OE 2019

Orçamento do Estado numa pen? “10 anos depois é tempo de mudar”

Orçamento do Estado

O mundo tecnológico move-se a ritmo frenético e trabalhar ou entregar o Orçamento do Estado numa pen dura há 10 anos mas é coisa do passado.

Foi a 14 de outubro de 2008. Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças na altura, chegava ao Parlamento várias horas depois da hora marcada devido a um “problema operacional que afetou a finalização do Orçamento”. A entrega do Orçamento do Estado de 2009 foi feita a Jaime Gama numa pen e na primeira tentativa a pen estava… vazia. Foi a primeira vez que se iniciou o ritual da pen, por via das dúvidas, o OE2009 também seguiu por CD. O presidente da Assembleia da República abriu o ficheiro num portátil para confirmar que lá estava o Orçamento e Teixeira dos Santos até brincou: “até o Magalhães a podia abrir”.

Uma década depois, a pen está praticamente obsoleta. É cada vez menos usada e comporta muitos mais riscos do que a chamada cloud, ou nuvem, que mantém todos os ficheiros num servidor na internet que, espera-se, seja seguro de olhares alheios (tudo depende do nível de segurança). Também permite um trabalho colaborativo em direto e imediato – mesmo com pessoas em locais diferentes – sem troca de emails ou de pens e em que não é necessário existirem várias versões do mesmo documento e todos sabem quem alterou o quê. A Insider / Dinheiro Vivo falou com três especialistas nesta área da cloud, que nos falam nas vantagens claras da cloud face à já ‘velhinha’ (nesta era de evolução tecnológica) pen.

E como é que poderia ser o ato simbólico da entrega do Orçamento do Estado 2019 sem a pen, o CD, a disquete ou os vários caixotes com papéis (as formas de entrega anteriores)? A vantagem da cloud é que basta ter acesso a um computador e a internet para aceder a documentos que alguém queira partilhar. Ou seja, o ministro das Finanças Mário Centeno, podia muito bem chegar ao Parlamento, pegar no seu tablet, portátil ou até smartphone e disponibilizar pela cloud o OE2019 ao presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, que poderia confirmar o acesso ao ficheiro mostrando no smartphone, tablet ou portátil.

Leia também | Opinião Mário Centeno no DV: Um Estado construído em compromissos sustentáveis para o futuro

O Diretor Nacional de Tecnologia da Microsoft Portugal, André Azevedo, recorda a entrega há 10 anos do Orçamento do Estado numa pen. “Na época teve um simbolismo indiscutível decorrente do abandono do papel e do compromisso irreversível com a tecnologia”, no entanto, “passou mais de uma década o que, do ponto de vista tecnológico, corresponde a uma eternidade”. O responsável da empresa lembra que hoje “exige-se mais do que um suporte digital que possa fazer as vezes do papel”, é necessário usar as “soluções disponíveis de transmissão e partilha de documentos mais interessantes pelo nível de serviços adicionais que oferecem”. É aí que entra a cloud, que possibilita “o controlo de acessos ao documento, a possibilidade auditoria de acessos, a dispensa de deslocação física e, acima de tudo, a redução do risco de segurança”.

O diretor da Google Cloud em Portugal, Jorge Reto, concorda e acha mesmo que o ato simbólico da pen deveria acabar porque “simplesmente já não é atual” e considera mesmo que seria “um desafio interessante” para a sua empresa em Portugal “arranjar outras forma simbólicas de entregar o Orçamento do Estado”. Certo é que a Google também tem soluções na cloud, usando a ferramenta de produtividade G Suite não só para clientes mas também para trabalhos colaborativos mesmo dentro da própria empresa.

“Algo como um Orçamento do Estado iria requerer níveis de segurança elevados e há muitos possíveis na nossa plataforma, ainda recentemente recebemos um certificado de segurança de alto nível do governo norte-americano”, explica Jorge Reto, que admite que chegam a haver orçamentos dentro da Google com 100 pessoas a trabalhar quase em simultâneo no mesmo documento. E há uma grande vantagem neste tipo de serviços: “está a ser feito o tracking de quem faz o quê e podemos definir quem tem acesso só a leitura, quem pode editar… é uma garantia de segurança”. “Gravar versões para mandar por e-mail ou por pen já não faz sentido”, diz.

Lara Marques, Senior Value Advisor da SAP Portugal, admite que “atualmente, dentro das organizações é pouco usual ver partilha de informação através de pens” e lembra a vantagem da cloud “na partilha de informação de forma mais rápida e até na colaboração em tempo real. Daí que não tenha dúvidas: “o Orçamento de Estado deveria ser feito em tempo real com a participação dos vários departamentos”. Essa solução traz além de maior flexibilidade e eficiência, maior segurança. Já que permite “garantir uma gestão de acessos e autorizações eficaz e rastreabilidade da informação, o que reduz significativamente o risco de acessos, cópias ou modificações não autorizadas, que muitas vezes não são rastreadas quando a informação é guardada numa pen”.

André Azevedo, da Microsoft Portugal, explica que além das soluções cloud permitirem a colaboração interativa por diversas entidades (co-edição), o controlo de versões, a gestão e monitorização dos acessos, a classificação da informação e a proteção contra ameaças, também “já têm funções de inteligência artificial por via de análise avançada e preditiva da multiplicidade de informação e de fontes”. O responsável admite que algumas clouds oferecem hoje “níveis de segurança máximos mesmo quando comparadas com soluções de armazenamento tradicionais em datacenters próprios”.

E que requisitos poderia a Administração Pública ter na utilização de serviços cloud? “ O que deve ser imposto aquando da contratação de serviços de armazenamento e tratamento de informação (nomeadamente através do recurso a serviços de cloud pública) deve ser a localização dentro do espaço da UE e garantias de nível de serviço e de certificação técnica”.

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