tem duas mulheres que falam uma com a outra sobre qualquer assunto que não diga respeito a um homem? Se a resposta for sim a estes três critérios, parabéns, o filme passou o Teste Bechdel. Agora, os números: numa lista de 5913 filmes avaliados desde 2013, 3407 cumprem os três requisitos. É mais de metade, é verdade. Mas também é verdade que quase metade dos filmes que vemos não tem uma única mulher capaz de falar com outra sobre qualquer coisa que não o namorado. Não é por acaso. A subrepresentação das mulheres é uma realidade no cinema porque é uma realidade na sociedade: nos cargos de administração das empresas, nos cargos de liderança não executivos, nos governos. Há dois sítios onde são a maioria: na população total e na população licenciada.

Portugal não é exceção. Mais de cinco décadas depois de as mulheres casadas já não serem obrigadas a pedir autorização aos maridos para saírem do país, o Governo começou a implementar a obrigatoriedade de uma quota mínima de cada género nas entidades reguladoras. Não em todas; o Banco de Portugal tem um “estatuto especial” e, por isso, só deve procurar “tendencialmente” uma percentagem mínima de mulheres na administração. Mas a imposição de quotas tem sido vista, em Portugal e na Europa, como a solução para a subrepresentação e, por cá, poderá até vir a ser alargada às empresas cotadas; mesmo que, para já, as empresas sejam apenas convidadas a assumir um compromisso voluntário para aumentar a representação das mulheres nos conselhos de administração para um terço até 2018 (ver entrevista à secretária de Estado da Igualdade). Perguntámos a sete mulheres a sua opinião sobre o sistema de quotas e temos uma resposta: num país ideal, não o usariam; aqui, não veem alternativa.

“Há um lugar reservado no inferno para as mulheres que não estão a ajudar outras mulheres”. Ulla Madsen diz isto com um sorriso. Não deseja realmente o inferno a ninguém, mas há uma coisa de que não tem dúvidas. “Os homens têm a sua rede de conhecimentos a funcionar desde sempre. Recomendam-se uns aos outros e são muito bons nisso. É aí que temos de fazer alguma coisa. As mulheres que estão na liderança têm de puxar outras mulheres”, afirma. Quando não há mulheres no topo, são os homens que têm de contrariar a própria natureza humana. “Os processos de seleção favorecem as pessoas como nós”, diz a economista Mariana Abrantes de Sousa. “Se eu for contratar alguém, se calhar, entre três pessoas, vou escolher aquela com quem eu me dou bem, que, provavelmente, será uma pessoa muito parecida comigo”. Esta é uma “tendência natural”, mas “compete-nos contrariá-la”.

Se dúvidas houver, os estudos dissipam-nas. As empresas da lista Fortune 500 com maior representação de mulheres nas direções têm uma prestação financeira superior à das empresas com menor diversidade. Aliás, diz a consultora McKinsey, as empresas que apostam na diversidade têm mais 15% de probabilidade de ter bons resultados financeiros. Não há razão para não se incluir mulheres nos conselhos de administração. Ou há? Há os aspetos culturais e religiosos, para começar, aponta Estela Barbot. “Muitas mulheres, para serem competitivas, apostam na carreira e optam por não constituir família ou adiam ter filhos, o que implica um custo para elas, com consequências também graves na sociedade”, diz a administradora da REN e ex-conselheira do FMI. E “não é por falta de preparação”, acrescenta Maria Cândida Rocha e Silva, que ocupa a presidência do conselho de administração do Banco Carregosa. É que, “tradicionalmente, o homem tem mais tempo, não vai para casa a correr acabar o jantar”. E, “por muito que se vejam já exemplos diferentes, a mulher continua a ser muito responsabilizada pela vida familiar, o que lhe deixa menos tempo para se dedicar à sua ambição profissional”.

É difícil perceber onde começa o problema, mas não é mais fácil saber onde acaba. Não é nas grandes empresas, nem sequer nas pequenas. Mesmo nas startups, onde as mulheres poderiam liderar os seus próprios negócios, a maioria dos CEO é composta por homens. A falta de confiança é o primeiro problema, dizem as mulheres com quem o Dinheiro Vivo falou. A maior dificuldade de acesso ao financiamento é outro, agravado ainda pela falta de mulheres no sector da tecnologia, um dos principais do ecossistema empreendedor. Mas, acima de tudo, “até que o fardo desproporcional da responsabilidade familiar sobre a mulher mude para uma distribuição mais equalitária entre homens emulheres, será difícil aumentar o número de empreendedoras bem sucedidas”, comenta Kim Sawyer, embaixatriz norte-americana em Portugal e mentora do projeto Connect to Success, que apoia mulheres empreendedoras. Em Portugal, diz, há uma tendência que atrasa os empreendores. É a atitude “não consigo”. Mas, para a embaixatriz, é claro que as mulheres portuguesas têm “espírito empreendedor”.

Sandra Correia é exemplo disso. Em 2003, fundou a Pelcor, marca de acessórios de moda em cortiça. Além de mulher, tinha a juventude a jogar contra si. Tinha 32 anos e era olhada “com desconfiança”. Hoje, é convidada para conferências onde participam empresas do PSI 20 e senta-se, invariavelmente, ao lado de homens. “Sou a única mulher no meio deles. Sou muito bem tratada, mas tenho não só de estar à altura deles, como de ser melhor”. Mas, garante, “digo sempre o que tenho a dizer, doa a quem doer”. Esta é, aliás, uma das características que, acreditam as entrevistadas, definem as mulheres. “Os homens são muito hierárquicos, aceitam o que o presidente disser. As mulheres são disruptivas”, diz Mariana Abrantes de Sousa. “Sabem ouvir mais” e têm “uma intuição com a qual conseguem, por vezes, fazer bons negócios”, acredita Sandra Correia. Os homens, por seu lado, são mais persistentes e mais frios na tomada de decisões. Eles estão mais focados nos objetivos, elas têm maior sentido de responsabilidade. Juntos, o que conseguiriam? Como seria um país onde a igualdade fosse plena? Seria um país economicamente “mais produtivo”, assegura Teresa Morais, secretária de Estado da Igualdade. Seria um país onde homens impulsionariam mulheres e mulheres impulsionariam homens, diz Ulla Madsen.

Esta dinamarquesa trabalhou toda a vida no mundo de homens que é a banca. É presidente do grupo feminista Soroptimist International of Europe e, esta semana, veio a Lisboa para a reunião anual das soroptimistas. A conversa com o Dinheiro Vivo começou com uma declaração: “Sou contra as quotas”. Quando foi confrontada com a realidade de Portugal, onde nem uma das 18 empresas do PSI 20 tem uma mulher como CEO e onde só 34,6% dos cargos de chefia (não incluindo apenas a direção) do universo total de empresas são ocupados por mulheres, reconheceu: “No meu país, a mudança aconteceu de forma natural, porque olharam para os melhores e viram que eles promoviam a diversidade. Mas, quando se começa do zero, as quotas podem ser uma forma de começar”. Sandra Correia completa: “Se não existir uma obrigação, as pessoas não vão fazer nada para mudar”. Mas como se chega ao topo? “Com mérito”. Palavra de Estela Barbot. “Mas requer um esforço enorme e é preciso demonstrar que se é capaz, uma vez que ainda há a mentalidade de que o lugar da mulher é em casa e, se essa for a escolha da mulher, e não uma imposição, deve ser respeitada”, admite.

Não cabem, nas páginas de um jornal, os argumentos pela defesa da igualdade de géneros. No fim de contas, pode pensar-se numa só questão. “Se estivéssemos satisfeitos com a forma como temos sido governados, precisávamos de mudar?”, pergunta Mariana Abrantes de Sousa. “Não somos pobres por acaso. Destruímos imenso valor nos últimos 10 anos, por uma série de erros que foram feitos, e se não queremos repetir os mesmos erros, é melhor mudarmos”, diz a economista. O que é que não mudou? “A forma de escolher os líderes, gestores, reguladores e políticos”, diz. Não mudou “a tradição dos homens de confiança”.

Com Tiago Figueiredo Silva

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