Os amigos e inimigos políticos

Duarte Lima com Marques Mendes
Duarte Lima com Marques Mendes

Estupefacção. Era este o sentimento que percorria todos aqueles que conhecem Duarte Lima e que na política muitos combates com ele travaram nas bancadas da Assembleia da República. Acusado pelas autoridades brasileiras do homicídio de Rosalina Ribeiro, ex-secretária de Tomé Feteira, vê o chão fugir-lhe debaixo dos pés, mas, como é seu costume, não vai sem dar luta. Muita.

Durante anos teve grande influência na política nacional, onde chegou pela mão de Ângelo Correia, de quem foi assessor político e de comunicação. Ganhou prestígio, amigos e alguns inimigos. Amândio Gomes, na altura presidente da Câmara de Miranda do Douro, diz que passou a Duarte Lima a liderança da Distrital de Bragança, mas que pouco depois terá manobrado para que Gomes não fosse incluído nas listas para o Parlamento em 1991. Frequenta o escritório do advogado socialista José Lamego e estagia no escritório de Agostinho Cavaleiro Ferreira, onde conhece Valentim Ramalho Rodrigues, que viria a representar Rosalina Ribeira na luta contra Olímpia Menezes pela herança de Tomé Feteira.

Começa a ser envolvido em casos menos claros. O empresário Francisco Silva, natural de Mogadouro, envia-lhe um fax onde pede a sua intervenção para a adjudicação de uma obra pública. Só que o fax, por engano, acaba no Grupo Parlamentar do PS. Duarte Lima garante que nada fez para satisfazer o pedido do empresário. No interior do PSD cria uma animosidade crescente com Pacheco Pereira, com quem viria a disputar a liderança da Distrital de Lisboa. Com Manuela Ferreira Leite as relações também nunca foram as melhores.

Mas onde estão as origens deste homem que vive com um pé no céu e outro no inferno?

Foi por alturas do Verão de S. Martinho, a 11 de Novembro, que Domingos Duarte Lima nasceu em Poiares, no Peso da Régua, no coração do Douro. Ainda criança muda-se para Miranda do Douro, onde se viria a revelar um aluno claramente acima da média. A leitura torna-se uma das suas paixões, assim como a música. Aprende a tocar órgão no majestoso cenário da Igreja da Sé de Miranda do Douro, paixão que se mantém até aos dias de hoje e que o acompanhou em alguns dos momentos mais difíceis da vida. Com a morte do pai, tinha o jovem Domingos 11 anos, é obrigado a conciliar os estudos com o trabalho. Afinal eram nove irmãos e a mãe, Maria de Jesus, fica sozinha com a prole. Inicia-se nos negócios imobiliários, prosperando rapidamente.

Parte entretanto para Lisboa para finalizar os estudos liceais, onde é apanhado pela revolução do 25 de Abril de 1974. Logo aí, adere ao PSD. Entretanto, entra para o curso de Direito da Universidade Católica de Lisboa, que conclui em 1986, acabando por se embrenhar por completo na actividade política. Antes de terminar o curso casa com Alexina Lima de Deus e começa a investir na bolsa, onde viria a ganhar milhares de euros.

Eleito deputado pela primeira vez em 1983, pelo círculo de Bragança, e pouco tempo depois, com a subida de Aníbal Cavaco Silva à liderança do PSD, torna-se uma figura incontornável do partido, chegando a líder parlamentar. Figura cada vez mais conhecida, vê quanto custa a exposição mediática quando o semanário O Independente, então dirigido por Paulo Portas, lhe dedica uma série de manchetes, lançando dúvidas sobre o alegada enriquecimento súbito de Duarte Lima. Pede uma investigação à Procuradoria-Geral da República, que não encontrará indícios criminais, mas também não explica a fonte dos elevadíssimos rendimentos que detém em dezenas de contas bancárias.Passada a tormenta das acusações sobre a origem dos seus rendimentos, Duarte Lima vê abater-se sobre si nova tempestade. É-lhe diagnosticada uma leucemia mielóide aguda, a pior forma da doença, com uma taxa de sobrevivência abaixo dos 40%. Com vários internamentos, resiste à doença e recebe um transplante de medula óssea de um dos irmãos.

Durante os tratamentos, instala um órgão no quarto que ocupa no Instituto Português de Oncologia, que toca sempre com auscultadores para não perturbar os outros doentes. Ainda hoje, é o maior objecto alguma vez esterilizado para um doente no IPO. Quando dá a doença por vencida, é um dos fundadores de Associação Portuguesa Contra a Leucemia, da qual é, ainda, um dos principais dinamizadores.

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